Esquerdistas e Evangelistas


Esquerdistas e Evangelistas partilham mais do que uma inicial. Geralmente separados por um oceano ideológico, ambos têm em comum alguns aspetos particularmente irritantes: vivem de certezas absolutas, confiam no líder como expoente máximo da razão, detestam os "outros" e sentem uma pulsão incontrolável para o proselitismo. Destes quatro defeitos, o último é, para mim, o pior, porque abandona a esfera privada das manias e crenças de cada um e salta para a rua. Para as criaturas de que falo, o conceito de "deixar os outros em paz" é difícil de compreender. Para elas, há que aproveitar todas as ocasiões para propagandear o "salmo" do momento e nada, nem ninguém, está a salvo das bíblias e dos cravos.

Há festa de aniversário? É entre Maio e Abril? Contem com um comunista a querer substituir o "Parabéns a você" pelo "Grândola Vila Morena". O aniversariante gosta de jardinagem? Então, a melhor prenda é um kg de sementes de cravos. A vítima gosta de ler? Há sempre a seleção de discursos de Vasco Gonçalves (ou, se o fanático for do tipo evangelista, a opção pode ser uma bíblia de bolso em preto "matte"). Em último caso, se não houver dinheiro para uma prenda, o convidado pode optar por aparecer vestido com uma simples camisola do Che Guevara. E, se a festa for ao ar livre, não se põe de parte um bonezinho com uma estrela (vermelha). Importante, mesmo, é não permitir que os outros deixem de notar que se é de esquerda.

No caso dos evangelistas, dado o recato com que se vestem (que os impede de andarem com camisolas com o Cristo), a melhor maneira de se fazerem notar será sempre a escolha de palavras. Quando uns dizem "que contes muitos", o evangelista logo acrescenta "Queira assim Deus nosso Senhor!" e, para melhor identificação da origem da sábia expressão, detalha: "Sermão do Rio, página 13, linha 42". Ámen.

Naturalmente, a degradação moral da nossa sociedade faz com que a maior parte de nós não aprecie quem faz questão de nos tentar impingir as suas ideias. Há um espírito de "quero lá saber" que os fanáticos de esquerda e de igreja detestam e tudo fazem para combater. Chamam a isso "despertar as consciências". Uma das maneiras de "despertar as consciências" é poluir as contas de Facebook com vídeos sobre o 25 de Abril: grupo de antigos alunos da pré-primária? Tomem lá um Salgueiro Maia no Largo do Carmo; página de apoio às criancinhas vesgas? Ora aqui está o "Avante camarada", para abrirem os olhos; notícia da morte de um antigo campeão do berlinde? reconfortem-se com uma cuidada seleção das melhores frases do Pastor Gerson.

Não há como escapar à praga dos moralistas pegajosos. Porque todo o verdadeiro esquerdista (ou evangelista) é um moralista. Tudo passa por aí: pela noção de que se é moralmente superior. E quem se se sente melhor, sente, por um lado a obrigação de "melhorar" os outros e, por outro lado, a vaidade de mostrar a todos os outros que se é... melhor. A isso chama-se a "consciência de si mesmo".

Os esquerdistas são como os tipos do tunning: não lhes basta terem um veículo, há que o decorar para dar nas vistas. Vai daí, surgem os cravos na lapela, os lenços palestinianos, os bonés com estrelinhas, as camisolas do argentino de barbicha e toda uma parafernália de acessórios que funciona como os "aleirons", as "saias" e as luzinhas debaixo do carro. O objetivo? Dar nas vistas. E se o "tunnista", com o seu mau gosto, grita ao mundo "eu sou mais bonito e forte", o esquerdista logo berra "eu sou mais bonito e forte e se vocês não percebem isso é porque são uns fascistas de merda!". Não há que enganar: se virem um tipo com sinais exteriores de esquerdice, fujam, antes que ele se aperceba da necessidade de vos converter...

E... se vocês não se quiserem converter? Aí, surge nova semelhança entre os esquerdistas e os evangelistas: a negação do direito, em nome da Liberdade. A Liberdade é o nobre conceito que dá o direito aos fanáticos de moerem o juizo aos outros, ao mesmo tempo que nega a estes (os outros) a liberdade de responderem adequadamente. Sim, tentem dizer a um evangelista que se estão cagando para a religião ou, a um esquerdista, que se borrifam para as marchas abrilistas. Tentem! A Liberdade não é um cacete mas, se o fosse, acertar-vos-ia bem no meio da cabeça com todo o peso da raiva dos "justos".

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