Mostrar mensagens com a etiqueta Cultura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cultura. Mostrar todas as mensagens

A festa

O "Teatro do Eléctrico" já nos habituou a um estilo muito próprio: peças relativamente curtas, com tónica num humor quase absurdo, servidas por ótimos atores. Desta feita, a obra em cena no Teatroesfera (Queluz) é um original do italiano Spiro Scimone, traduzido por Jorge Silva Melo, e que nos apresenta uma família desfuncional: um pai bruto, uma mãe burra e um filho "espinhoso". Os três encarregam-se de nos provocar constantes gargalhadas com os seus comportamentos em casa.

Conselho: a não perder.

P.S. - às Quintas, é só cinco euros.

Mais uma brilhante interpretação de Joaquim Monchique, numa dose cavalar de riso. A não perder!

Bom apetite, má digestão

Por indicação de um dos apresentadores do "5 para a meia noite" (via TV, entenda-se) fui à Casa da Comédia para ver a comédia "Bom apetite". Ir a este teatro é sempre um duplo prazer porque, para além da diversão, há ainda a bonita envolvente a pedir um passeio noturno. Desta vez, porém, a coisa ficou-se pela voltinha. A peça "Bom apetite" é a história de um botequim decadente, à beira de fechar por falta de clientes e está indicada como sendo uma comédia. "Indicada", digo eu mas não aprovada como tal. No que diz respeito à capacidade de fazer rir (é isso que se pretende no género), este trabalho (apesar de tudo, razoavelmente interpretado pela única pessoa em palco) é tão eficaz como um vídeo de um funeral. Piadas, se existem, mal se notam porque o texto parece não passar de um infindável contínuo de pequenos nadas e desinteressantes banalidades nascidas da presença de objetos no cenário.

O início da peça, com um faduncho introdutório do tema até prometeu e, provavelmente, arrancou-me os únicos sorrisos da fria noite (pela temperatura na sala e pelo pouquíssimo público presente) mas imediatamente notei que, a partir dali, pouco sumo sairia do desinspiradíssimo texto. Há qualquer coisa de errado quando se permite que coisas tão evidentemente más subam ao palco. Só não saí da sala por um sentimento de vergonha e porque, apesar de tudo, há que respeitar a pessoa que, à nossa frente dá o seu melhor para defender um texto alheio.

Não tivesse o preço da entrada sido tão barato (EUR 5) e a comédia ter-se-ia transformado num perfeito drama. O termo "preço de crise", usado pela publicidade à peça, bem podia acrescentar que a maior das crises é a de qualidade da autora, uma cidadã espanhola que, não contente por não ter jeito para graças, ainda acha que o cartaz de uma peça representada em Portugal, por uma portuguesa, para o público português e patrocinada por entidades portugueses, deve ter parte do texto escrito em... Espanhol. Em distrações destas eu não acredito.

E não se pode matá-los?

Poder... podia-se, mas era chato. E deixávamos de nos rir com com a profunda estupidez e rudeza das personagens desta peça em cena n'A Comuna. A violência, os complexos, a hipocrisia... tudo ali, à nossa frente e à nossa volta, que este espetáculo tem a particularidade de ser visto em pé, junto aos atores, partilhando público e artistas o espaço habitualmente reservado aos segundos.

Uma peça fresca e divertida que só peca por alguns tiques politicamente corretos impostos pela costumeira visão de que a violência maior é a ritual e a de reação. Ainda assim, ultrapassando esse pormenor (em que, porventura, a companhia depositará esperanças), restam-nos momentos absolutamente hilariantes como, por exemplo, o número de Fado interpretado por Carlos Paulo.

A não perder!

PS: Preço? Cinco euros... Querem melhor?

9 contra 8: quem ganha? Ninguém!

O Teatro Ibérico (mais um espaço a descobrir, ali em Xabregas) estreou a peça "Salomé", de Oscar Wilde. O texto conta-nos a famosa história bíblica da princesa que exigiu a cabeça de João Batista numa salva de prata, em troca de uma dança lasciva perante o rei. Foi a segunda vez que fui ao teatro em questão e fi-lo muito pela vontade de voltar a tão agradável local.

Mas, se é verdade que a mesma água não corre duas vezes sob a mesma ponte, também as sensações que temos dificilmente se repetem de forma exatamente igual. O teatro que eu antes tinha visto cheio de gente para assistir a uma tragédia grega estava, ontem, um Sábado, tão despido de público que se verificou a curiosa situação de serem mais os atores do que os espetadores! Na prática, eram nove no palco para oito nas cadeiras. A razão de tão baixa afluência escapa-me mas não me deixa indiferente: ser ator de teatro é, decididamente, uma constante e exigente prova ao profissionalismo e à capacidade de alienação perante a envolvente. Há que dar valor a quem está num palco olhando para uma bancada (a do Teatro Ibérico é considerável) e apenas vê a cor das cadeiras, não deixando, por isso, de se aplicar. Em quantas outras profissões poderemos reconhecer semelhante comportamento? Um músico pode tocar para as paredes e ainda assim ter um considerável gozo porque a música é, antes de mais, um prazer íntimo; um futebolista pode estar rodeado de cimento nu mas ainda se sentir motivado pela disputa e pela competição... mas, um ator de teatro? A representação "ao vivo" só existe porque há um público defronte. Sem este, tudo não passa de ensaios, de exercícios. Ser-se capaz de "esquecer" a ausência de espetadores e fazer viver as personagens como se a casa estivesse cheia é algo que devia ser exemplo para todas as profissões. Tidos por muitos como boémios, provocadores, dispensáveis até, a verdade é que os atores de teatro demonstram um brio que, mais do que respeito, merece autêntica admiração.

No entanto - pegando novamente na relação entre o número de atores e de espetadores -, não deixei de reparar na aparente falta de necessidade de três dos seus elementos: uma rapariga cuja única função era, durante breves momentos, bater numa espécie de pandeireta e servir de referência para que os seus colegas apontassem para a Lua; uma outra moça que acompanhava o público até à sala e, a dado momento, dizia umas frases e, finalmente, uma terceira rapariga que fazia de escrava, literalmente entrava e saía muda e passava a peça toda em pé a um canto do palco para, apenas em duas ou três ocasiões, se movimentar. Num mundo ideal todos estes elementos fariam sentido mas, numa situação de tão gritante falta de público, parece-me tratar-se de um luxo injustificável.

Quanto à peça propriamente dita, é um drama, uma tragédia, o que, não sendo o meu género preferido, é tão necessário de ser visto como é variar a ementa à mesa. Dos atores em palco destacou-se, para mim, o que representava o rei Herodes, a personagem mais "colorida" da peça, a que tinha mais para ver. Apenas me desagradaram (e não foi pecado único do ator em questão) alguns problemas de dicção e volume que, por vezes, me dificultaram - e muito -, a compreensão do texto. Não sei dizer se realmente gostei da peça: certamente que não me desagradou mas, daí a sentir-me entusiasmado vai um passo considerável. Digamos que uma respeitosa indiferença é mais o que eu senti.

O espetáculo acabou por volta das 23h de uma forma um pouco atabalhoada já que houve um pequeno compasso de espera entre o fim da peça e o momento em que o público (nós, os oito privilegiados) percebeu que era altura de aplaudir. O ligar da iluminação da fria sala ajudou a esclarecer a situação e, pela primeira vez em muitas peças que já vi, apenas houve uma salva de palmas no que terá sido o único e desconsolado reconhecimento de que o teatro não se faz para casas vazias.

À saída, reparei que, daí a meia-hora, haveria um outro espetáculo - que me pareceu ser do tipo cabaret -, interpretado por duas atrizes. Suponho que tenham acabado a jogar às cartas...

Amália no CCB

A foto ao lado podia ser o Calçadão de Copacabana ("moderna" obra nossa no Brasil) mas não é: é a alcatifa que cobre o chão da entrada da exposição "Amália", no CCB. Se este enorme tapete nos dá vontade de ser miúdos e desatar às cambalhotas, o melhor é mesmo conter os impulsos juvenis e guardar os nossos sentidos para o que se segue: uma enorme exposição dedicada à diva do Fado, assente em imagem e som, onde podemos contemplar todo o tipo de recordações ligadas a essa voz espantosa que cantou o nosso país mas que, infelizmente, também se dedicou a umas saloíces estrangeiradas às quais - a meu ver, mal - a exposição dá demasiado destaque. Podem dizer que é preconceito meu mas não me agrada caminhar por aquele espaço de homenagem a um ícone nacional e ouvir o "perompopero" (ou como é que se chama aquilo) abafar jóias da música a que se convencionou chamar "a música de Portugal". Nem o "perompopero", nem o "toro y la luna", nem uma qualquer coisa italiana que até tem direito a uma sala própria...

Pode-se alegar que as espanholices e outras "ices" de Amália fazem parte da sua carreira (e é verdade), que elas contribuiram para parte do seu êxito lá fora (igualmente verídico) mas há um sentido de prostituição artística e traição às raizes que me desagrada profundamente mesmo que as canções estrangeiras fossem adaptadas à sonoridade do fado. Afinal, se Amália era procurada inicialmente, não seria por causa das concessões aos internacionalismos mas sim pelo que de genuinamente português apresentava. Mas, sendo tão portuguesa, Amália tinha aquele gene de falta de orgulho que nos leva a querer corresponder ao interesse alheio não com um reforçar da nossa identidade mas sim com a apropriação parola dos traços de quem elogia.

Críticas à parte, vale a pena vaguearmos por ali, olhando as fotografias, ouvindo as canções - que até têm direito a uma enorme sala de audição onde apetece ficar deitado nas plataformas almofadadas contemplando um "paredão" de cortinas vermelhas onde duas pequenas colunas nos enchem com música (e, mais uma vez, estrangeirices metidas à pressão) -, passando pelo meio dos três gigantescos corações minhotos (a notável obra "Coração Independente") que rodopiam incessantemente numa sala só sua ou abrindo as gavetas com objectos pessoais e onde se descobrem simples e emocionantes cartas da cantora... enfim, sentindo, vendo e ouvindo Amália.

Numa salinha a um canto, a vocação "moderna" do Museu Berardo deixou espaço para que artistas expusessem obras cuja temática fosse Amália Rodrigues. É um espaço a evitar - felizmente pequeno -, já que a mediocridade das obras é por demais evidente num claro contraste com outras "homenagens" de qualidade como a do projecto "Amália Hoje" (que, curiosamente, também caiu na tentação da estrangeirice ao enfiar no disco com uma versão do tema "L'important c'est la rose" - para quê?!).

Como de costume no Museu Berardo, a entrada é gratuita. Não há desculpas para faltar.

"Demo" - São Luiz

Quanto mais espectáculos se vêm, maior é a possibilidade de apanharmos com barretes. Numa semana em que fui quatro ou cinco vezes ao teatro, apanhei com dois. Este, "Demo", pelo Teatro Praga, no São Luiz (Lisboa) foi o segundo e, concerteza, o maior.

"Demo" pretende ser um musical. No fim da introdução em Alemão (a peça é falada em várias línguas, até Estónio!), quando começa a parte musical, percebemos logo que ali, "musical" não é entendido da mesma forma que nos teatros de La Féria. Os textos sucedem-se com um sentido difícil de perceber e as mudanças de língua são frequentes. Há um écran com tradução lá em cima, o que nos obriga a estar constantemente a olhar quase para o tecto da sala para sabermos que disparates é que as personagens vão dizendo.

Como peça, "Demo" limita-se a um conjunto de gente em cima de um palco, debitando alarvidades. Haverá muito ensaio e coordenação, certamente, mas isso não assegura sentido às coisas. Como musical, o mínimo que se pode dizer é que é um perfeito aborto sonoro. Quando não há, sequer, a tentativa de construir linhas melódicas e de "musical" se entende apenas a produção de peças sonoras servidas por letras absurdas, então, algo está mal. Na cacofonia, qualquer um é um mestre.

Todos nós que já tivemos contacto com um instrumento musical sabemos que há momentos de desânimo ou fastio em que nos entregamos meramente a fazer sons para matar o tempo. Esta peça parece um desses momentos mas, ao contrário do que sucede com o músico anónimo, aqui há um público que merece ser bem servido e dinheiro aplicado que merece ser rentabilizado com qualquer coisa melhor do que esta estupidez que mais parece uma diversão embriagada por parte do elenco do que uma coisa feita com tino.

A meio do espectáculo, caído do céu, aparece Rão Kyao para aquele que foi o único momento verdadeiramente musical da peça. Ainda assim, há que compreender que Kyao e as suas flautas indianas perderam logo o interesse um mês depois do lançamento de "Estrada da Luz", quando se percebeu que ele já não conseguia fazer mais do que aquilo. E até isto já foi numa outra vida...

Provavelmente, o pior espectáculo que já vi...

A família da dona Helena

Ontem, para ir ao teatro foi preciso fazer-me à estrada, rumo ao sul. Procurava o "Espaço das Aguncheiras", ali para os lados do Cabo Espichel e a cargo da "vaporosa" São José Lapa.

A ideia era ver a peça "Rancor - exercício sobre Helena", apresentada literalmente no meio do campo: um palco e alguns elementos cénicos no meio dos arbustos, dentro de uma quinta propriedade da actriz. À nossa volta, a natureza e a brisa nocturna. E, por causa desta, era feito o aviso: levem agasalhos! Distraído como sou, esqueci-me logo disso e lá me apresentei de manga curta mas, ao chegar ao "anfiteatro" feito de cadeiras de plástico dei logo com três caixas de grossas mantas à disposição dos espectadores. A coisa melhorava. Não só estava no campo, prestes a ver um texto sobre a Grécia clássica, como ainda o ia fazer embrulhado numa manta.

Já sentado, fiquei junto a uma fogueira acesa em frente ao palco e que era periodicamente renovada e melhorada com folhas de eucalipto. O campo, a fogueira, ó Deuses! Mandem vir o chocolate quente, por favor! (foi a única coisa que faltou).

A peça foi óptima. Agradavelmente longa, bem representada, assumindo descaradamente a mistura de elementos estranhos à epoca dos eventos (São José Lapa não dispensa os cigarros e a cigarreira, nem a fazer de escrava grega...) e até recorrendo a um ponto (no caso, "uma ponta") sem qualquer constrangimento, quando era necessário (o que só aconteceu duas vezes).

A família da dona Helena (a de Tróia) é lixada e, tal como acontece com todas as histórias gregas, é cheia de nomes que puxam outros nomes até chegar a um ponto onde nos podemos sentir um bocado perdidos. Não tivessem os Gregos chegado antes dos Russos e diria que lhes tinham copiado o gosto por enfiar metade da população mundial nos eventos. Mas, "Rancor" é uma peça portuguesa, da autoria de Hélia Correia. Percebi-o no fim e soube-me muito bem a notícia. Parece que tudo aquilo conseguia sempre melhorar um bocadinho mais.

Resultado final, após 100 kms de viagem e turismo: gostei muito e fico à espera do próximo espectáculo!

Ah!... e para quem diz que a cultura é cara, digo que o bilhete para este quase serão em família custou a "fortuna" de cinco euros.

Um processo de má qualidade

Gosto de descobrir teatros onde nunca pensaria que eles existissem. São caves, garagens, galerias aproveitadas por grupos independentes para montarem os seus espectáculos. Gosto da sensação de entrar numa espécie de mundo paralelo, invisível da rua, sem cartazes, sem néons, numa ausência de sinais que só aumenta a surpresa de quem chega pela primeira vez. E gosto de um bom espectáculo, seja ele no teatro nacional ou num vão de escada.

O prato desta Sexta-Feira foi a peça "O processo" baseada no texto homónimo de Franz Kafka, trazida a cena pelo grupo Gota - Teatro Oficina. O local foi um rés-do-chão na Calçada do Correio Velho (Lisboa), local que eu desconhecia até de nome, quanto mais saber que havia ali uma sala de teatro...

À chegada, fico a saber que o grupo responsável pela peça é o mesmo que levou à cena no Institute Franco-Portugais uma xaropada sobre a vida do Marquês de Sade da qual só se aproveitava a nudez de uma atraente actriz (macho é macho, vão desculpar-me...). O benefício da dúvida foi invocado e predispus-me a não alinhar em preconceitos. Mas, quando a peça começou...

Tentemos ver a coisa por comparação: na noite anterior, no Teatro Meridional (que é um armazém arranjado), por dez euros, eu vi uma bela peça, com actores competentes, bem sentado, com café à descrição, casas de banho impecáveis... Hoje, pelos mesmos dez euros, eu vi um grupo amador, numa sala onde nem ventilação havia, onde os assentos não tinham costas e a casa de banho era (como dizia o letreiro) unissexo e... porca! (nem havia com que limpar as mãos). Assim, não vale a pena!
Para compensar há a piada de estar a urinar e a ouvir os actores a prepararem-se e a mandarem bocas aos colegas...

Mas, tudo poderia ser desculpável se a peça fosse boa. Ora, o principal problema do espectáculo é que a personagem principal é representada por um não-actor. Chamo-lhe assim porque, se dissesse que ele era actor, teria de gastar três parágrafos a explicar o quão mau alguém pode ser, o quão inexpressivo, incompetente a transmitir emoções e - até -, ridículo pode parecer um indivíduo sem a mínima capacidade para representar que vá além de decorar um texto (nisso invejo-o, ainda assim). Para poupar trabalho a mim mesmo, invento esta coisa do não-actor para catalogar alguém cuja única ideia de representação é crispar as mãos sempre que a cena exige mais entrega. Ao fim de vinte minutos percebe-se que ou o não-actor tem um problema de artrite ou, pura e simplesmente, devia escolher outra qualquer actividade.

De todo o grupo, apenas se salva a intérprete feminina, senhora de formas apetecíveis mas, sobretudo, demonstradora de capacidade técnica para subir a um palco. O resto, é paisagem. E, como se não bastasse a falta de talento do intérprete principal, o encenador ainda resolveu que a peça devia ter uma banda sonora. Se esta em si já seria dispensável (tal como era na peça sobre Sade), adiciona-se ao erro a má escolha dos temas (em nada servindo para realçar a "mensagem") e o facto de, por vezes, a música quase abafar a voz do não-actor (e eu estava na primeira fila!).

Em suma, este espectáculo é perfeitamente evitável.

P.S. - por necessidades "cénicas", para que em dado momento uma personagem pudesse apontar para um casal e dizer qualquer coisa do tipo "temos convidados", duas pessoas foram obrigadas a ver a peça toda sentadas ao fundo do palco, ou seja, viram-na de lado e por trás. Incrível!

A caravana passa e nós aplaudimos

Ando em frenética actividade teatral (do lado sentado da coisa, entenda-se). Ontem, fui conhecer o Teatro Meridional, ali juntinho à Mitra, na zona menos conhecida de Lisboa.

"A Caravana" é uma peça que nos fala da célebre "Rota da seda", essa monumental "estrada" que trazia a seda chinesa desde o extremo-oriente até Veneza. E fala-nos desse mítico movimento de mercadores de uma forma extremamente visual, recorrendo à utilização de panos coloridos que servem para compor e reinventar todos os elementos de cena: ora um pano é uma prisão, um vestido, um riquexó...

O espectáculo está dividido em quatro partes (contínuas, não há intervalo): China, Índia, Síria e Veneza. Cada qual tem uma atmosfera própria decorrente do que se conta, das personagens que surgem e à volta das quais tudo gira. A China é a explicação do surgimento da seda, a Índia é a opulência, a Síria é a travessia e, finalmente, Veneza é a venda dos tecidos.

Em toda a peça, destaca-se pelo lado cómico a sua última parte, dedicada a Pietro, o vendedor de tecidos veneziense e a sua enorme lábia. Em termos visuais, gostei particularmente da Índia e daquele jogo de sombras que a certa altura se dá.

Enfim, é uma peça equilibrada, que tanto nos faz rir como concentrar na beleza dos panos e das movimentações que os actores lhes imprimem. Vale certamente a ida a Braço de Prata e julgo que esta opinião será partilhada pelo público que enchia a sala, ontem.

Uma óptima dor de dentes

Nunca tinha ido ao Chapitô e devo dizer que o nome do local sempre me fez pensar naquele pessoal dos malabares, artistas de rua aos quais nunca achei grande piada e que, vá-se lá saber porquê, parecem andar sempre atrelados às iniciativas do Bloco de Esquerda. Preconceito? Talvez.

Há coisa de uma semana li estar em cena no teatro do Chapitô uma comédia cuja ideia central andava à volta de problemas dentários sofridos pelo nosso bem conhecido Conde Drácula. Achei graça e resolvi ir ver a coisa. Não me arrependi. Para começar, fiquei a conhecer um belíssimo espaço, partilhado por vários restaurantes e bares, bem decorado, com um clima cosmopolita e, ao mesmo tempo, intimista, uma soberba vista para o rio (mesmo à noite) e um clima geral de descontracção q.b. Fiquei rendido mal cheguei. Constantemente, a cidade de Lisboa desvenda pequenos recantos que ignoramos na monótona azáfama do dia-a-dia.

Enquanto esperava a entrada para o teatro, um casal de "mortos-vivos" dedicava-se a performances que entretinham o público.

Relativamente à peça, só posso dizer que é um prodígio de sincronização entre os actores, um belo trio pleno de expressão corporal, numa peça que vive de um cenário quase inexistente, apenas composto por meia dúzia de objectos que se transformam em tudo o que seja necessário para ilustrar as cenas. Um malão tanto serve de casa de banho num comboio como de caixão para Drácula e as transformações de personagens e cenário são assumidamente "descaradas" dando ainda mais graça a tudo.

Decididamente, parece-me que quem queira rir tem uma boa oferta de teatro em Lisboa.

Dali em Évora

Está patente em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida (até 4 de Maio de 2008), uma exposição intitulada "Dali, o Divino Ilustrador". Por um ridículo euro (€ 1) podemos apreciar dezenas de trabalhos do grande pintor catalão, todos feitos para ilustrar o clássico "A divina comédia", do florentino Dante Alighieri.

E se a exposição que esteve no Porto foi um bom pretexto para muita gente se ir deleitar com a beleza da Invicta, porque não aproveitar mais esta amostra do talento do já ido Salvador para dar um pulo até à cidade alentejana, Património da Humanidade? Foi o que eu fiz, com um propositado desvio da rota para Lisboa. E se pouco abonatória é a pressa de uma visita-relâmpago, também não é menos verdade que o curto tempo na cidade do Alto-Alentejo me deixou uma enormíssima vontade de lá voltar, com toda a calma que o celeiro de Portugal pede...

Até breve, Évora! Com ou sem Dali...

Graças a deus pelo humor

Nunca tinha ido ao Mário Viegas. Refiro-me ao Teatro, aquele que fica na “cave” do Teatro Municipal de São Luiz, em pleno Chiado. Após muitos anos, chegou, finalmente, a vez de ir ver actuar a companhia residente, responsável pela manutenção em cartaz há mais de uma década desse êxito que é “Toda a obra de Shakespeare em 90 minutos”. Curiosamente, não foi esta a peça que fui ver mas sim a mais recente da casa, de seu nome "A Bíblia: Toda a Palavra de Deus (Sintetizada)".
Durante cerca de três horas, o público que enchia a pequena sala (o meu bilhete foi o último a ser vendido), foi brindado com uma dose absolutamente cavalar de humor, onde as maxilas de quem lá estava poucos momentos tiverem para descansar. Ao fim de poucos minutos, uma dor já me tomava conta da cara, tornando, por vezes, o soltar das gargalhadas uma coisa difícil. Mas muito mais difícil ainda seria deixar de rir com as interpretações do trio em palco e com o texto que interpretavam.
Para quem não saiba, a peça em questão pretende dar-nos a conhecer uma versão cómica de TODA a Bíblia - o que não é coisa pouca. E fá-lo recorrendo às piadas, à farsa, ao travesti, à música, à interacção com o público, gerando momentos após momentos onde só há uma coisa a fazer: rir!
Em boa verdade digo que nunca me tinha rido tanto e que os vinte euros que paguei pela entrada foram merecidos até ao último cêntimo (ia escrever tostão...).

Desconheço se esta companhia teatral está abrangida pela “perversa” política de subsídios à cultura. Não me parece que tenha necessidade da ajuda estatal, a avaliar pela afluência de público. Mas, apetece dizer que este tipo de espectáculos, precisamente estes, mereciam, acima de todos, serem premiados e incentivados pelos poderes públicos, quanto mais não fosse pela sua capacidade para levar uma imensa alegria a todos os que os frequentam. Ir ao Teatro faz bem ao espírito. Ir ver a Companhia Teatral do Chiado faz bem à saúde! :)

Quer divertir-se? Quer divertir-se mesmo muito? Meta-se a caminho da Baixa e vá ver A "A Bíblia: Toda a Palavra de Deus (Sintetizada)".

Arte Déco: a não perder

Está há já algum tempo, no Museu de Sintra (antigo casino e hoje mais conhecido pela ligação às colecção de Joe Berardo), a exposição ART DECO, versando, obviamente, sobre este belo período da produção artística do século XX.
O recheio é composto na sua esmagadora maioria por obras pertença de Berardo, complementadas por roupa do Museu do Trajo (Lisboa) e do Musée des Années 30.

Se uma ida a Sintra não fosse, já por si, motivo suficiente para nos fazer sair de casa, ainda nos é oferecida a hipótese de contemplar mobiliário, pintura, escultura e outros tipos de objectos que brilharam a partir dos "anos loucos" e que, graças ao cuidado de quem os juntou, podem, uma vez mais, ser apreciados por gerações já distantes daquelas que os produziram e utilizaram.

Gosto do Museu de Sintra, sabe-me bem olhar para aquele edifício elegante, e ainda gosto mais de poder cirandar pelos seus corredores e salões "encharcando-me" da beleza que eles ostentam.
Não fosse Sintra ser tão bela e teria inveja de lá estar um local tão bom. Mas, como é difícil não sentir que a bela vila também é nossa, perde sentido a mesquinhez e ocupo-me apenas em desfrutar do que ela tem: no caso, um óptimo museu!

E quanto custa entrar nesta exposição? Aí é que a coisa fica desagradável. Não pelo preço do bilhete (3 euros) mas pelo facto de ter ficado com a sensação de que pertenço a uma qualquer minoria ranhosa que não merece favores. É que, no momento da compra, a simpática rapriga que estava ao balcão, antes de me dizer o preço, indicou-me um quadro pedindo que eu visse se fazia parte de alguma das categorias de cidadãos que nele constavam e que tinham descontos ou que podiam, mesmo, entrar de graça. Não, disse-lhe eu, não tenho direito a qualquer desconto. Não sou criança, não sou velho, não sou funcionário público, não sou funcionário camarário, não sou isto nem aquilo e, sobretudo, não sou sócio de nenhum clube de futebol a disputar a 1ª Liga!... Exactamente: os sócios do Benfica, Beira-Mar, Setúbal e outros podem entar à borla (!) nesta exposição enquanto que eu tive de pagar 3 euros (coisa pouca, convenhamos).
O Museu de Sintra pertence a quem? À CM de Sintra? Este estúpido desconto a sócios de clubes de futebol pretende o quê? Uma câmara municipal tem de se preocupar com coisas destas? Achei o facto ridículo e disse-o à moça que me atendeu. Ela, concordou. Sinceramente, acho que qualquer pessoa de bom senso o faria...