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O 1º de Dezembro

Para os mais distraídos, amanhã, Sábado, dia 1 de Dezembro é feriado nacional. Não será coisa que se note muito tendo em conta a infeliz coincidência de calhar a um fim-de-semana a comemoração deste dia de boa memória. Também não se pode contar com a comunicação social ou mesmo com os poderes instituídos para avivar as consciências ou educar os ignorantes. Convenhamos, ninguém quer saber para nada do 1º de Dezembro. Mas é pena...

Em 1 de Dezembro do ano da graça de 1640 houve uma revolta em Lisboa com um objectivo muito claro: terminar com a sujeição da coroa portuguesa à dinastia filipina com sede em Madrid. Para isso, seria preciso substituir Filipe III (IV de Espanha) pelo Duque de Bragança, João de seu nome que, curiosamente, era casado com uma espanhola.
Diz-se que o futuro D. João IV não estava muito inclinado a deixar o seu palácio de Vila Viçosa (visita a não perder) e a aventurar-se na "conquista" do trono português. Diz-se também que foi a sua mulher que o convenceu alegando que mais valia ser rainha por um dia do que duquesa toda a vida. Onde acaba a lenda e começa a realidade?

A data da Restauração da Independência - que deu nome à Praça dos Restauradores e à Rua 1º de Dezembro (ambas em Lisboa) -, foi alvo, ao longo dos tempos, de apropriação por parte dos sectores mais conservadores e nacionalistas da nossa sociedade, tendo com isso sido inculcadas no imaginário popular diversas ideias que não correspondem à realidade mas que foram sendo passadas como forma de fortalecer um patriotismo sempre débil no nosso povo e ainda mais nas classes dirigentes. Salazar e o Estado Novo souberam tirar bom partido da data, a 1ª República também e ainda me lembro de uma célebre manifestação quando eu era criança, organizada pela jornalista Vera Lagoa, então directora do semanário "O Diabo", periódico semi-oficial da direita nacional. Estabelecida a democracia, a data começou a perder fulgor resumindo-se hoje ao feriado, e a uma ou duas sessões solenes frequentadas por velhotes serôdios. Para o regime actual, empenhadíssimo na construção europeia e na integração comercial com Espanha, a comemoração do 1º de Dezembro é um fardo que a história nos deixou, um sinal feio que tentamos esconder puxando a manga da camisa.

Mas, independentemente das cores que os tempos actuais queiram dar à História, ela existe e deve ser conhecida. A Restauração é um período fascinante do nosso passado colectivo, algo que vai muito mais além do que o dia que se comemora. A guerra com Espanha, intermitente e de baixa intensidade (ao contrário do que se costuma contar) , durou 28 anos e traduziu-se numa série de vitórias portuguesas possíveis pelo brio dos nossos militares, pela força que tem quem luta por uma causa justa, pela conjugação de interesses políticos internacionais, pela decadência do Império Espanhol e das suas finanças (com a involuntária colaboração dos traidores portugueses a viverem em Espanha, autênticas sanguessugas do erário público castelhano), e por um constante e muitas vezes humilhante jogo de cintura que o nosso país teve de utilizar.

Espanha sempre pensou que a qualquer momento poderia reconduzir ao rebanho a ovelha tresmalhada e foi-se ocupando de outras rezes rebeldes (a Catalunha, os Países Baixos), afundando-se em guerras intermináveis e custosas em vidas e dinheiro, sempre mais enfraquecida pelo conflito com Portugal, Inglaterra, França, Holanda...
A Portugal coube aproveitar as rivalidades, ir recuperando e cimentando posições, umas vezes pela força das armas, outras pela via diplomática, outras aindas pagando para recuperar o que tinha sido seu (um pouco conhecido negócio com os Holandeses, a propósito do Brasil) e ir esperando os momentos em que Filipe IV de Espanha e a sua alma danada, Olivares, se viravam (sem êxito) contra o nosso território.

A versão "oficial" dos acontecimentos diz-nos que houve 40 conjurados, todos grandes patriotas, que se reuniam perto do Rossio, para preparar o plano de ataque ao poder. Não eram 40, nem eram grandes patriotas. Eram herdeiros da mesma nobreza que em 1580 se tinha vendido a Filipe II de Espanha, originando a sua célebre frase "Portugal é meu por direito: herdei-o, conquistei-o, comprei-o". O que se passou foi que, ao juntarem-se as duas coroas, os nobres portugueses passaram a ter obrigações para com a Coroa Espanhola (esqueçamos o pormenor formal da separação dos negócios dos reinos) e os conflitos que esta mantinha com todas as nações. Ao fim de 60 anos, a nobreza estava cansada e não se sentia recompensada. Foi, portanto, o interesse que fez com que os poderosos se mexessem e não a glória do Reino.

Quanto ao Duque de Bragança, sempre se tinha sentido mais inclinado para a música do que para a política e era conhecida e famosa a sua colecção de livros e instrumentos musicais que se perdeu aquando do terramoto de 1755. Também era compositor e há quem defenda a tese de que o tema Adeste Fideles (que é uma das peças musicais fundamentais em qualquer celebração natalícia à face da terra) é da sua autoria. Você sabia disso? Provavelmente, não.

E o povo? Que pensava o povo de tudo isto? É costume dizer-se que o povo queria um soberano português, que odiava o "traidor" Miguel de Vasconcelos (o defenestrado) que respondia perante a Duquesa de Mântua, delegada da coroa. Mas... seria isto verdade?
De uma forma geral, sim. O povo era mais "patriota" do que aqueles que detinham algum poder (os nobres, os financeiros judeus, os burgueses) mas mesmo aqui a História reserva-nos algumas surpresas como seja saber que a população de São Paulo (Brasil) ofereceu vassalagem à coroa espanhola para garantir a continuação do comércio com a América espanhola...


Ler História é ser constantemente agredido com a verdade. No caso, tive oportunidade de, recentemente, ler um excelente livro escrito pelo historiador espanhol Rafael Valladares, obra justa, honesta, que analisa com frieza o enquadramento histórico da Restauração, não cedendo a patriotismos de nenhum lado da fronteira e possibilitando-nos o contacto com uma realidade muito diferente da versão gloriosa que nos foi ensinada quando ainda se ensinava o que era o 1º de Dezembro.

Em 1640, pos-se fim à catástrofe que foram os 60 anos de dominação estrangeira. Não nos devemos esquecer que a perda da independência nacional só foi possível graças às loucuras de D. Sebastião, à posterior incapacidade para aguentar o barco por parte de D. Henrique, ao colaboracionismo dos poderosos e ao baixar dos braços por parte de quem se opunha à situação.
Portugal, enquanto país, pouco ou nada ganhou com a união das coroas. É certo que no Brasil, os bandeirantes aproveitaram a situação para empurrar para ocidente as fronteiras da colónia, fazendo tábua rasa de Tordesilhas mas, no resto do mundo, o Império Português foi estraçalhado por Ingleses e Holandeses. E já que se fala de desastres, convém lembrar que na Invencível Armada, essa louca aventura de Filipe I, pereceram milhares de compatriotas nossos e afundaram-se muitos dos nossos melhores navios. Não tinhamos nada contra a Inglaterra mas éramos obrigados a alinhar na campanha e pagámos bem caro por isso.

A História é uma lição e, como se costuma dizer, é uma "velha senhora que se repete sem cessar". O período pós-Alcácer-Quibir, a dominação filipina, a Restauração, são enormes avisos do que pode custar a um povo o não saber ser senhor de si mesmo e traçar o seu próprio caminho. Ninguém nos guia se quisermos ser cegos.

Alguém está - ainda -, interessado em perceber isto?