Os pombos abandonam o avião

A Pátria serve-se de muitas formas mas ninguém parece perceber melhor disso do que os militares. Seja na messe beberricando vinho do Porto, na sala de reuniões discutindo política ou algures no cu de Judas patrulhando estradas, os militares dão lições a qualquer um sobre o que é "servir a Pátria". Eventualmente, poderão ter de disparar um tiro (coisa que já pouco se espera) e, aí, passam de "servidores" a "heróis". Seja como for, ter um camuflado ou uma "farda nº1" vestidos são sinais de que devemos bater a pala e apreciar o esforço, a abnegação, a coragem e o elevado sentido de serviço público dos nossos homens de armas.

Se alguém tivesse dúvidas de que os militares são gente de coragem, bastaria pensar nos muitos pilotos da Força Aérea que abandonam a pacífica aviação militar para ingressarem na TAP que, como sabemos, é uma empresa sempre em guerra. E fazem-no pelo puro prazer de servir a nossa "companhia de bandeira" e de levarem o nome de Portugal mais longe, pelos céus do mundo.

Recentemente, dezenas de oficiais da FA pediram para abandonarem "a tropa" para não serem apanhados pelos cortes salariais que entrarão em vigor em 2012 (já chegaram, portanto) e outras medidas de austeridade como, por exemplo, o congelamento das promoções. Mais uma vez, é preciso coragem para tal. Não é impunemente que se abandona uma profissão geralmente muito bem remunerada e, no caso dos oficiais superiores, podemos facilmente imaginar as dificuldades que passaria um general ou um coronel com menos umas centenas de euros por mês. Quanto às promoções, a nossa solidariedade só pode ser total: quem ingressa na carreira das armas para servir a Pátria espera, naturalmente, que a Pátria também o sirva. Se a Pátria se mostra madrasta, então, há que mostrar-lhe o descontentamento... abandonando-a. Nada mais justo.

(segundo a imprensa, um Tia vai substituir um Tareco no comando da Força Aérea, em Monsanto. Não seria, também, de passar o dito comando para Cascais?)

A honra em servir a Pátria é diretamente proporcional ao cheque que a Pátria passa. É por isso que os militares destacados no estrangeiro ganham uns milhares de euros mensais (3.000 para um soldado) e são os que mais orgulho têm em servirem Portugal. E isto é sublinhado pelo próprio poder político quando algum responsável vai visitar "os nossos homens". Aquela gente sorri... de puro orgulho.

Da miríade de profissões essenciais ao funcionamento de um país, apenas aos militares é concedido o direito de servirem a Pátria. Professores, médicos, bombeiros, políticos (sim!), motoristas, operários de todas as espécies, "gajos da informática", polícias, mães e pais, funcionários do Estado... a ninguém mais é concedida a honrosa graça de ser um servidor da Pátria. Toda esta gente - ou gentalha, se preferirem -, é uma massa de criaturas egoístas que se servem, aproveitam, roubam - até -, a Pátria. E, muitos deles, ganham pouco. O que é inteiramente merecido, já se vê.

Costuma-se dizer que, quando um navio afunda, os ratos são os primeiros a fugirem. Aqui não há ratos nem barcos, há, quando muito, pombos que batem as asas quando o avião cai. A todos aqueles que se cansaram de servirem a Pátria quando a Pátria deles precisou e não ofereceu ajudas de custo, promoções garantidas e outras benesses desejo, portanto, que batam asas para muito longe, para longe da crise e, sobretudo, para longe de nós!

PS - o "autor deste texto" tem, na sua família mais próxima, dois oficiais superiores das FA e um ex-soldado e é filho de alguém que, chumbado na inspeção (por doença) pediu para lá voltar e assim poder ser admitido nas fileiras (o que aconteceu). O "autor deste texto" também teve nas mãos os formulários para a candidatura à Academia Militar. Finalmente, o "autor deste texto" abdicou voluntariamente de um quinto do seu ordenado (desde há um ano) para ajudar a empresa onde trabalha.

Sem comentários: