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Estoril-Sol: foi para isto?!

O título deste texto podia ser diferente, qualquer coisa do tipo "Como um monstro me estragou um passeio em Cascais". Julgo que até seria bem mais adequado ao que eu senti quando, há uma semana, me armei em turista e fui laurear a pevide na nossa vila "bem". Voltinha pela terra, visita à Casa das Histórias (recomenda-se em absoluto!), outra volta pelas ruas interiores da localidade e - como não podia deixar de ser -, a contemplação da famosa Baía de Cascais (com ou sem Delfins), ali juntinho à Cidadela.

Ao chegar junto ao forte, reparo na nova estátua ali colocada: um enorme D. Carlos, em trajo marítimo, encostado à amurada de um iate e segurando numa mão uns binóculos. A peça, em si mesma, não merece nem elogios, nem críticas. É daquela estatuária que não compromete (só talvez pelo tamanho pouco natural) e, republicanismos à parte, o defunto bem que merece uma homenagem na "sua" Cascais. Mas, pobre do monarca assassinado, como se não lhe bastasse terem-no levado dos prazeres da vida antes de tempo, agora ainda o sentenciam a contemplar ad aeternum todo o esforço das gerações atuais em destruir a bonita paisagem que aristocratas e plebeus se habituaram a apreciar.

Mirar a baía é apercebermo-nos do contínuo desvario imobiliário que corrói a marginal, lhe retira o encanto e torna a Linha de Cascais em apenas mais uma floresta de tijolo e cimento, tão incaracterística como é qualquer agloremado urbano feito a pensar no lucro da especulação imobiliária.

Mas, se há coisas que ainda se suportam, outras existem que provocam em nós um sentimento de revolta tão mais forte quanto é perfeitamente evidente que nada nem ninguém se preocupa em travar o monstro que devora identidade e paisagem num só movimento. O caso da demolição do Hotel Estoril-Sol é sintomático. Disseram-nos que a destruição do ícone da Linha se impunha por questões ambientais: era um volume exagerado, desfeava a paisagem, não tinha a ver com a envolvente... Tudo argumentos mais ou menos defensáveis que poderiam ser bondosamente aceites numa sociedade equilibrada. Há muito que me tinha conformado com o desaparecimento daquele prédio que, para mim, sempre ali tinha estado e era tão parte do eixo Estoril-Cascais como qualquer outra coisa. Vi o edifício ir sendo deitado abaixo e aprendi a aceitar o facto. Ponto final... mas não parágrafo. Porque, afinal, a intenção de acabar com o Estoril-Sol nunca foi a requalificação da paisagem mas sim a especulação imobiliária e os lucros a ela associados. Afinal, a excessiva volumetria do hotel não era problema nenhum. Afinal, o aspeto "incaracterístico" do imóvel (que era, apesar de tudo, a marca de uma época que já não volta) não tinha nada a ver com a verdadeira questão porque, para meu enormíssimo espanto, no local onde se erguia orgulhosamente um dos mais conhecidos hotéis do país, está, agora, um horrível monstro de vidro maior do que era o demolido hotel, ainda mais incaracterístico, ainda mais deslocado da paisagem, exercendo ainda mais pressão sobre a marginal e constituindo um perfeito aborto visual na panorâmica da baía!

Passar na estrada é ter a sensação de que aquela "obra de autor" (Gonçalo Byrne) nos vai esmagar, que um daqueles "contentores" empilhados vai cair e reclamar para si o domínio da passagem costeira. É uma obra que é um atentado à paisagem, ao bom-gosto, ao equilíbrio urbano. Visto a partir de Cascais, parece que alguém se lembrou de juntar ali umas peças de Lego e chamar-lhe um edifício de prestígio.

O belíssimo casarão do Tribunal, ao longe, praticamente já não se nota, devido ao tom escuro do mastodonte envidraçado que não permite o contraste que antigamente existia entre os telhados do "chalé" e o cimento do Estoril-Sol.

Perdeu-se uma identidade de Linha, perderam-se referências arquitetónicas, perdeu-se "charme" e, até, alguns elementos artísticos. Tudo para que no seu lugar nascesse mais uma coisa vulgar (o que é diferente de dar nas vistas), recheada de banalidade decorativa pronta-a-usar e pronta a contentar o pretenciosismo de uns e a falta de valores estéticos de outros.

E o massacre não irá parar ali, bastando estar com atenção à quantidade de casarões antigos que fariam as delícias de qualquer pessoa com o mínimo de gosto pelo património e que estão entregues ao abandono e à degradação, à espera do melhor momento para serem dados como perdidos e poderem ser entregues à máfia do betão para que ali nasçam mais condomínios de "prestige", mais "residences", mais "gardens"... enfim, mais merda da qual já estamos fartos!

Lá no alto onde está, D. Carlos, impossibilitado de desviar o olhar, certamente não deixará de ruminar com os seus botões que a "piolheira" continua igual a si mesma...

Instantâneos urbanos



Lisboa: interior de um quarteirão junto à Av. Columbano Bordalo Pinheiro
Lá vai mais um...

Ao que parece, a cidade prepara-se para perder mais um prédio antigo. Este, situado na esquina da Av. Miguel Bombarda com a Av. Marquês de Tomar, há já muitos anos que só abrigava uma mercearia "gourmet" e uma farmácia (que fica no registo da História por ter sido o local onde comprei os primeiros preservativos para impedir que o mundo conhecesse prole minha). Hoje, começou a largar pedaços e a área circundante já está vedada pelos bombeiros.

Não estamos a falar de um imóvel de grande valor arquitectónico mas é, concerteza, um representante digno do estilo aplicado na construção das chamadas "Avenidas Novas" da capital. Sobretudo, é um espaço onde poderiam viver confortavelmente largas dezenas de pessoas, numa zona central da cidade.

Decadência, ruína, abandono: hoje, alguém estará a comemorar em grande o lucro que se avizinha com a construção de mais um edifício de habitação de "prestige" ou de escritórios.
Lisboa está cheia de edifícios assim. Estou, inclusivamente, a preparar um site de imobiliário exclusivamente dedicado a estes casos. Não é possível caminhar dez minutos por Lisboa sem nos depararmos com casos confrangedores de património deixado ao abandono: moradias, quintinhas, prédios, palacetes...

E o mais giro é reparar que continuamos a não penalizar os filhos da mãe que deixam as coisas caírem! No tempo de Santana Lopes, a CML começou a reparar alguns edifícios, tomando posse deles enquanto os senhorios/proprietários não cumprissem com as suas obrigações. Um desses exemplos está na Av. da Liberdade, tendo, na altura, sido colocado um enorme cartaz a chamar a atenção para a medida. A verdade é que os anos passaram e o prédio continua por recuperar. Um dia destes, lá estarão os bombeiros, também...
Eis um bom exemplo de recuperação (pelo menos, por fora). O edifício junto ao Jardim Zoológico, na Estrada de Benfica (Lisboa), estava a precisar de arranjo e arranjado foi. Agora, exibe paredes lisas e pintadas e um ar geral bem janota. Se fosse sempre assim...

Mas, diz a má-língua bloguística que a placa colocada na fachada e que identifica o imóvel como sendo o antigo Palácio do Visconde de Farrobo está errada já que o dito se encontraria do outro lado do Zoo, i.e., na Estrada da Luz.

Esperemos pela correcção. Entretanto, salvou-se património. Viva!

Cinzento

Hoje temos mais um exemplo do que é arquitectura deslocada. Olhe-se para o exemplar construído há já algum tempo em Benfica. Quanto às formas do bicho, não há nada a apontar: não é bonito, nem é feio e muito bem estaríamos nós se este fosse um caso de fealdade nas formas. Não, o que importa aqui apontar é a escolha da cor: cinzento escuro! Alguém se lembrou de fazer, numa zona densamente povoada, um prédio de cor escura. Talvez o arquitecto andasse deprimido, talvez estivesse com problemas em casa, talvez fosse gótico mas, por timidez, não quisesse pintar a obra de preto, talvez achasse que havia luz a mais no local e, vai daí, pinta o prédio com a cor que se vê nas fotos.

As pessoas compraram as casas. As pessoas compram qualquer coisa e, muitas delas, talvez até sentissem algum tipo de identificação entre as suas alminhas e a cor do prédio. Poder-se-á por a hipótese de alguns cavalheiros acharem que o prédio condiz com os seus fatos...

Bom, mas os habitantes não são, obviamente, culpados de nada. Já quem desenha, constrói, promove e - finalmente -, quem aprova a implantação de um bajolo cinzento escuro num bairro habitacional, esses... já deviam ter de apresentar umas explicações.