Kadafi e os tolos

Entre ingénuos, legalistas empedernidos e outras espécies se fez grosso coro de indignação relativamente ao (trágico, dizem eles) fim do ditador líbio Kadafi.

Não me é possível deixar deixar de rir perante o alheamento da realidade que muita gente insiste em ter, como se o mundo pudesse ser uma imaculada construção baseada em ideais defendidos à volta de um bom malte e no conforto da poltrona preferida de cada um.

Dizem os paladinos dos bons princípios que Kadafi deveria ter sido preso e julgado. Mas... julgado por quem? E com base em quê? Kadafi era um criminoso? Mas, então, se o ditador líbio era um patife merecedor de pena, em que pé ficam os governantes e empresários que ao longo dos anos lidaram alegremente com ele?

Estariam os líderes europeus, presentes e passados, dispostos a irem a tribunal dizer "sim, ele era um ladrão mas eu fiz negócio com ele", "sim, ele era um fanático mas eu deixei-o pregar na minha capital", "sim, ele apoiava o terrorismo mas eu vendi-lhe armas", "sim, ele perseguia os seus concidadãos mas eu dei-lhe formação"?

É ou não é verdade que Kadafi era um incómodo? Ao contrário de outros patifes menores que podiam cair sem provocar estragos, este tinha demasiadas ligações, demasiada gente a quem se agarrar e dizer "se eu caio, tu também cais". Um julgamento de Kadafi, a ser honesto, demoraria anos e a sua defesa certamente não enjeitaria envolver toda a gente que ao longo dos anos se aproveitou do patife agora morto, para lucrar para si, para os seus partidos, para os seus países, para as suas empresas.

Kadafi era um criminoso mas, enquanto tivesse o poder, era um criminoso que dava jeito...

A hipocrisia no presente caso atinge limites dificilmente suportáveis. É verdade que é apenas mais uma hipocrisia (todos sabemos que a política internacional se faz de interesses e não de princípios), mas custa realmente ver o despudor com que alguns passeiam a sua indignação pela forma como os Líbios acabaram com o seu monstro.

Se formos frios, o que vemos nas imagens da captura de Kadafi? Um homem ferido? Sim, senhores, ele foi capturado após um combate - é a guerra!; Um homem abatido? Sim, senhores - é o que acontece a quem anda em fuga e aos tiros; Um homem pedindo clemência? Sim, senhores - é o natural em quem teme pela sua vida; Gente exaltada? Sim senhores - é o que acontece sempre que o povo está revoltado;

Afinal, das cenas vistas, o que é que varia de qualquer situação de tumulto? Vivemos num mundo assético e puro onde nada daquilo exista? Não conhecemos nas nossas sociedades revoltas, cenas de pancadaria, tiros, brigas? Basta uma aldeia não gostar do padre, alguém beber uns copos a mais numa discoteca ou a polícia entrar num bairro "difícil" para termos semelhantes situações.

Analisar o comportamento das milícias que capturaram um tirano responsável por sabe-se lá que tormentos causados aos elementos daquelas pelo prisma da legalidade e do "respeito pela pessoa humana" é sintoma de alienação. Kadafi estava para além de tudo isso. E quem o capturou foram homems, gente que sofreu na pele os males por ele causados, gente que combatia em pick-ups e que nunca frequentou academias militares onde pudesse ser iniciada no humanismo da Convenção de Genebra, gente que tinha a plena consciência do que Kadafi era e do que lhes teria acontecido caso a sua causa não tivesse vingado.

Querer ignorar tudo aquilo porque os Líbios passaram passando-lhes um atestado de barbárie por causa de alguns minutos de suave vingança (temos todos imaginação tão fraca que não conseguíssemos imaginar tormentos mil vezes maiores do que alguns pontapés?) é revoltante.

A própria exposição do cadáver e a visita feita pelas gentes (queriam certificar-se de que ele tinha mesmo acabado) é apontada como sinal de fraqueza moral da "nova Líbia". Estivesse Kadafi embalsamado e numa vitrina e talvez muitos dos que agora se queixam pagassem bilhete para o ir ver, como devem ter feito, por exemplo, no túmulo de Lenine.

Kadafi nunca poderia ser julgado. Kadafi nunca seria julgado. Ao contrário de Mussolini ou Ceausescu (igualmente mortos e exibidos pelos civilizados europeus), a Europa estava demasiadamente ligada a este ditador. Serviu-se dos seus crimes para encher os seus cofres e matá-lo seria sempre a forma mais fácil de encerrar a questão. Se ele não tivesse morrido na rua, teria morrido na cela. A julgamento nunca iria, por mais que isso incomode os tolos e os inocentes.

Era nosso amigo, deixámo-lo acampar com o seu circo nos nossos monumentos, permitimos-lhe passear o seu harém de guarda-costas nas nossas cidades (o que aconteceu às bravas guardas quando a coisa se tornou feia?), fizemos-lhe salamaleques, enviámos-lhe as nossas raparigas bonitas para que ele lhes pregasse o Corão, comprámos-lhe o petróleo, vendemos-lhe as nossas armas e, agora, queríamos julgá-lo...

Política de merda, merda de políticos!



3 comentários:

Adamastor disse...

estou contigo camarada...

joaquim disse...

Ditador líbio e não libanês.

Catinga disse...

Estúpida gralha, corrigida.

Obrigado Joaquim.