A casa dos segredos e o reino do amor


Neste Natal, o habitual futebol foi substituído no par de tardes em família por doses cavalares de Malato. Há Malato nos seus próprio programas, há Malato nos programas dos outros, Malato aqui, Malato ali. Não é um Malato, é uma maleita!

Por à noite o Malato estar a descansar, passámos para "A casa dos segredos". Até aqui só tinha visto uns poucos minutos do "show", o suficiente para sorrir com a profunda estupidez daquilo tudo. "Ontem", foram mais do que uns minutos. Em frente à TV, das sete pessoas que "não veem o programa", cinco estavam dentro de tudo o que por lá se passava e, destas, pelo menos três tinham concorrentes favoritos. Há espíritos assim, com uma fantástica capacidade de análise das situações, mal entram em contacto com elas. Havia ainda uma outra pessoa que, não via o programa mas tinha trazido a TV Guia para ler a história de uma das concorrentes.

Segundo as pessoas que não veem o programa, há por ali gajas ninfomaníacas, gajas putas, gajas de cabaret, gajos de discoteca, gajos da musculação, gajas do striptease, gajas porcas, gajas estúpidas, gajos broncos, gajos chungas, gajas divorciadas e, ainda, uma apresentadora que é uma gaja que não devia ter nascido.

A mim, que não vejo mesmo o programa, ficou-me uma imagem de amor. Toda aquela gente, por mais bizarra que seja a sua história de vida ou mais banal que seja a sua falta de categoria, ama desesperadamente. A "Casa dos segredos" é um hino ao amor. Os concorrentes amam a mãe, amam o pai, amam a irmã, o irmão, o tio, a tia, o cão, o gato, a avó, o avô, o cágado, a terra, o país, a apresentadora, o técnico de luzes, "a voz", o gajo dos hamburgueres, o cabeleireiro, o arrumador de automóveis, o primeiro-ministro, o fornecedor das anfetaminas, o dono do bar da esquina, a professora primária... Enfim, eles amam!

Muitas vezes, no meio de tanto amor, perde-se o sentido da palavra e os concorrentes da casa têm de sublinhar que "amam mesmo", "amam muito", "amam tanto" e - diz-me o meu espírito cínico -, provavelmente, também "amam bué".

"A casa dos segredos" é o verdadeiro espírito de Natal. É o amor enlatado num formato televisivo e que devia ser vendido em qualquer supermercado. É o exemplo de que há esperança no mundo e de que Portugal tem futuro. Não é possível ver aqueles concorrentes, barbaramente isolados do mundo, agarrados às mães (que os puderam visitar) e jurando-lhes amor incondicional banhado a lágrimas, sem achar que aquela gente é um concentrado de paixão maior do que o mais lírico dos poetas. Aquilo, meus senhores, é o êxtase da condição humana, é o mais cristão de todos os programas e devia ser recomendado pelo Papa nas suas prédicas dominicais.

Na casa dos segredos ama-se o próximo com a naturalidade e a intensidade que só os espíritos tocados pela centelha divina podem ter. Teresa Guilherme é, portanto, uma espécie de Espírito Santo que conduz todos aqueles amores (há gente tão querida), amantes (há quem salta de cama em cama) e amadores (há quem tenha essa relação com a inteligência) em direção à redenção pelo amor e isso é muito bonito e espetacular. Mais, é brutal! Bué, mesmo.
     

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