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Esquerdistas e Evangelistas


Esquerdistas e Evangelistas partilham mais do que uma inicial. Geralmente separados por um oceano ideológico, ambos têm em comum alguns aspetos particularmente irritantes: vivem de certezas absolutas, confiam no líder como expoente máximo da razão, detestam os "outros" e sentem uma pulsão incontrolável para o proselitismo. Destes quatro defeitos, o último é, para mim, o pior, porque abandona a esfera privada das manias e crenças de cada um e salta para a rua. Para as criaturas de que falo, o conceito de "deixar os outros em paz" é difícil de compreender. Para elas, há que aproveitar todas as ocasiões para propagandear o "salmo" do momento e nada, nem ninguém, está a salvo das bíblias e dos cravos.

Há festa de aniversário? É entre Maio e Abril? Contem com um comunista a querer substituir o "Parabéns a você" pelo "Grândola Vila Morena". O aniversariante gosta de jardinagem? Então, a melhor prenda é um kg de sementes de cravos. A vítima gosta de ler? Há sempre a seleção de discursos de Vasco Gonçalves (ou, se o fanático for do tipo evangelista, a opção pode ser uma bíblia de bolso em preto "matte"). Em último caso, se não houver dinheiro para uma prenda, o convidado pode optar por aparecer vestido com uma simples camisola do Che Guevara. E, se a festa for ao ar livre, não se põe de parte um bonezinho com uma estrela (vermelha). Importante, mesmo, é não permitir que os outros deixem de notar que se é de esquerda.

No caso dos evangelistas, dado o recato com que se vestem (que os impede de andarem com camisolas com o Cristo), a melhor maneira de se fazerem notar será sempre a escolha de palavras. Quando uns dizem "que contes muitos", o evangelista logo acrescenta "Queira assim Deus nosso Senhor!" e, para melhor identificação da origem da sábia expressão, detalha: "Sermão do Rio, página 13, linha 42". Ámen.

Naturalmente, a degradação moral da nossa sociedade faz com que a maior parte de nós não aprecie quem faz questão de nos tentar impingir as suas ideias. Há um espírito de "quero lá saber" que os fanáticos de esquerda e de igreja detestam e tudo fazem para combater. Chamam a isso "despertar as consciências". Uma das maneiras de "despertar as consciências" é poluir as contas de Facebook com vídeos sobre o 25 de Abril: grupo de antigos alunos da pré-primária? Tomem lá um Salgueiro Maia no Largo do Carmo; página de apoio às criancinhas vesgas? Ora aqui está o "Avante camarada", para abrirem os olhos; notícia da morte de um antigo campeão do berlinde? reconfortem-se com uma cuidada seleção das melhores frases do Pastor Gerson.

Não há como escapar à praga dos moralistas pegajosos. Porque todo o verdadeiro esquerdista (ou evangelista) é um moralista. Tudo passa por aí: pela noção de que se é moralmente superior. E quem se se sente melhor, sente, por um lado a obrigação de "melhorar" os outros e, por outro lado, a vaidade de mostrar a todos os outros que se é... melhor. A isso chama-se a "consciência de si mesmo".

Os esquerdistas são como os tipos do tunning: não lhes basta terem um veículo, há que o decorar para dar nas vistas. Vai daí, surgem os cravos na lapela, os lenços palestinianos, os bonés com estrelinhas, as camisolas do argentino de barbicha e toda uma parafernália de acessórios que funciona como os "aleirons", as "saias" e as luzinhas debaixo do carro. O objetivo? Dar nas vistas. E se o "tunnista", com o seu mau gosto, grita ao mundo "eu sou mais bonito e forte", o esquerdista logo berra "eu sou mais bonito e forte e se vocês não percebem isso é porque são uns fascistas de merda!". Não há que enganar: se virem um tipo com sinais exteriores de esquerdice, fujam, antes que ele se aperceba da necessidade de vos converter...

E... se vocês não se quiserem converter? Aí, surge nova semelhança entre os esquerdistas e os evangelistas: a negação do direito, em nome da Liberdade. A Liberdade é o nobre conceito que dá o direito aos fanáticos de moerem o juizo aos outros, ao mesmo tempo que nega a estes (os outros) a liberdade de responderem adequadamente. Sim, tentem dizer a um evangelista que se estão cagando para a religião ou, a um esquerdista, que se borrifam para as marchas abrilistas. Tentem! A Liberdade não é um cacete mas, se o fosse, acertar-vos-ia bem no meio da cabeça com todo o peso da raiva dos "justos".

O Acordo Ortográfico e a persistência da ignorância

Ontem, pela enésima vez, tive de explicar a alguém que não, "facto" não vai passar a ser escrito "fato" e que "contacto" também não passa a "contato". Que sim, que vai, que o acordo manda eliminar todos os "c" e que eu que o lesse, responderam-me. Apenas o facto de ser alguém de família me impediu de soltar logo ali um bujardo grosso e lá insisti educadamente no princípio geral do AO: a ortografia deve seguir a pronúncia.

O AO foi gizado em 1990. Ou seja, já lá vão 21 anos. VINTE E UM ANOS!!! - e uma mentira largada na primeira hora por mentirosos reacionários (porque quem o fez conhecia muito bem o texto do acordo...) colou-se de tal forma ao imaginário das pessoas que vinte e um anos depois, por mais esclarecimentos que se prestem, por mais campanhas que se façam, as pessoas continuam a repetir, com o ar mais decidido, disparates como o do "fato".

Quando muitos imbecis se desdobram em comentários na internet apelando à resistência ao acordo que nos vai por "a falar à brasileira" (ou, na versão mais estúpida "a falar brasileiro"), eles, na verdade, têm alguma razão. Não porque o AO (que é or-to-grá-fi-co) pretenda ou possa alterar a pronúncia das palavras mas sim porque a ignorância e a estupidez são armas poderosíssimas, quase sempre mais fortes do que o esclarecimento e capazes de fazerem entranhar na consciência coletiva os produtos da sua ação.

Muita gente há que passará, de facto, a escrever "fato" e "contato" e que, consequentemente, passará a ler as palavras conforme aquilo que julgam ser a nova ortografia. Paradoxalmente, portanto, os reacionários anti-acordo serão, eles mesmos, os responsáveis por produzirem os perniciosos efeitos contra os quais se julgam bater.

Sou apreciador de ironias mas, neste caso, o que me fica é uma profunda raiva, mitigada somente pelo desaparecimento da história do "cágado / cagado"... Se calhar, dos vários disparates sobre o AO, este seria o único que talvez nos desse uma boa ideia do que ia pela cabeça das pessoas...

Dois coelhos de uma só cajadada

Uma reportagem da RTP sobre um protesto contra a introdução de portagens na Via do Infante informou-me sobre duas possíveis repercussões da medida. Segundo um jornalista espanhol (há sempre que entrevistar um espanhol em qualquer reportagem que se preze...), as portagens na autoestrada algarvia irão levar menos portugueses a ir às compras a Espanha e, por outro lado, diminuirá o número de turistas espanhóis em terras algarvias. Confesso que nunca tinha pensado nestas consequências da adoção de uma medida de pura justiça (afinal de contas, no resto do país paga-se para usar uma autoestrada) mas, agora que sei da coisa, só posso dizer PORTAGENS, JÁ!!! Faça-se os portugueses gastarem o seu dinheiro no comércio nacional e mantenha-se ao longe os irritantes vizinhos que nos saíram em (má) sorte.

Outra coisa que a reportagem da RTP me ensinou é que há uma diferença enorme entre uma manifestação pouco concorrida e sem organização política e outra com igualmente pouca aderência mas feita por organizações bloquistas. No primeiro caso, a repórter informa-nos repetidamente sobre o facto; no segundo, omite-se por completo o insucesso. Coisas...

A merda de que somos feitos 2

Na Trafaria, uma moradora (de cara coberta) queixa-se da mudança no bairro que o transformou de um pacato lugarejo "campestre" numa favela habitada por angolanos, caboverdeanos e ciganos. Isto vem a propósito de cenas próprias de filmes, envolvendo angolanos e caboverdeanos aos tiros, invasões de domicílios, vandalismo, agressões, etc.

Um repórter da RTP pergunta a um caboverdeano se têm armas para se defenderem, como se perguntar a alguém, perante as câmaras, se está disposto a andar aos balázios na via pública fosse algo tão inócuo quanto perguntar se prefere que ganhe o Benfica ou o Porto. O caboverdeano correspondeu à irresponsabilidade do repórter confirmando que têm armas e estão bem municiados. A esta altura, portanto, o país sabe que os angolanos têm armas e as usam, que os caboverdeanos têm armas e as vão usar e que os ciganos, como toda a gente sabe, têm armas e usam-nas quando lhes apetece. É um admirável mundo novo este das "etnias" e a senhora que sente saudades dos tempos em que tinha cabras a pastar na rua está claramente desajustada das novas realidades trazidas (pelo menos na Grande Lisboa), pelos movimentos migratórios vindos de África. Não se adaptou, não evoluiu, não se modernizou... Antigamente é que era bom, dirá ela.

De lado, como em tudo o que diz respeito à verdadeira segurança, está o Estado e as "autoridades", que parecem ter como única especialidade o "aparecer depois" e dar umas bordoadas convenientemente mal distribuídas para servirem de pretexto a queixas da canalha perante as sempre solícitas equipas de reportagem. Quando há uns bons meses o país se entretinha com a novela dos carros blindados para a cimeira da NATO/OTAN, já muitos apontavam o verdadeiro objetivo da aquisição do material: permitir a segurança da Polícia na entrada nestes "bairros problemáticos". As personagens bem pensantes negaram a necessidade da compra, os palhaços de serviço gozaram com o processo e os políticos entretiveram-se com as piruetas próprias de quem anda sempre às sobras para apanhar qualquer coisa com que possa botar faladura.

Loures, Almada, Caparica, Trafaria, Amadora, Setúbal... avolumam-se os casos de zonas que em tudo parecem ganhar os defeitos de locais semelhantes noutras latitudes. Em todos eles, um denominador comum: as "etnias". Ciganos, árabes (hão de chegar), pretos ou quase pretos... parece que apenas indianos e chineses são capazes de chegar, ver e vencer sem que isso implique confronto com a "etnia" dominante (os "fachos" branquelas). Aparentemente, ninguém parece interessado em analisar semelhante curiosidade, como se o facto de se lhe prestar atenção pudesse, por si só, implicar uma condenação "a priori" de todos os outros grupos. Aos indicados por mim, acrescentam-se, em Portugal, pelo menos, os dos imigrantes de Leste que, por serem brancos (logo, "invisíveis") apresentam elevadas taxas de êxito na sua integração (já agora, o nosso país parece estar altamente cotado no que diz respeito à capacidade de integração de comunidades estrangeiras - o que faria se não estivesse...).

A seguir à reportagem da Trafaria, o assunto muda com facilidade para a violência nas escolas. Uma rapariga mulata, de cara escondida, aparece contando o que se passa na sua escola e como até uma amiga sua anda com uma pistola para se proteger de "tentativas de assédio" (SIC). Da rapariga mulata passamos a um rapaz preto que nos explica o que é uma "butterfly" (antigamente, dizia-se "borboleta") e de como ela é um acessório relativamente comum na sua zona.

Nos dias anteriores, tínhamos tido vasta informação sobre o típico bairro 6 de Maio, na Amadora (concelho que deve toda a sua fama à quantidade de bairros étnicos que alberga) e sobre a sua particular forma de receber a Polícia à pedrada e ao tiro.

Enfim, tudo isto me faz apetecer gritar algo do tipo "Estou farto de pretos!!!". E continuamos sem saber porque razão os chineses, os indianos e os "de leste" não dão problemas...

Acordo Ortográfico

Os argumentos contra o Acordo Ortográfico são como aquele queijo suíço: cheios de buracos. A diferença está em que o queijo sabe bem e os anti-acordo são, geralmente, uns tipos intragáveis.

A imagem ao lado mostra, pela enésima vez, como a ortografia evolui - adaptando-se à fonética -, e, ao mesmo tempo, como em alturas de grande exaltação patriótica e regimes nacionalistas, foi possível alterar a ortografia sem quaisquer dramatismos.

"ViaduCto", "cAmara". Duas palavras escritas de forma diferente numa placa de 1900. Ora, em 1976 (quando comecei a aprender a escrever), de certeza que "viaduto" já não levava "C" e "câmara" se escrevia com um acento circunflexo e, pelo que me é dado ver em livros mais antigos, a consoantezinha muda deve ter sido perdida antes da década de 50. Ou seja, ou foi à vida durante a patriota 1ª República ou durante o nacionalista Estado Novo. Não houve, portanto, uma qualquer "submissão aos Brasileiros" nem ocorreu uma "traição à nossa bela língua".

Um dos problemas com o AO é, precisamente, a falta de jeito para "vender a ideia". Aparentemente, o conceito de "uma língua, uma ortografia" faria todo o sentido. Mas os Portugueses não são gente que preze a lógica e o bom senso, preferindo entregar-se a disparates desconexos consoante a direção do vento: uns dias são nacionalistas (contra os Brasileiros), noutro dia são iberistas ou internacionalistas; nuns dias são progressistas, noutros são conservadores... Mas quase sempre são infantilmente palermas e manipuláveis. E a manipulação foi bem feita, introduzinho inapelavelmente as ideias de que "vamos FALAR como os Brasileiros" e "os Brasileiros é que nos impuseram o Acordo". Pura estupidez, como imediatamente se entende. Pensar que ainda hoje anda aí gente dizendo que se vai passar a escrever "contato" e "fato" é de fazer perder a esperança neste povo a quem seja menos do que santo.

Resumindo: em 1900, "viaduto" levava um "C". Há dezenas de anos que não leva. Por qualquer razão que escapa a Deus Nosso Senhor, numas palavras deixou-se de escrever as consoantes mudas e noutras continuou-se... até chegar o Acordo Ortográfico e impor ordem na casa. Se, por acaso, tivessem sido os Brasileiros a obrigar-nos a arrumar a escrita, então, até seria de lhes agradecer o favor. Era uma espécie de "troika" para a Língua...

Os Clã aterraram no CCB

Há gente que parece não conseguir fazer coisas más. Os Clã, atuais representantes da melhor música tripeira, parecem pertencer a essa classe de privilegiados. Seja em estúdio, seja em palco, a trupe liderada por Manuela Azevedo é uma coisa a não perder.

Ontem, a sala principal do CCB recebeu a apresentação do novo disco da banda ("Disco voador"), um trabalho supostamente de inspiração infantil e que, por isso mesmo, teve a assistir ao concerto muita pirralhada. Mas, felizmente para os mais velhos, o que para os Clã é um reflexo da inspiração que lhes causa o mundo dos mais pequenos, é, afinal, um disco tão audível como qualquer outro que a banda tenha produzido. Que ninguém se engane: lá porque não há canções de amor ou sobre a crise, isso não significa que os temas sejam coisa alheia ao grande público. Isto, ainda que muita gente se tenha alheado do espetáculo, levando a que quem estava nas galerias e balcões tenha sido convidada a ir para a plateia. Graças a Deus, pensei eu quando vi a oportunidade de fugir do lugar onde estava e onde me arriscava a ver os artistas substituídos pela visão de um corrimão (não se percebe como é que num local como o CCB é possível haver lugares de visibilidade reduzida - sem que estejam assinalados como tal!).

Bom... mas, quanto ao concerto, foi a habitual explosão de alegria que todas as atuações dos Clã são. Um palco bonito, em jeito retro anos 60, coreografias cuidadas e aquela sensação de estarmos a ver gente que, mais do que tocar junta, é cúmplice em cima do palco. Espetáculo dentro do espetáculo, o sempre esfusiante Miguel Ferreira.

Como surpresa para a banda, a receção ao tema "Asas delta" que deixou toda a gente cantando mesmo após o fim da canção. Infelizmente, a rigidez do planeamento dos espetáculos não fez a banda perceber que era aquela a canção que todos desejavam ouvir novamente. Não se perdeu nada com os "encores" mas... ficou a faltar aquela.

No fim, gente que se divertiu ao presenciar mais uma grande atuação daquela que é, provavelmente, a melhor banda nacional desde há uns bons anos.

Queremos mais!

Desaparece, camarada!

Uma travessia do Marquês de Pombal no 25A foi o suficiente para levar com um dos mais incontornáveis fenómenos mediáticos dos nossos dias: os Homens da Luta. Pedia o camarada Jel a um homem para pegar no megafone, camarada, e dizer, camarada, o que muito bem lhe apetecesse, camarada. O camarada homem, todo contente da vida, lá botou, camarada, umas banalidades revolucionárias, para gáudio de todos os camaradas que observavam.

Fiquei imaginando, camaradas, o que eu teria dito: Camada Jel, quando é que a gente se vê livre de ti, camarada, que já não há pachorra para te aturar, camarada, mais essa pandilha que te acompanha, camarada e que não tem uma porra de piada, camarada?

O perigo de Sócrates

O "comício" de hoje no Forum TSF, com José Sócrates, deve ter entrado para a história da rádio em Portugal como um dos mais perfeitos exemplos de despudorada manipulação da opinião pública. Desconheço como eram as coisas no tempo da "outra senhora" mas custa-me a crer que pudessem ser muito diferentes da desavergonhada sucessão de telefonemas laudatórios com que o aparelho do PS invadiu o programa, dando cartas para que o grande líder, numa voz de tom dulcíssimo, expressasse os seus pontos de vista.

José Sócrates, como alguém já o disse, é um homem perigoso. Se até aqui eu sabia que o grande mal vinha da incompetência e do feitio, a partir de hoje sei que há um problema muito mais fundo: Sócrates (e a sua máquina), pura e simplesmente desprezam a inteligência das pessoas e estão capazes de tudo - mesmo recorrer a expedientes infantis (como elogios lidos por estudantes agradecendo a oportunidade de terem entrado para a faculdade) -, para se perpetuarem no poder.

Desconheço qual a responsabilidade da TSF no que se passou hoje mas, quer a estação tenha sido cúmplice, quer tenha sido vítima, fica mal na fotografia. No primeiro caso, por destruir uma imagem de credibilidade que ainda mantinha; no segundo, por não ser capaz de reagir e evitar a transformação de um espaço de debate num tempo de antena ao serviço do Partido Socialista.

Como ouvinte e cidadão, senti-me humilhado.

Dizem que a Rússia é uma democracia. Portugal, por este andar, também o virá a ser...

Sobre os direitos de autor

Os detentores dos direitos de autor vivem numa permanente ilusão: a de que, caso as pessoas não puxem as coisas "ilegalmente", vão, logo a seguir, comprá-las à loja. É mentira. Sendo certo que há alguma relação entre os "downloads" e a queda das vendas, a verdade é que, na maior parte das vezes, as pessoas só sentem interesse nas coisas por serem, precisamente, gratuitas. Ninguém vai comprar os DVD's de todos os filmes que puxe, nem os CD's de todos os discos que saque. Era impossível e, na maior parte das vezes, os "downloads" apenas se devem a curiosidade e nunca a um verdadeiro interesse.

Mas as pessoas gostam de ilusões. Fazer o quê?

Os clubes e as equipas

Muito boa, a passagem de três clubes portugueses às meias finais da antiga Taça UEFA. Muito bom, mesmo. Agora, extrapolar este feito para demonstrar a capacidade nacional para superar a crise, pegar nos jogadores e fazer deles exemplos de tenacidade lusitana, etc., etc., já me parece, mais do que absurdo, algo perfeitamente cómico. Então, ninguém vê que naquelas equipas quase não há jogadores portugueses?

Enalteça-se as direções portuguesas e os treinadores cá da terra mas, sejam também honestos e digam que as equipas propriamente ditas mais parecem uma embaixada do MercoSul!

E já nem falo dos capitais angolanos...

A tourada e o mundo

Sentado à mesa na casa de jantar do albergue onde estávamos hospedados - em Nápoles -, o rapaz finlandês perguntou-me: "A sério?! Também têm touradas em Portugal?". O tom entusiasmado do moço fez-me dar-lhe mais alguns pormenores sobre a nossa forma de corrida de touros. Notei um crescente interesse no meu companheiro de mesa e, pouco depois, apercebi-me de que ele já estava procurando imagens na internet, acompanhando o que via com um sorriso.

Vem isto a propósito de uma sondagem (vale o que todas valem) segundo a qual os Portugueses (ah, essa palavra repetida até à exaustão) acham que a tourada favorece a imagem do país lá fora.

Por mim - e apesar de ter tido antepassados toureiros -, nunca me senti particularmente entusiasmado pela Festa Brava. Acho as corridas demasiadamente longas. Tirando isto - o tempo que traz o tédio -, nada me move contra esta tradição. Admiro os cavalos, as roupas, os touros, as praças, toda a ideia de um tipo de sociedade agrária que está por trás da festa e que vai beber fundo à nossa cultura rural, tão ou mais válida, certamente, do que qualquer ideal urbano.

Ora, um dos argumentos geralmente usados por quem é "contra" é o da má imagem que a "festa" dá do nosso povo, de como ela é uma chaga aberta na nossa civilização e de como nós nos colocamos num patamar indigno perante os olhos do mundo. De vistas estreitadas por só se darem com certo tipo de pessoas, as criaturinhas complexadas que tanto se preocupam com a opinião dos outros, passam ao lado da realidade: a verdade é que o mundo está-se cagando para os direitos dos touros (aliás, está-se cagando para nós, de uma forma geral) e a perspetiva de entrar numa praça e assistir a uma manifestação cultural tão "exótica" e apelativa é coisa à qual uma boa parte dos turistas não foge. A provar isso, os pacotes turísticos feitos a pensar em estrangeiros e as praças esgotadas. Aqui ao lado, sabem bem disso e não perdem uma oportunidade para passar a ideia de bravura inerente à profissão de toureiro, tentando capitalizar o drama do confronto perante a morte como uma fortaleza do povo e, por conseguinte, da nação.

Depois? Depois, há os xoninhas do costume...

Veja a notícia aqui

Pequeníssimas sugestões para melhorar a situação

E pronto, chegou a minha vez. Depois de tanta gente andar por aí editando livros sobre como resolver os problemas do país, é altura de também eu me aventurar no árduo caminho do pensamento construtivo. De bitaites está o mundo cheio (farto, aparentemente não está, porque eles não param de ser dados) e, por isso, tentarei fazer qualquer coisinha melhor do que chafurdar em lugares comuns (que é o que a maior parte das pessoas faz).

A verdade é que basta uma pessoa abrir os olhos para se aperceber imediatamente de imensas coisas que estão mal: na máquina do Estado, no comportamento das pessoas, no funcionamento das instituições (privadas e públicas). Diagnósticos não faltam (embora, como é típico, para cada pessoa o problema seja sempre outro...), soluções - apontam-se algumas mas... quererão mesmo as massas (porque é a elas que cabe executar e sofrer) fazer o que deve ser feito? Temo que não. O cidadão comum é um bronco egoísta incapaz de raciocinar e de tentar ver as coisas "lá de cima". Ninguém está preparado para abdicar de algo para que o próximo prospere e a solidariedade só se manifesta em coisas muito concretas (e, ainda assim, SSE a Sónia Araújo fizer algum apelo na TV). De resto, que se lixem os outros.

Não tenho dúvidas de que a melhor solução para o problema nacional seria o extermínio puro e simples de... para aí um terço da nossa população. Com tantos calões, estrangeirados, vigaristas, corruptos, agressivos, traidores, incompetentes, burros e mais um milhão de defeitos que por esta terra florescem, era preciso cavar um buraco descomunal para por tanto lixo, é certo, mas, no processo, talvez ainda descobríssemos petróleo.

Infelizmente, a falta de verbas para munições, a par de muito sentimentalismo reinante na nossa sociedade, impede-nos de dar curso a este belo sonho pelo que, tendo de conviver com a canalha, há que tentar, pelo menos, minimizar os efeitos da sua existência. É, pois, para isso que irei deixar aqui o fantástico produto das minhas meditações.

Aguardem ansiosamente (mas não vão já a correr para os ansiolíticos)...

Manoel de Oliveira - a homenagem

Parece que a Câmara Municipal de Lisboa vai homenagear o centenário realizador nacional, Manoel de Oliveira (o "o" é importante).

Cá por mim, sugeria a edificação de um monumento ao "espetador desconhecido", em homenagem a todos os que morreram de tédio ao ver as obras do "mestre"...
A TV digital terrestre já anda por aí e, com ela, a obrigação de fazer despesa para quem ainda não tenha qualquer ligação por cabo. Nessa espécie me incluo.

O Bloco de Esquerda exigiu que, do pacote de canais a disponibilizar gratuitamente, constassem a RTP-Memória e a RTP-N. Igualmente exigiu que a RTP fizesse esforços para que as suas emissões fossem recebidas na Galiza.

Às vezes, por mais que custe, há que reconhecer que até aqueles que mais desprezamos podem ter boas ideias e defender valores corretos. No caso, O BE está de parabéns. Só é pena que, à força de tanto disparate, seja ínfima a hipótese de alguém o escutar...

Vou beber uma água das Pedras...

O orgulho de Mourinho

Mourinho é português. Mais do que isso: Mourinho é orgulhosamente português. A surpreendente revelação do melhor treinador de futebol do mundo (antes, durante e depois de qualquer prémio) foi feita na entrega da Bola de Ouro, quando o craque do banco pedia desculpa por falar em... Português. Mourinho (o Rosé, como foi anunciado), mais tarde confessaria (instado por um jornalista) que tinha "planeado" falar em Português. Mourinho é tão organizado, tão organizado que até "planeia" agradecer um prémio na sua língua materna, algo que tanto espanhóis, argentinos, brasileiros, ingleses ou marcianos fazem da forma mais natural do mundo e sem necessidade de pedirem desculpas a ninguém. A diferença estará, quiçá, no orgulho. Os outros não se orgulham de quem são nem de onde vêm. Mourinho, sim. E, por isso, pede desculpa. Nós, os portugueses que gostamos de Mourinho e que até lhe perdoamos a birra de se recusar a responder em Português nas conferências de imprensa quando interpelado por jornalistas lusófonos; nós, os portugueses que lhe chamamos "special one" e "el especial" e "Mou" (preparem-se porque a comunicação social anda a apostar nesta, a reboque da espanholada - como sempre), nós perdoamos que aquele que é, juntamente com Cristiano Ronaldo, o maior embaixador do nosso país, o vencedor de duas Ligas dos Campeões, uma Taça UEFA, um campeonato inglês, outro italiano, um ou dois portugueses e mais umas minudências, ache que deve pedir desculpa por falar na língua que - por acaso -, até é a da maior potência futebolística mundial. Nós até perdoamos a Mourinho porque, no fundo, apesar de toda aquele ar de "venham todos, quantos são?", o José é tão "tuga" quanto qualquer outro, com a única diferença de que é absolutamente fantástico na sua profissão (como muitos outros portugueses são). O fundo psicológico, o complexo de inferioridade, a pequenez de espírito... está lá tudo, tão enraizado como em qualquer outro José... Povinho.


P.S. - segundo a RTP, Mourinho comoveu toda a gente ao falar em Português. E ainda há quem tente passar a ideia de que a nossa língua é uma das "grandes línguas do mundo". A língua talvez seja; já os seus falantes, não passam de uns perfeitos merdas...

A festa, os foguetes e as canas

A comunicação social é uma sonsa. Aliás, para ir melhor com a letra pequena, devo escrever "sonsinha". E das muitas publicações que enchem os escaparates costumo acompanhar mais o "Público", na sua versão internética onde, por puro masoquismo (assumo-o), me dou ao trabalho de ler a muita lixarada que por lá se publica. A que hoje me assaltou mal liguei o computador foi um "cínico" artigo sobre a dimensão mediática do "caso dos mineiros chilenos". Aparentemente, segundo o jornal, desde o 11/9 (aquela coisa na América que matou uns milhares de pessoas) que não se via tamanho acompanhamento mediático de um caso. É capaz de ser verdade.

Mas... como de costume, a comunicação social faz a festa, lança os foguetes e, no fim, apana as canas. A tragédia acontece, a notícia espalha-se, o Público alimenta o "interesse" com textos atrás de textos (há que arranjar conteúdo) perdendo-se em pormenores sem o mínimo interesse, fazendo dos pobres mineiros uma espécie de "estrelas" publicando, inclusivamente, "perfis pessoais" (como se a pequena vida diária deles tivesse algum valor no meio disto tudo); arranjam-se alcunhas para os homens (como se fossem os sete anões), acompanha-se ao minuto o seu salvamento e, depois... faz-se um texto, de forma inocente, dizendo "vejam... desde o 11/9 que não havia algo tão mediático". É de dar a volta ao estômago. E já nem falo na óbvia imoralidade de comparar dois eventos de causas e consequências tão diferentes (como se o seu interesse pudesse ser equiparado) mas tão-só neste comportamento sonso de avaliar os efeitos como se não se tivesse participado na sua causa...

Notícia no Público: Desde o 11 de Setembro que não se via uma operação mediática como a do Chile

Da abjeção aos críticos

A crítica escrita - entendendo-se como etiqueta aglomeradora das críticas a todas as formas de arte -, já há muito tempo que se converteu num subgénero literário onde aquilo que menos interessa é transmitir a opinião do crítico sobre o objeto criticado e mais exercer uma espécie de desfile de todos os recursos estilísticos do autor, sempre fortemente apoiados num fundo cultural convenientemente elitista por forma a que as referências semiobscuras encantem sem por isso virem trazer qualquer luz ao texto que permita ao acidental leitor vislumbrar a resposta à mais importante das perguntas: "Isto é bom, ou não?"

Aliás, a crítica cinematográfica (aquela por onde mais passo os olhos), parece ser como os filmes prediletos dos próprios críticos: coisa feita por uns para gáudio de poucos. Daí terem inventado aquela coisa das estrelinhas, forma concisa de meter 1500 palavras em quatro ou cinco bonequinhos que os críticos pintam ao sabor dos seus, agora desvendados, gostos.

Os críticos não gostam das estrelinhas. O público, adora-as.

Mas as próprias críticas mereciam um sistema de estrelinhas que pusesse de sobreaviso o leitor: uma escala de hermetismo semântico-lexical só possível na internet pelas características interativas desta. Quem ainda se dá ao trabalho de ler jornais, está lixado. Mas, se pagou pelo prazer de sujar as mãos, então, merece-o.

Tudo isto (toda esta verborreia, dirão alguns), vem a propósito de uma crítica deixada no Cinecartaz do Público, a propósito do filme "The box" (Presente de morte), recentemente estreado nas salas nacionais. Ao contrário do que se possa pensar, o texto que me maravilhou (de uma forma perversa, entenda-se) não é o de um crítico mas sim o de um leitor respondendo ao crítico. Mais papista do que o papa, mais crítico do que o crítico, houve alguém capaz de arrasar com toda a concorrência e, acredito, por uma vez meter na ordem os profissionais do setor. Não que o tenha feito como ironia mas sim como autêntica prova da existência de muito talento por aí, gente com a qual nos cruzamos e por quem não damos nada para, no fim, serem capazes de escreverem coisas como esta...

"(...) Talvez haja resquícios de um contágio binário em alguns pareceres cinéfilos; somos herdeiros [homens do século XXI] de uma trama económica que reinventou medidas e reprime contingências, inclusive no campo artístico. As facções que protelam o direito à subjectividade bifurcam (com imperativa lógica) o caminho binário trilhado. No entanto, o que antes era “surreal” e “esquinado”, ou uma facção anti-lógica binária com face própria (estética surrealista), tornou-se apenas o reverso da moeda, a cara oposta à coroa economicista: isto é dizer que, da mescla democrática formada por direitos de expressão e direito ao erro [todo o objecto sem propósitos lucrativos] nasceu a nova facção – a do direito à implementação científica da subjectividade. É a ciência do eufemismo, que ao invés de dizer, por uma, outra coisa, diz por outra coisa, coisa nenhuma – esquema niilista da cultura vigente. Chamemos-lhe a ciência do adjectivo [37, se contei bem]; gramaticalmente é formidável, diga-se, e digno de realce – há aqui um jogo complexo entre dois elementos de criação semântica e sintáctica –, pois do uso aleatório do adjectivo nasce o eufemismo, ou melhor, transforma-se o nada (aquilo que há a dizer inicialmente) noutro nada (resultado da adjectivação); ou seja, o adjectivo funciona enquanto consumação da ciência da subjectividade, ou o seu devir-ciência, que dá ao nada uma forma de nada visível – as matérias criadas são de particular eloquência quando se usa dupla adjectivação ou se reforça, habitualmente no final do texto (quando o eufemismo começa a perder força, desgastado pela transformação operada ao nada), o desgastado adjectivo com um advérbio – ah, que objectos se roubam ao nada quando têm este suporte! Passar-me-ia despercebida – ou catalogada enquanto opinião controversa – esta tentativa de “acordar” estados inorgânicos, não fosse cruzar-se com eufemismos de outra estirpe, no caso corpórea [neste caso, a adjectivação reduz a nada objectos inicialmente corpóreos (...)"


Querem mais? Vão ver aqui !
(...)Só é de lamentar a morte das crianças,que nao iram crescer,brincar,dar alegrias as familias isso sim é que se devia de comentar e lamentar.(...)



Comentário deixado por um visitante na notícia "Duas crianças entre os mortos no acidente da A25"


O grau de estupidez contido em semelhante comentário raia o criminoso. E não me refiro aos erros ortográficos mas sim à profunda irracionalidade sentimentalona que leva alguém a achar que, perante um cenário de morte e destruição, apenas as criancinhas merecem ser choradas. Os outros, todos os outros que tenham passado a fantasiosa barreira cor-de-rosa da "inocência" (onde é que ela fica, hoje em dia?), esses, que se fodam em grande porque a idade os tornou não desejáveis. Mesmo que sejam os pais de agora órfãs criancinhas que também não vão poder inundar o mundo com a sua idealizada alegria infantil - e birras, e choros, e manias -, porque os papás bateram merecidamente a bota - eles que já eram adultos, feios e maus...

E esta mentalidade miserável de gente incapaz de ver o mundo para além das suas pífias paixõezinhas e moralismos pacóvios é continuamente alimentada por títulos como o do Diário de Notícias. Afinal, é para isso que serve a informação, certo?

Arquitetura portuguesa (ou o enfado como fado)

O que se passa em Portugal que quase nenhuma estrela da arquitetura mundial consegue ver cá construída uma obra sua? Frank Gehry projetou a remodelação/recuperação do Parque Mayer (ainda no tempo do Santana Lopes) e... nada! Renzo Piano projetou a urbanização "Jardins de Braço de Prata" (precisamente nessa zona) e... nada! Norman Foster projetou a recuperação do aterro da Boavista, em Santos (Lisboa) e... nada! Zaha Hadid, provavelmente o grande nome da atualidade, concorreu ao terminal de cruzeiros de Santa Apolónia e... ficou em quinto lugar! Oscar Niemeyer tem um projeto parado na zona de Chelas desde 1999 (e o do Algarve nunca arrancou)...

Resumindo: enquanto o mundo lá fora se enche de obras de nomes consagrados, ciente de que um edifício não vale só pelas suas funções mas, também, pelo aspeto e, consequentemente, deve ser encarado como arte no espaço público e algo de enriquecedor para o património, nós, aqui no retângulo, continuamos entregues ao "cinzentismo" dos arquitetos nacionais e da sua total falta de creatividade. Há lobbies? Há cunhas? Como é que se compreende que apenas existam no território nacional três obras concluídas assinadas por mestres internacionais (Casa da Música, Porto - Rem Koolhaas; Estação do Oriente, Lisboa - Santiago Calatrava; Hotel-Casino da Madeira, Funchal - Oscar Niemeyer)? Não se compreende. Sobretudo se pensarmos que os três exemplos mencionados são absolutamente marcantes nas cidades onde estão e, até, ex-libris das mesmas. Porquê, então, esta espécie de alergia?

Dirão alguns que temos em Portugal bons arquitetos. Dirão, até, que temos dois nomes "sonantes" (Siza Vieira e Souto de Moura). Não contesto a classificação embora possa contestar algumas das obras (aqueles edifícios de Siza Vieira na Rua do Alecrim...) mas isso - a prata da casa -, não pode de forma alguma justificar que o nosso país esteja ficando para trás numa autêntica correria ao "landmark". Há, inclusivamente, destinos que não só utilizam a arquitetura contemporânea como forma de incrementar o turismo mas vão até buscar a ela uma espécie de razão de ser. Portugal não parece estar interessado nisso e hoje, como sempre, remete-se ao orgulhosamente sós e à pútrida mentalidade do "pobres mas honrados".

Que nos oferece a arquitetura portuguesa da atualidade? Refiro-me à arquitetura "grande" e não aquela dos condomínios e pequenos arranjos urbanos. Que nos mostram os artistas do croquis que seja capaz de nos entusiasmar? Pouco, muito pouco e, sobretudo, muito do mesmo. Olhar para uma casa ou um edifício de conceção nacional é um exercício no campo da monotonia. Ele é o betão à mostra, ele é as paredes brancas, ele é os ângulos retos, ele é a negação da curva, ele é os paralelepípedos... O popular termo "caixote" parece ter-se entranhado na mente dos nossos autores à força de tanta repetição de modelos estabelecidos (escola do Porto?). É a velha questão do que se quer fazer e do que querem que façamos. Espera-se o quê de um arquiteto luso? Que faça uma coisinha discreta, simples, que seja luminosa, que mantenha uma escala humana, que tenha muito branco, enfim, que seja chata! Creatividade, se a há, deve estar escondida num poço fundo, com medo de que alguém a roube.

O projeto de Zaha Hadid para o terminal de cruzeiros em Lisboa foi considerado "arrojado" para a cidade de Lisboa. O país que permite a construção de um monumental monstro de mau gosto como a igreja que Troufa Real defecou na prancheta e que reinará no alto do Restelo ou - ainda da mesma criatura -, outra igreja, desta feita em Miraflores, e que parece nascida de um pesadelo de ficção científica, esse país, dizia, permite-se o luxo de tornar em defeito algo que é, normalmente, considerado uma qualidade. Para as brilhantes mentes nacionais, adjetivar de "arrojado" um projeto é uma forma de diplomaticamente mandar alguém às urtigas por não se enquadrar nos monos padrões nacionais. Achar que as belas e definidoras obras da arquiteta iraquiana merecem ser postas de lado por serem diferentes (quando em todo o mundo essa diferença lhe é reconhecida como a maior das qualidades) demonstra à saciedade a força do espartilho que nos impede de caminhar ao lado dos outros.

As monstruosidades de Troufa Real (que, honra lhe seja feita, não é alguém que alinhe no minimalismo vigente), a frieza de Siza Vieira e do sem número de imitadores que o seguem, a chateza quadradona de um Carrilho da Graça, e a massa de autores mais ou menos anónimos que vão enchendo o país de enormes sólidos, tudo isto compõe o muro no qual esbarra o mundo.

Com tanta coisa em que o protecionismo era tão bem aplicado, logo nos havia de calhar a arquitetura!

As petições


Esta coisa da internet veio tornal banal um mecanismo de cidadania chamado "petição". Se antigamente, quem quisesse peticionar algo tinha de se dar ao trabalho de andar a palmilhar as ruas e a meter conversa com estranhos agora, com as facilidades cibernéticas, vai-se a um site, põe-se lá um texto e toca a mandar mensagens pedindo que as pessoas assinem a petição. No fim, promete-se, qualquer coisa será enviada a não-sei-quem para que algo seja feito. Pode ser do meu ceticismo militante mas tenho cá a ideia de que esta coisa das petições online não serve para nada. Ele é a renovação do jardim do Príncipe Real, ele é o novo chão do mesmo jardim, ele é as casas em Benfica, ele é o ensino do Português no estrangeiro, ele é os golfinhos no Sado, ele é o isto e o aquilo e até eu, neste mesmo blog já tentei lançar uma petição provocatória para trazer o Mourinho para a Seleção.

A pergunta que faço é: quantas destas petições é que dão nalguma coisa? Se há duas coisas que nunca chegam ao meu conhecimento são: 1) a petição foi entregue - sim ou não?; 2) a petição deu resultado?

Chateia-me isto de andar a "assinar" coisas cujo resultado fica sempre no segredo dos deuses (quando não é demasiadamente óbvio que o esforço foi em vão).