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A doença das palmas

Sabem aquele aviso que aparece no cinema pedindo para que as pessoas desliguem os telemóveis? Não é só nas fitas que semelhante pedido nos é feito. No teatro e nos espectáculos que não sejam eléctricos há sempre uma voz que aparece vinda do alto lembrando-nos, por formais palavras, da necessidade de não lixar o concerto aos outros. Mas isto não é suficiente. É que a tugalhada sofre de uma doença a que eu, na falta de termo científico adequado, chamaria de "palmite" ou seja, "o mal das palmas". O tuga adora bater palmas! Se há mais do que dois segundos de silêncio numa música, lá está a saloiada, toda contente, a bater palmas... É pop, é clássica? O que interessa isso? Importante mesmo é bater palminhas. Não há registo ao vivo de um artista nacional que não esteja todo fodido pelas palmas. A Amália abria a boca e lá vinham as palmas; o Veloso faz um trejeito à voz e o maralhal rebenta em palmaria; O Sérgio Godinho diz uma piada e o tuga, em vez de rir, bate palmas; Nos discos ao vivo ouvem-se mais as palmas do que as músicas. Mais do que irritante, é criminoso, porque nos rouba (aos apreciadores civilizados) momentos dos espectáculos e nos impede de saborear tantos pormenores delicados.

Ontem, mais uma vez, a palmite fez-se notar em força. O Coliseu dos Recreios recebeu mais uma companhia em digressão com "os" Carmina Burana (ficou-me a lição dos concertos no Largo de São Carlos). Desta vez, não só tínhamos a esplêndida obra de Carl Orff como também havia bailarinos e encenação a condizer com as letras das músicas. A coisa prometia, portanto, sobretudo para quem já havia visto algo semelhante há uns bons anos atrás no Pavilhão Atlântico (entretanto, desapareceram uns milhares de espectadores...). Ora, como já adivinha quem tem a paciência para me ler, o tuga e a sua mania das palmas resolveu espatifar vários dos temas. Como se não bastasse a canalhada achar que deve bater palmas no fim de cada música, ainda acha que sempre que há um pequeno silêncio, é para começar a aplaudir. Isto demonstra desconhecimento das "regras" da música clássica (o maestro vira-se quando é altura de aplausos) e da obra. Ambas as ignorâncias se perdoam com a boa vontade que se deve ter para com os "iniciados". Já não se perdoa é a insistência daquela maltosa lá da plateia (os lugares mais caros) em repetir o erro música após música sem perceber que, ao contrário do que seria de esperar, o resto da sala não a acompanha. Nhurros como devem ser, nem acham estranho o silêncio alheio. Provavelmente, muitos pensarão que os outros - os que não batem palmas -, são uma cambada de brutos incapazes de apreciar boa música.

Morra, portanto, a palmite. E que os organizadores dos espectáculos de música clássica (pelo menos estes) comecem a pedir contenção aos espectadores para que estes não arruinem as peças que, supostamente, deveriam estar ouvindo. Entre um telemóvel e cinquenta bimbos batendo palmas, qual incomoda mais?

Quanto à qualidade do espectáculo: valeu pela encenação e nada mais (os cantores - um dos quais repetente no Coliseu, não brilharam). O coro tinha pouca força (e foi completamente "esquecido" no momento dos aplausos finais, devido à posição que ocupava no palco) e o "O fortuna" (o grande tema da obra) foi a pior versão que já ouvi (e foram várias): sem fulgor, sem a capacidade de nos arrepiar e com um horrível oboé insistindo em demarcar-se do grupo. Também notei diversas variações nas vozes masculinas por forma a se "adequarem" à encenação, sem que isso tenha significado qualquer mais-valia para o espectáculo e, consequentemente, para o público.

A fechar a noite, a surpresa da ausência de encore (nunca visto por mim!). Mas, talvez tenha sido melhor assim. Teria sido frustrante para a companhia actuar perante uma casa onde tanta gente se apressava em sair. É que a tugalhada lá da plateia, depois de explodir em palmas (finalmente, na altura certa) nem sequer se dignou esperar pelo habitual "brinde", levantando imediatamente os pomposos rabiosques das cadeirinhas pagas com várias dezenas de euros e correndo para as portas de saída.

Se tiver sido esta a razão da inexistência de encore, então, é caso para dizer que me lixaram duplamente o concerto. Mas eu sou dos pindéricos que vão para o galinheiro...

Morreu o António Sérgio

Uma vez o homem passou por mim, ali perto da Av. da República. Franzino... em tudo contrastando com aquela voz poderosa que se lhe ouvia na rádio. Levava um brinquinho na orelha e isso também não condizia com a roupa que vestia, feita de uma camisa aos quadradinhos e uns calções azuis. Ficou-me a imagem porque, na minha cabeça, o António Sérgio seria sempre alguém vestido de preto e com ar de velho rebelde. Se o era, naquele dia estava de férias...

Do trabalho do agora falecido sou um quase ignorante. Conheço-lhe o "Lança-Chamas" e alguns minutos dispersos de outros programas radiofónicos que não me prenderam minimamente a atenção. Mas isso não é importante para mim. Não pretendo fazer elogios ao radialista nem escrever análises da sua carreira. Apenas me lembro de que, numa outra vida, havia um programa, aos Sábados à tarde, cujo genérico era um fantástico solo de guitarra de Eddie Van Halen e que, durante duas horas, rebentava as ondas hertzianas com nomes como Slayer, Overkill, Obituary e outros do mesmo calibre (que era grosso). O "Lança-Chamas" não era um programa de Heavy Metal - para isso estava lá (na Comercial) o "Rock em Stock" do Luís Filipe Barros. Não, o programa do Sérgio era para quem já estava mais "dentro" do Metal, i.e., para quem a simples distorção não bastava e era preciso qualquer coisinha mais pesada. Por isto mesmo, nunca fui fan do programa. Nessa altura, esse monumento que é o o Battery (Metallica), para mim, não passava da introdução acústica e até nomes como os Megadeth já eram "barulho". Dá vontade de rir, hoje em dia, mas era assim mesmo. Ainda assim, ouvia espaçadamente as propostas do António Sérgio e do seu ajudante. Porque eram propostas já que, no meio do Metal não se aplicam (muito menos, então), as lógicas comerciais do massacre publicitário. O radialista passava aquilo de que gostava, e pronto!

Uma vez, concorri a um concurso onde se pedia que redesenhássemos o logotipo do U.D.O - lá ganhei o terceiro prémio e um vinil mas sem que todos deixássemos de ouvir em directo o António Sérgio manifestar o pouco apreço pela qualidade dos trabalhos. Paciência, o talento não nasce para todos. O vinil, ainda o tenho.

O Lança-Chamas morreu há muitos anos e, agora, foi a vez do António Sérgio. Quem o elogia, aponta-lhe a obra e os caminhos que deu a conhecer aos fans de música. Fazem listas das bandas que ele passava (sempre esquecendo as metálicas), dos seus programas emblemáticos (sempre esquecendo o Lança-Chamas) e dizem dele que era um grande divulgador. Por mim, era aquela voz forte e colocada que me abria os infernais portões do metal mais pesado. Se eu queria, ou não, entrar, isso era lá comigo. O convite estava feito e a Comercial era uma casa aberta. Hoje, quem quer ouvir Metal na rádio tem de ter hábitos de morcego.

Só por isso, só pela lembrança dos tempos em que havia quem passasse Metal na principal rádio portuguesa, em horários decentes, fazendo mais do que a simples enunciação dos nomes das bandas, só por isso - dizia -, vale a pena lembrar o António Sérgio.


P.S. - mais uma vez, roubo uma foto à giraça da Rita Carmo. Vão ao site dela porque vale a pena.

O espalhanço da artista


Uma vez, estava eu no aeroporto de Madrid esperando o avião para Lisboa, quando a atenção que dedicava a ouvir um indivíduo falar uma língua que eu pensava ser Catalão, foi desviada por alguém falando um idioma bem mais familiar. Não foi o facto de uma mulher estar a falar em Português que chamou a minha atenção (havia, logicamente, vários lusófonos por ali) mas sim o facto da criatura em questão, brasileira, se dedicar a uma espécie de prelecção a um conjunto de compatriotas seus que, com ar desconsolado, a ouviam fazer uma aparentemente infindável série de críticas a Portugal, país para onde eles pareciam ir viver e de onde ela pretendia, desesperadamente, sair.

A personagem, casada com um português (para grande infortúnio seu, suponho) e mãe de um rapaz nascido já no luso rectângulo, sofria com todo o tipo de defeitos que este inferno à beira-mar plantado reservava para a sua pessoa: as pessoas eram brutas e nunca pediam nada por favor, o arroz era comido húmido, punha-se azeite em tudo (e até o filho dela gostava do precioso óleo - o que era sinal de que era uma coisa genética - por parte do pai), os restaurantes brasileiros estavam cheios porque só ali a comida era boa, o tempo era frio, chovia imenso, os ordenados eram baixos, os patrões eram maus, era difícil arranjar produtos brasileiros, etc., etc.

A certa altura, um dos indivíduos para quem ela falava, olhando-a com ar infeliz, soltou um "É tudo tão diferente, né?...". Claro que sim, confirmou imediatamente a mulher e por isso é que ela queria ir viver para França (que deve ser uma espécie de Brasil renascido, calculo). Aí sim, as coisas eram boas.

A esta altura, a voz da assistente chamando os passageiros para embarcar salvou a mulher de levar um sermão meu à frente de toda a gente e de a desmascarar como a perfeita puta ignorante, mentirosa e estúpida que ela era. Já dentro do avião, o monstrengo desfilou pelo corredor, com ar enjoado (talvez ela julgasse que a companhia era portuguesa e que o avião tinha menos asas do que o costume) até se ir sentar lá atrás. Não a voltei a ver mas, sobretudo, fiquei alegre por não mais a ouvir.

Vem esta pequena história a propósito da recente tempestade que assolou este jardim e que teve origem numa fantochada foleirosa protagonizada por uma mulher que eu tive como ícone de beleza durante a minha adolescência: Maitê Proença.

Longe vai o tempo em que a personagem "Juliana" se passeava nos écrans na telenovela "Guerra dos Sexos" e eu "sonhava" um dia ir para o Brasil, país onde as cidades eram grandes e cheias de prédios modernos e as mulheres eram jeitosas e dadas. Longe vai, também, o tempo em que a perspectiva de ver as mamocas da rapariga me fazia estar colado a uma série "histórica" cujo interesse, a julgar pelos comentários de então, era, mesmo, unicamente a nudez da moçoila. Para o D. Pedro e as suas desventuras, todos se lixavam. E bem, porque a coisa era uma chuchadeira. Quanto aos marmelos da rapariga, eram interessantes, sim senhor.

Ora, a boa da Maitê, sendo actriz, cometeu o disparate de ser natural o que, para quem faz da arte de fingir o seu ganha-pão , nem sempre é recomendável. Por uma vez, talvez julgando que ninguém a via, esqueceu-se da lengalenga do "povo maravilhoso" que os artistas brasileiros têm ensaiada para o aeroporto e vai de cascar na Santa Terrinha. Cascou mal, sem graça, sem estilo e acrescentando à estupidez o mau gosto. Aquele pormenor de cuspir na fonte é, sobretudo, isso mesmo: mau gosto. A mim não me choca a história de "ser nos Jerónimos". Se bem me lembro já larguei gases e palavrões em sítios igualmente vetustos e não me sinto mal por isso. Também não acho que ela estivesse a cuspir nos Portugueses. A mulher, simplesmente, fez uma coisa rasca, badalhoca, sem sentido. E fez-se filmar a fazê-lo. É como coçar os tomates: todos o fazemos mas não nos andamos a filmar a fazê-lo na via pública.

Já na história do três ao contrário e a sua associação a uma espécie de desfuncionalidade (isto existe?) do país e das suas gentes é que a pequena se espalhou à grande no que diz respeito a manifestações de lusofobia. Aquilo foi um bocado para o mau (quase tão mau quanto a tentativa de sotaque português que ela fez). Não há nada de mal em desconhecer o significado da placa com o número da porta de pernas para o ar (nem eu o sei!), não há nada de errado em brincar com a coisa... mas há tudo de mal na explicação para todo o caso.

Na minha terra, nós gozamos com aqueles de quem não gostamos muito. Brincamos com os amigos mas, fazemos pouco dos "outros". Aparentemente, no hemisfério sul, talvez por força de as pessoas estarem de cabeça para o ar, a coisa é diferente: faz-se pouco de quem se gosta e, para eles, "gozar" até é coisa prazenteira...

Ora, a verdade é que, no fim disto tudo, não há grande diferença entre a Maitê Proença e a brasileira do aeroporto de Madrid. Eu sei que uma (ainda) é bonita e a outra era um camafeu mas, para o caso, isso pouco importa. Entre a Maitê e a Lucileina ou Claudileida ou Jefersina ou Ubirunalda ou lá como é que a mulher se poderia chamar, corre a mesma seiva podre de gente que tem problemas consigo mesmo, com a sua História, com a sua identidade e que é tão mais fraca quanto a sua incapacidade para enriquecer-se com o reconhecimento das suas raizes.

Na Argentina, em Mendoza, existe uma Praça de Espanha e no meio desta está um grande mural coberto de azulejos com um texto onde se apela aos Argentinos para que não se esqueçam de que são descendentes da nobre "raça ibérica". Quando estive no local senti uma enorme inveja dos Espanhóis mas, depois, lembrei-me de que, apesar da distância, eu estava num país que se assume como "europeu". E isso talvez queira dizer muito...

"Ateu" é coisa que não existe

Agora que anda muita gente com o pelo eriçado por causa do Saramago ter mandado (e muito bem) umas bocas à Bíblia e lhe chamam "ateu" para aqui e "ateu" para ali, valeria a pena pensar se faz sentido, sequer, existir um termo para designar aqueles que não têm fé religiosa. Parece-me que não: faz tanto sentido possuir uma palavra para designar os não-religiosos como inventar uma expressão para indicar quem não seja benfiquista.

O estado natural de tudo é a neutralidade. É em cima dela, da ausência de credo ou de convicções políticas que nós construímos o edifício que é a nossa personalidade. Quando nascemos, não temos fé e a única coisa a que seríamos capazes de rezar (se soubéssemos) era ao mamilo que nos mata a fome. Logo, "ateu" é coisa que não existe. Existe sim "cristão" e "muçulmano" e todas essas porcarias com que as pessoas procuram preencher o vazio que encontram quando olham para dentro de si e não se percebem nem ao mundo em que vivem.

O Saramago não é ateu, portanto. Ele é, apenas, ele mesmo. Mas é comuna! E, mesmo na União Soviética, ninguém se lembrou de inventar uma palavra para não-comunista. "Acomunista"? Não me parece...

A nuvem do Correio da Manhã

A imagem à esquerda representa uma "tag cloud". O termo inglês significa, de uma forma resumida, o conjunto de palavras mais procuradas num determinado site.

Observe-se quais são, então, as palavras e os temas mais populares num determinado momento, na página do fantástico Correio da Manhã... Diz muito sobre o jornal e os seus leitores, não diz?

E, repare-se que eu até tenho uma doce recordação deste pasquim. Afinal de contas, a página central do seu suplemento dominical foi, na minha infância/adolescência (tempo em que não havia esta pouca-vergonha da internet), o único meio de alimentar a minha insípida líbido com imagens de mulheres nuas. Ainda me recordo de alguns momentos bem prazenteiros...

Mas, recordações à parte, o Correio da Manhã é um jornal de... merda.

O verdadeiro artista ou a sabedoria das putas

Fixem bem a cara ao lado porque ela é a de um verdadeiro artista. A máscara que contemplam pertence a David Pereira Bastos que, a partir de ontem, entrou para a minha galeria de heróis abnegados em nome da Arte - assim mesmo, com "a" grande -, ou, caso eu esteja num dia em que acorde mal disposto, de qualquer coisinha mais simples como, por exemplo... doidos.

O homem que aqui apresento trabalha na Casa Conveniente, um "teatro" na zona do Cais do Sodré, entalado entre bares de prostitutas. Escrevo teatro entre parêntesis porque não quero que alguém julgue que se trata de um "teatro" como os outros. Este é o que de mais parecido eu vi com um daqueles antros que se vêem nos filmes, onde psicopatas guardam as suas vítimas para seu mórbido deleite. É um local despido, escuro, velho e triste a que só se chama teatro porque tem lá uns decadentes cadeirões onde meia-dúzia de espectadores se sentam para ver... teatro. Para acentuar o ambiente, descobri ontem que também há uma cave. Que bela deve ser uma cave num edifício pombalino a duzentos metros do rio. Que fantasias devem assaltar quem tenha o prazer de a visitar. Só posso imaginar...

Por tudo isto (e não só), eu gosto muito de ir à Casa Conveniente. Sinto-me lá bem.

Agora, a boa da Mónica Calle (que ainda ocupa o meu imaginário envergando um camisolão de lã branca enquanto diz, com pronúncia afectada, "Ó Zé Eduardo!..." - resquícios de uma telenovela), a boa da Mónica Calle, repito, trouxe a cena uma peça em duas partes (uma por dia) em que o "dentro" e o "fora" do teatro alternam, fazendo com que, numa noite o actor esteja representando na rua, virado para o público que está no escuro do teatro e, na outra noite, a situação se inverta. Manias de artista, dirão alguns e, até certo ponto, concordo.

Mas... porque razão passei eu a considerar o homem da foto um herói? Reparem no seu ar triste, sofredor... Se julgam que aquilo é pose, não é. É mesmo antecipação pelo que lhe sucede na peça "Ouves? A tempestade". Imaginem que este artista, este verdadeiro artista, é obrigado a representar na rua, por entre comentários de putas e de passantes, sob um constante jacto de água fétida. Como se isso não fosse bastante, quando já não resta uma areazinha seca no seu corpo, o homem despe-se, entra no teatro e passa a representar nu.

É que não é só a personagem representada que sofre, é o próprio actor! E sofre na carne (porque aquilo não deve dar gosto nem no verão) e psicologicamente. Se a mim me custou estar a ouvir as bocas que lhe mandavam e a cheirar a água e o seu aroma a ovos podres, imagine-se o pobre do artista. David, como eu compreendo esse teu ar sempre pesaroso.

Imaginem o que é estar na rua aos gritos de "Socorro, ninguém me ajuda!" e ser obrigado - pela encenação -, a dizê-lo olhando para as mesmas pessoas que nos gozam pelo que estamos a fazer. Imaginem o que é estar a representar e ter uma puta gorda atrás de nós a dizer coisas como "Isto é normal?! Digam ao homem que vai ficar doente. Essa água está podre!!!". Imaginem o que é um actor ter de se humilhar para representar o seu papel. É assim o trabalho deste homem. Vocês eram capazes de sorrir no seu lugar?

No fim do espectáculo, uma das putas no local fazia questão de ser ouvida por quem saía: "Um homem nu, foda-se! Arte do caralho!". Compreende-se a indignação da puta: habituada que está a ser paga para ver homens nus, custa-lhe entender que alguém possa fazer o contrário. Quanto à consideração sobre a arte, há que aceitar que ela é uma especialista no que toca a caralhos. A puta devia ser crítica teatral, digo eu.

Esta peça acaba por ser perturbante. Não pelo texto em sim mas, precisamente, pelo sofrimento do actor. "Sou actor", diz a personagem três ou quatro vezes ao longo da representação. É, nós sabemos que ele é. Pergunto-me é se, para se ser actor, é mesmo necessário sofer.

Hoje, é a minha vez de ficar na rua. Espero que não chova mas, se chover, talvez as putas se calem... Do mal, o menos.

Parabéns ao Rio

O Rio de Janeiro vai ser a sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Parabéns aos cariocas e, por extensão, a todos os brasileiros - que esta coisa de Olimpíadas, por maior que seja o país, não é só para a cidade que dá a cara (e poucas vezes o dinheiro).

Confesso que, pela primeira vez, acompanhei o momento da votação. Foi por acaso, é certo mas, a partir do momento em que soube que era entre brasileiros e espanhóis, a escolha estava logo feita e imediatamente se instalou um nervoso irritante na barriga. Por muito que goste de Madrid, não gosto do país onde ela está e para "orgulhos" dos nossos vizinhos, já bastou o Euro 2008. Que se acalmem, por agora.

Agora, como no melhor pano cai a nódoa, o presidente do Comité Olímpico Internacional, ao anunciar a candidatura vencedora, chamou à "cidade maravilhosa" Rio de Raneiro (!). A pergunta que faço é: como é que é possível que num momento solene como aqueles, numa competição envolvendo milhares de milhões de euros, com apenas quatro concorrentes, o "chefão" do COI não seja capaz de dizer correctamente o nome do vencedor? É que até podia ser em língua marciana! O homem tinha obrigação de saber dizer as coisas. Aliás, em toda a emissão da CNN, a única vez que ouvi "Janeiro" ser dito como se fosse Castelhano, foi por aquela animalária. Enfim...

Tanta falta de jeito...

Segundo as palavras de D. Duarte publicadas na capa de um jornal, o seu filho mais novo (que nos espreita com ar malandreco na foto ao lado), já lhe ganha ao xadrez...

Alguém se importa de dizer ao homem para não dizer nada antes de consultar os seus assessores?

Depois, não admira que a única coisa de que se lembrem para "promoverem" as suas ideias sejam brincadeiras de troca de bandeiras. O próprio "chefe" não percebe patavina de estratégia!

A "Causa Real", sempre na mó de cima, como se vê.

O Canadá não é uma província americana!



Tenho cá para mim que uma das nacionalidades mais ingratas que se pode ter é a canadiana. Não porque o país tenha algum defeito de monta (parece que até é uma terra bem agradável) mas porque ser-se canadiano é, para 90% do mundo, ser-se americano. Deve ser por isso que os canadianos sentem necessidade de marcarem a diferença colando uma bandeirinha nas suas mochilas quando vão de férias.

Os canadianos são vizinhos dos americanos e, apesar de o seu território ser maior (e talvez mais rico) do que o dos EUA, a sua população é minúscula quando comparada com o irmão do sul. Para além disso, os EUA apropriaram-se do continente: são "americanos" ou "norte-americanos". E, para aumentar a confusão, americanos e canadianos falam todos da mesma maneira. Entre uns e outros, para o comum dos cidadãos, não há a mais pequena diferença.

Como se as semelhanças culturais e geográficas não fossem suficientes para ofuscar os canadianos, ainda vemos que quase todos os súbditos norte-americanos de Isabel II que sairam do anonimato à escala mundial, o conseguiram dando o salto para a terra dos cowboys, vingando na indústria cinematográfica ou musical, quantas vezes adoptando manifestações culturais tipicamente estado-unidenses, como é, por exemplo, o caso da música Country.

Os canadianos "famosos" residentes nos EUA devem viver num constante dilema existencial, provavelmente incapazes de se recordarem de que nem sequer são naturais do país onde vivem, um pouco como acontecia à personagem interpretada por Sandra Bullock na comédia "A proposta" quando lhe recordavam que não sendo cidadã americana, se tinha esquecido de renovar o visto de trabalho...

Ainda há quem fale de os portugueses serem confundidos com os espanhóis. Pobres canadianos!

Deixem-me ajudar, deixam?...

De vez em quando, também nós - os homens -, fazemos limpeza no roupeiro. Não o fazemos todas as semanas porque o nosso conceito de "ter algo para vestir" é bastante dilatado no tempo mas, ocasionalmente, lá se enche um ou dois sacos com trapos que, na melhor das hipóteses, já não nos agradam ou que, na pior, já não nos servem. :(

No meu caso, tinha em casa três sacos de supermercado cheios de roupa para dar. Camisolas, camisolões, calças, meias e até lenços de assoar (daqueles "à antiga").

Perguntei a algumas pessoas se sabiam onde poderia deixar toda aquela roupa. Normalmente, há a ideia de que as igrejas são sítios que fazem recolha de bens mas fui logo desenganado pelos meus conhecimentos que frequentam os ditos espaços: "nas igrejas já não recebem roupa". Assim mesmo.
Lembrei-me então das associações de solidariedade e enviei um email para a Legião da Boa-Vontade. Não tive qualquer resposta. Depois, tentei o Exército de Salvação por onde costumo passar no caminho para o trabalho. Como estão fechados à hora da minha passagem, mais uma vez, enviei um email perguntando se poderia ir àquelas instalações deixar a roupa (por não dar jeito ir às que estão indicadas no site). Responderam? Não.

Esperei umas semanas, não fossem os serviços das duas associações serem lentos nas respostas. Mas não era questão de lentidão porque as respostas nunca chegaram.

Gosto de ajudar mas, quando sinto que parece que o mundo me faz um favor em aceitar a ajuda, borrifo-me para o assunto. Peguei nos três sacos e fui deixando as coisas junto a vagabundos ou zonas por eles frequentadas (uma delas, também o é pela legião da Boa-Vontade). Que lhes tenha feito bom proveito, a roupa!

Mas a minha dificuldade em querer ajudar os outros não acaba aqui.

Coube-me a tarefa de vender o recheio da casa de uma familiar falecida. A pouco e pouco lá fui conseguindo vender (muito abaixo do valor, é claro) os móveis antigos que havia na casa. No fim, já quase a chegar ao limite da permanência, só restavam um espaçoso roupeiro em estilo "moderno", uma cama de solteiro no mesmo estilo e uma escrivaninha. Como ninguém pegava naquilo (apesar de serem uns bons móveis), escrevi para a REMAR, mais uma associação de solidariedade (drogados) que recolhe móveis, restaura-os e, depois, os vende.

À primeira, não responderam. Insisti. Telefonaram-me perguntando onde estavam os móveis para poderem contactar o centro mais próximo. Finalmente, disseram-me que desse centro me iriam contactar no dia seguinte. Já estão a ver o que aconteceu, não estão? As mobílias ficaram onde estavam e, agora, devem ser uns bons bocados de lenha num qualquer aterro sanitário...

Como diria uma qualquer personagem cómica: "eu só queria ajudar" mas - e agora sou eu que o digo -, FODA-SE que é difícil!!!

Manuela Moura Guedes

A dar razão ao ditado que diz "Não há bem que para sempre dure nem mal que não se acabe" e a tirá-la ao que diz "De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento", a ordem que o patrão do grupo Prisa deu para acabar com o pseudo-noticiário de Manuela Moura Guedes na TVI podia ser uma verdadeira prenda para o público nacional inteligente (ironicamente, aquele que não via o espectáculo da mulher).

Mas, como não há bela sem senão (a bela não é a MMG, atenção!!!), o fim das bocas da estrela da TVI (isto não foi uma tentativa de piada) veio torná-la ainda mais mediática. É que, se antes só a via quem queria, agora, somos todos forçados a levar com aquele rosto deformado porque ele está em toda a parte! A Sra. Moniz e as suas bochechas andaram a fotografar-se para todos os pasquins nacionais (desportivos à parte que preferem - e bem! - as pernas do DiMaria ou outro equivalente), e eis que o cidadão desprevenido, olha para a direita, olha para a esquerda e só vê Manuela Moura Guedes; olha para cima, olha para baixo e só lê os queixumes da desditada "jornalista".

"Moura Guedes afastada por dono da Prisa", "Espanhóis calam Manuela", "Sócrates admite que fim do jornal de Moura Guedes pode prejudicar PS nas eleições", "Manuela sai mas deixa peça para hoje", "Administrador da TVI votou contra fim do jornal da Manuela", "Manuela em lágrimas garante que não desiste", "Caso Moura Guedes condiciona campanha eleitoral", "Saída do casal Moniz dá 57 milhões à Impresa"... estes são os títulos que andam a circular por aí, sempre acompanhados pelas dispensáveis fotografias da "boneca".

Por mim, fico a pensar o que teria sido pior: continuar a mulher na TV (eu nem a via), envenenando o povinho com a sua falta de categoria, ou ficarmos livres dela (para já) para, agora, termos de levar com a personagem em todos os jornais?

Ó espanhol que a despediste, cá para mim, ainda acabaste foi por nos lixar!...

Livros à borla

Imaginem um sítio onde é possível procurar obras e descarregá-las gratuitamente. Não falo só de romances mas também de livros técnicos. Imaginem um sítio onde é possível ir buscar a obra completa de Machado de Assis ou uma mão-cheia de livros de Fernando Pessoa ou Alexandre Herculano (entre muitos outros). É uma ideia agradável, certo?

Pois bem, recebi hoje um email apelando à divulgação do endereço www.dominiopublico.gov.br, site que eu desconhecia mas do qual já puxei hoje larguíssimas dezenas de ficheiros com obras que boa companhia hão-de me fazer no futuro. Nem me dei ao trabalho de explorar todo o acervo da "biblioteca" porque me fixei, logo, nalguns destaques mas deu para perceber que há ali muito que ver.

Como terão percebido pelo URL, trata-se de obras que já cairam no domínio público, i.e., já não estão sujeitas a direitos de autor e podem ser livremente distribuidas. Porque não aproveitam para visitar o site? Puxem, descarreguem, baixem, saquem... tudo à borla!

O pior mesmo é saber que, segundo a mensagem que recebi, esta óptima iniciativa do Governo Brasileiro está em vias de encerrar por falta de acessos. É estúpido, digo eu. Não vejo que despesa insustentável possa semelhante projecto representar para o governo de um país de 180 milhões de pessoas. Afinal de contas, é um "mero" repositório de ficheiros que podia estar em qualquer servidor. Talvez a história esteja mal contada...

De qualquer forma, aproveitem o quanto antes, não vá a ameaça de encerramento ser mesmo real.

Fosse um arquivo de Axê e já não fechava...

Agitações num copo de tinto...

Os noticiários têm andado ocupados com a façanha de um grupo de rapazes pertencente a um blogue que resolveu substituir a bandeira do concelho de Lisboa pela da Monarquia constitucional no que consideraram ser um gesto simbólico de reposição da legalidade no local onde foi proclamada a República, em 1910.

Como de costume com todos os assuntos que geram polémica (natural ou artificialmente), a ignorância e a estupidez vieram a campo para assegurar que durante e depois de qualquer discussão, tudo ficasse baralhado de modo a ficar na mesma e o cidadão comum, apanhado desprevenido pelo assunto, se remetesse à sua habitual placidez intelectual de quem não quer saber de nada e a única coisa que sabe é que "eles são todos uns malandros!".

Quando li pela primeira vez uma notícia sobre a acção dos elementos do "31 da Armada", não pude deixar de me rir perante os pormenores que eram descritos: três indivíduos, mascarados de Darth Vader vieram desde a Av. da Liberdade até à Praça do Município, transportando um escadote consigo. Finalmente, chegados ao local, subiram à varanda e trocaram as bandeiras. A imagem de três clones de Lord Vader, vestidos a rigor (máscara e capa, pelo menos!), atravessando durante a noite a baixa pombalina, em passo lento, ao som da "marcha imperial" e dividindo o peso de um escadote de três metros é digna do melhor humor absurdo. Quanto à mudança das bandeiras, ela satisfez nos primeiros momentos os resquícios das tendências monárquicas que tive há quinze anos.

O problema é quando o riso se cala e somos obrigados a olhar friamente para as coisas. O problema é quando as reacções ao caso nos obrigam a, também nós, reagirmos.


A coisa não foi inocente...

Aquilo que poderia ter sido uma engraçada brincadeira acabou por tornar-se um acto de desrespeito pelas instituições, de provocação política e, reduzido à sua essência, um caso de polícia. Finalmente, sabidos e vistos os pormenores do enredo, nem sequer teve a piada inicialmente imaginada: de Darth Vader só havia a máscara colocada no momento e por apenas um dos "assaltantes" o que fez desaparecer, imediatamente, todo o cenário cómico da caminhada triunfal desde a Av. da Liberdade. Afinal de contas, os descarados "heróis" tinham tentado ser discretos...

A acção foi um acto de desrespeito porque a varanda que foi assaltada não é uma qualquer varanda anónima (o que, mesmo assim, implicaria um desrespeito pelo "anónimo" seu proprietário) mas um local simbólico do regime actual e do mais importante município nacional e cidade capital do país. A varanda da Câmara Municipal de Lisboa ostenta uma bandeira que está lá porque o sistema político assim o concede e exige. O pavilhão municipal representa a edilidade mas também o seu povo e o seu passado. É assim com os símbolos: são-no porque os reconhecemos enquanto tal e por isso se constituem elementos a proteger. Dizer que foi "apenas" a bandeira de Lisboa pode satisfazer a crença numa hierarquia de símbolos (a CML vale menos do que o País mas mais do que a Freguesia de Alvalade) mas omite o facto de que, mesmo nessa hierarquia, um município é algo com bastante importância.

Houve um acto de provocação política porque os autores da "operação" sabiam perfeitamente o que faziam, jogando com o imaginário republicano que, erradamente, associa a proclamação da República ao hastear da bandeira verde-rubro nos Paços do Concelho (nessa altura, ainda não havia uma bandeira escolhida, sequer), tentando aproveitar o sempre presente espírito anarquista do cidadão-comum que espera que qualquer coisa aconteça para por a "malandragem" na ordem e, finalmente, gerar desta forma a discussão pública sobre as virtudes do regime monárquico, sintomaticamente apresentado como a salvação para a bagunça da República, no que segue a linha de acção republicana durante o reinado de D. Carlos.

Por último, a troca de bandeiras foi um acto de polícia. Por mais que a irresponsabilidade de alguns ou o cinismo de outros possa repetir que não houve danos causados nem intenção de os causar, que nenhum furto foi efectuado e que a bandeira seria devolvida a quem de direito (publicamente, já se vê, para prolongar o efeito da coisa), tudo não pode deixar de ser visto como uma intolerável chacota para com as instituições e para com a lei, vinda de pessoas que, supostamente, se apresentam como defensoras de um regime capaz de acabar, precisamente, com a bandalheira da qual elas agora se pretendem valer para escaparem impunes.


Responsáveis e cúmplices

Mas como acontece quase sempre, consegue-se olhar as coisas de forma a levantar novos problemas. No caso, mais importante do que qualquer simbolismo político que só diz algo a quem faça questão de por os óculos, este caso de polícia deve tornar-se, precisamente, um caso "para" a Polícia. Porque há que explicar como é que é possível que, a apenas cinquenta metros de uma esquadra, no centro da cidade, perto de uma zona "sensível" (bares do Cais do Sodré), defronte de instalações da Armada e junto a bancos (como o Banco de Portugal, por exemplo), é possível que três indivíduos subam a uma enorme varanda na fachada principal da Câmara Municipal da capital do país sem que ninguém os note! Omite-se aqui a passagem daquele cidadão que se vê no vídeo e que se esteve lixando para o caso. Afinal de contas, é natural estar alguém a subir à varanda da CML, escondendo-se na sombra, a meio da noite, com um tipo a filmar do outro lado da praça. A máscara do Darth Vader também não o incomodou porque a sogra costuma usar uma quando lá vai a casa...

E como se não fosse suficiente a ausência de vigilância (ou denúncia), a bonita bandeira azul e branca ainda teve o direito de flutuar livremente até perto das 13:00, ou seja, esteve visível durante quatro ou cinco horas no período de serviço da CML! E aqui, pergunta-se: anda toda a gente de olhos no chão ou os funcionários camarários acharam graça à coisa e não fizeram nada? Se é este o caso, então, estamos perante gente que não pode ser considerada de confiança e que merece ser chamada à tábua, gente que desrespeita os símbolos da própria instituição que lhes paga o ordenado e lhes concede não poucas regalias.

Mas, por estranho que pareça, nem a ausência policial, nem a cumplicidade dos funcionários (porque só pode ter existido!, activa ou passiva) parece ter sido capaz de gerar verdadeira estranheza na opinião pública. Umas meras "bocas" respeitantes à enorme insegurança que se sente na zona (o Português só se sente seguro dentro de um cofre), foram tudo o que se ouviu cair no habitual saco roto da responsabilização.

As cumplicidades não acabam aqui. Quando percorremos esse inferno de neuróticos que são os comentários às notícias na internet, vemos que a opinião geral varia entre o nada fazer e o aplauso aos bloguistas. Os autores dos comentários da primeira espécie pertencem a essa casta tão nacional dos indivíduos que vociferam contra tudo e todos apelando constantemente às maiores penas mas imediatamente desculpabilizando as vítimas iniciais dos seus impropérios caso elas sejam efectivamente responsabilizadas por quem exale o mínimo odor a poder e a autoridade. Porque esta quer-se, obviamente; porque aquele precisa-se, claro; mas os dois juntos é que não dão jeito. Ter poder para exercer a autoridade e fazê-lo é pecado que nem a Nossa Senhora de Fátima com as suas lágrimas pode perdoar. Já basta que deixe escapar os políticos e os pedófilos que são, como todos sabemos, uma cambada de assassinos... Quanto ao segundo tipo de comentadores, substituem a irresponsabilidade cívica, pelo cinismo oportunista e por uma quase enternecedora fantasia...


O reino do faz-de-conta

... porque, se há coisa que parece marcar a chamada "causa monárquica" no nosso país é uma espécie de suave alheamento da realidade que se abate sobre os seus defensores. Não estou aqui a dizer que defender a monarquia é, em si mesmo, coisa de aluados mas é um facto que, quando confrontados com muitos textos que circulam na internet (ou que nos são impingidos via email), é impossível não deixar de pensar que qualquer coisa funciona de maneira diferente na percepção da realidade que os monárquicos parecem ter.

Qualquer ideal político que não colida com os princípios básicos da dignidade humana tem direito a ser defendido e o respeito por esse direito - o da livre expressão de pensamento (juntamente com o da livre associação) -, constitui uma das marcas definidoras do Estado de Direito.

Parece claro que nenhuma monarquia ocidental (ou a japonesa) possam ser apontadas como não sendo estados de direito, isto apesar de os seus regimes políticos assumirem, na essência, uma desigualdade social nas pessoas dos membros das famílias reais e da nobreza. É uma concessão que, hoje, os cidadãos livres desses países aceitam em nome da tradição mas também da estabilidade política.

Portanto, negar aos monárquicos portugueses o seu "direito de antena" é algo que não se pode aceitar sob pena de se entrar em contradição com os próprios princípios republicanos de igualdade e liberdade. Mas coisa muito diferente é fechar os olhos à utilização de meios menos próprios para promover uma causa que, nas mais das vezes, vive na mais profunda sombra sem que se entenda o que fazem os seus defensores para a tirar de lá.

Desde há muitos anos que sou apenas um Monárquico não praticante. O principal motivo reside no facto que [SIC] o movimento monárquico estar tomado por vaidosos que vivem numa redoma de vidro, imaginando que estão num país faz-de-conta de viscondes, baronetes e escudeiros, que se pelam por falsas honrarias e distinções estapafúrdias.




Ser-se monárquico parece ser uma actividade de salão, tão própria de um contexto elitista quanto as elites que se pretende defender. Se há "povo monárquico", ele vive calado: não pinta as paredes, não cola cartazes, não faz comícios, não subscreve petições, não se faz notar. E é aqui que entra a fantasia: na ideia que alguns irredentistas pretendem fazer passar de que não só existe uma maioria monárquica mas silenciosa (porquê?, pergunto), como também existe um forte movimento pró-monárquico cheio de vigor e acção criando uma onda de adesões constantes aos seguidores da Casa de Bragança.

Se existe uma "maioria silenciosa" de monárquicos, o mínimo que se exige é que se manifestem, em nome dos seus ideiais e da democracia, porque esta é feita para todos e nada mas, absolutamente nada, os impede de falar (ainda que os impeça de verem o seu "líder" entronizado). A verdade é que sendo sobejamente conhecidas várias figuras públicas que se assumem como monárquicas, a sua actividade enquanto tal parece resumir-se a "bocas" em público (muito ao jeito dos irmãos Câmara Pereira) ou à produção de textos de cariz quase iniciático que, fatalmente, escapam à maioria da população. Talvez a razão de ser da falta de empenho em promover os seus ideais tenha a ver, precisamente, com a tal fantasia da maioria silenciosa. Não vale a pena conquistar adeptos se já se é maioria. Se assim não é, o caso é mesmo bizarro...

Quando pensamos que o líder do CDS/PP - Paulo Portas -, é apontado como sendo monárquico (mas nem uma palavra lhe ouvimos publicamente sobre isso); que o até há pouco presidente do maior banco privado português (e antigo Secretário de Estado) - Paulo Teixeira Pinto -, é assumidamente monárquico; que artistas como João Braga e toda a família Câmara Pereira o são (gente com "acesso" à comunicação social); que o muito considerado Gonçalo Ribeiro Telles é; que o popular escritor João Aguiar, é; que o tristemente célebre Sousa-Lara, é [certo... :|]; que há ou houve generais, empresários, políticos que são ou foram e que não usaram qualquer da sua influência para, publicamente, defenderem a sua causa, então, é legítimo perguntar: o que querem os monárquicos, afinal?


O que querem eles, não sei. Suponho que tudo se resuma a uma maneira de estar, uma espécie de "somos melhores porque somos diferentes porque somos poucos". Há uma atracção que as franjas da acção política exercem que não é equiparável ao "carneirismo" dos movimentos maiores. Ser-se social-democrata ou socialista não produz qualquer aura de prestígio. Ser-se comunista já conta alguma coisa (pelo lado quase folclórico). A filiação bloquista é sinónimo de rebeldia política e social e o CDS/PP é coisa para gente que sabe estar... Quanto menor a representatividade, maior a auto-consideração que os "partidários" têm por si mesmos, mais forte é a sensação de se pertencer a uma casta iluminada. No limite, o prestígio absoluto é conseguido pela pertença a um grupo tão pequeno, tão exclusivista quanto uma família. A real serve como exemplo máximo.

O único local onde a presença monárquica se faz sentir é a internet. Quando começamos a procurar, encontramos não uma mas duas mãos-cheias de sites e blogues de tendência monárquica, repletos de longos textos sobre tudo aquilo que os monárquicos considerem fazer parte da sua "ideologia". Coisas que vão do social à gastronomia, passando pela defesa do património e até mesmo a... política. O estilo de escrita é, demasiadas vezes, assumidamente caceteiro, achincalhador, ofensivo mesmo, em tudo recorrente do que era o estilo republicano durante o estertor da Monarquia. Tal como acontecia com os republicanos de antanho, para os monárquicos "activos" a utilização da palavra em forma severa e acusatória faz parte da cartilha activista. A ostensiva adjectivação perjorativa dos "adversários", a generalização de atribuição de comportamentos reprováveis, a responsabilização sistemática do regime pelos problemas comuns a todas as sociedades actuais, a defesa de uma espécie de pureza ética assente em critérios próprios da ideologia defendida, tudo isso são coisas banais e próprias dos arrabaldes do espectro político, ontem e hoje, chame-se aos partidários dos movimentos fascistas, comunistas, monárquicos, republicanos ou fiéis de Deus.

Os monárquicos, pretendendo ser diferentes, acabam por sofrer dos mesmos vícios que quaisquer outras das "forças políticas" que eles tanto acusam. Um dos mais irritantes é a soberba...


Mensagem errada, na altura errada

Se fizermos uma passagem pelos conteúdos disponíveis na net, sejam eles os comentários a artigos ou textos ideológicos, uma das coisas que ressalta é a ideia de superioridade ética e cultural que os monárquicos têm de si. Mais do que verem-se como portadores de uma mensagem política, eles pretendem ser vistos como uma reserva moral e cultural que só não é apreciada pelo país porque este se encontra dominado por forças malévolas (entenda-se, a Maçonaria) que tudo fazem para manter o povo na ignorância e assim impedir os supremos desígnios da nação de se concretizarem.

Para o monárquico, o conhecimento da História é essencial. Não tanto pelos ensinamentos que ela nos dá (e que deviam fazer da disciplina uma coisa essencial na formação de qualquer cidadão) mas porque permite fundamentar o sentido de vassalagem (e, consequentemente, a negação das suas alternativas) em episódios históricos mais ou menos distantes. Este conhecimento (que traz, por arrasto, a ideia de que os "outros" não o possuem), torna-se, para alguns, uma obsessão alimentadora de complexos ao permitir-lhes extrair de algo que não é exacto mas sim sujeito a interpretações, todo um conjunto de dogmas baseados num particular sentido de descontextualização histórica, como são, por exemplo, o caso da legitimidade do regime monárquico derivada da fundação oficial da Nação no remoto ano de 1143, os feitos "gloriosos" no Séc. XVI ou a (suposta) "decadência" nacional pós-implantação da República.

Mas não basta a má qualidade dos músicos, é a própria partitura que é má. Quando a população vive numa obsessão anti-autoridade alicerçada na ideia de que todo o poder é corrupto e "eterno", os monárquicos propõem um poder que nem sequer pode ser "controlado" pela população. Quando os cidadãos se queixam da existência de uma casta social e clientelista composta pelos detentores de cargos políticos, os monárquicos propõem um regime onde se acrescenta uma nova casta (a nobreza), com existência legalmente consagrada e não tendo por base qualquer noção de mérito ou esforço. Quando as igrejas se esvaziam e o desinteresse pela religião é cada vez maior (para apenas ser contrariado por fundamentalismos ou charlatanices), os monárquicos propõem um regime assente na noção de Deus e servido por católicos praticantes. Quando a liberalização de costumes conquista as pessoas e se instala como "a maneira de estar" actual, os monárquicos propõem o conservadorismo.

Em contrapartida, munem-se de argumentação demagógica tendente a aproveitar o descontentamento da população (que é essencialmente induzido pela comunicação social e pela falta de frieza intelectual do cidadão comum), enfatizando comparações como aquelas que pretendem condicionar o apoio a um regime pelas verbas necessárias à sua manutenção, argumento este que, levado ao extremo, acabaria pura e simplesmente com a democracia, já que seria mais barato sustentar unicamente um ditador do que um parlamento (situação que nem Salazar tentou).

Outro dos argumentos preferidos pelos monárquicos é a situação económica (mais uma vez, fala-se de dinheiro) das monarquias ocidentais que, segundo aqueles, apresentam níveis de desenvolvimento superiores aos das repúblicas. A coisa tresanda a demagogia, ignorando-se por completo a evolução histórica das diversas nações, as causas da sua situação actual, os diferentes contextos geopolíticos, etc., para se atirar ao público, com todo o desprezo de quem diz "para quem é, basta", uma posta de má qualidade com o carimbo de "um Rei faz bem".

A França republicana tem um nível de desenvolvimento superior ao da Espanha monárquica (com a maior taxa de desemprego da Europa) que foi fruto de uma brutal guerra civil e do governo de um ditador sanguinário e que sabe que, no dia em que o Rei cair, o Estado desmorona-se. A também republicana Alemanha tem qualidade de vida superior à do Reino Unido, país com tensões sociais e políticas e uma família real cujo descrédito não pára de aumentar e que vale mais como cartaz turístico do que como interveniente na vida social e política do país. A Bélgica é um Estado colado com cuspo, onde o Rei já nem do país pode dizer que é mas tão-só dos cidadãos, vivendo o país sujeito às constantes tensões entre as suas comunidades étnico-linguísticas. O Luxemburgo e o Liechtenstein são micro-estados que, naturalmente, beneficiam da sua situação geográfica e do facto de não deverem satisfações a mais nada do que ao seu bem-estar material. O Mónaco é uma estância balnear para milionários cujo destino enquanto estado independente está entregue às capacidades reprodutoras do príncipe herdeiro que, se falhar nessa tarefa, será responsável pela entrega das chaves do principado à França. A Holanda foi ao longo da sua História um país retalhado e colado, sujeito às marés da política continental mas que sempre apostou na iniciativa privada e mercantil e que soube aproveitar a sua situação geográfica privilegiada sendo hoje um exemplo de liberalismo social dificilmente aceitável pelos conservadores monárquicos portugueses.

E restam-nos as três monarquias nórdicas (porque a monarquia no Canadá, Austrália e Nova Zelândia conta quase como "aberração"). Que dizer destas? Que dizer do desenvolvimento que ostentam? Que não tiveram colónias e, logo, foram obrigadas a aprender a viver do que tinham? Que não passaram por processos revolucionários? Que se encontram numa zona tradicionalmente "movimentada" da Europa? Que a social-democracia não foi certamente inventada no gabinete dos reis? Que o petróleo e os mares noruegueses não estão lá por iniciativa real?

Na verdade, pouco interessa porque, se há coisa que se percebe na argumentação monárquica é que ela é falha de sentido, ora preferindo apoiar-se em lugares comuns que apelam à cupidez e à revolta, ora enrolando-se em intrincadas teorias messiânicas que nada dizem aos não-iniciados.

O marketing monárquico, em suma, é quase nulo e, quando damos por ele, é para o acharmos mau. Mesmo o momento de maior exposição mediática e simpatia popular que a Monarquia teve desde 1910 (o casamento de Duarte Pio com Isabel Herédia) foi completamente desperdiçado pelos sempre etéreos monárquicos que terão gritado muitos "Viva o Rei!" (eu também lá estava e fi-lo pela piada) para, no dia seguinte, voltarem à sua habitual inércia. Deus há-de ajudar!

Mas, diz o ditado, que "Deus ajuda quem se ajuda a si mesmo" e o que se vê é que a atrapalhação é tanta nas hostes azuis e brancas que não só os monárquicos não se ajudam como se prejudicam. Exemplo disso são os recentes comentários de Duarte Pio acerca de José Saramago e do seu famoso "O evangelho segundo Jesus Cristo". Não é que Saramago tenha de ser consensual, longe disso. Não fica é bem a alguém que se quer assumir como representante máximo de uma alternativa de regime pretensamente patriótico envolver-se em polémicas estéreis baseadas em conservadorismo religioso com aquele que é a maior expressão da nossa literatura actual (e o único Prémio Nobel de Língua Portuguesa). No mínimo, representa alguma falta de sentido de oportunidade (para estar calado). Por vezes, valemos mais pelo que não dizemos do que pelas opiniões que expressamos...

E já que a conversa nos traz até Duarte Pio, aproveito a oportunidade para perguntar: já está resolvida a questão sobre quem é o legítimo herdeiro do trono português? É que, como se não bastasse a monarquia não ser "apetecível" para o público em geral, ser vítima de imensos preconceitos (quase todos ligados a uma enorme ignorância sobre o que é o papel de um rei constitucional), Duarte Pio não ter uma figura "interessante" e passar a ideia de ser alguém pouco dotado intelectualmente (ideia completamente rebatida por todos os que o conhecem) (*), ainda há a questão de os próprios monárquicos estarem divididos entre si, quase 100 anos depois do fim da Monarquia!

Nuno da Câmara Pereira publicou a expensas próprias (julgo), um livro onde constrói uma teoria que visa provar que o verdadeiro herdeiro da coroa é alguém cujo título nobiliárquico é Duque de Loulé (por oposição ao de Duarte Pio, que é Duque de Bragança). Este Câmara Pereira - que canta o fado mas não finge tocar um instrumento -, é o presidente do PPM, o partido cuja insignificante expressão e teimosia em se manter no activo constitui um dos mais fáceis argumentos usados pelos republicanos empedernidos (e pouco inteligentes) para demonstrar a falta de apoio popular à causa monárquica.

Mas, se por acaso alguém achar que Duarte Pio e o tal "Duque de Loulé" não servem para reinar, ainda há a hipótese de contarem com Jacob Xavier ou mesmo com Rosário Poidimani. E não falamos no Rei da Fuzeta!

Se isto não é prova da incapacidade da ideia monárquica para se afirmar como alternativa viável à República, dir-me-ão o que é...


E os rapazes?

Pois é, e os rapazes do "31 da Armada"? Bom, que sirvam de exemplo para que novas palhaçadas não aconteçam. A liberdade está aí mas não é para subir às varandas dos outros e o argumento boçal de que gente pior anda à solta só colhe em espíritos embrutecidos. Não bastava aos rapazes fazerem a brincadeira, ainda sentiram necessidade de se exibirem perante o mundo. Agora, arcam com as consequências de terem produzido prova contra si mesmos...

Quanto à causa monárquica, as ruas estão abertas às manifestações da sua "imensa" massa de adeptos, as avenidas pedem para se encherem com paradas, as praças gritam por comícios. Alguém os impede? Talvez a falta de quorum...

De tudo isto só se aproveita uma coisa, a constatação de que a bandeira era muitíssimo mais bonita...


(*) - o que não é o mesmo que dizer que não seja uma pessoa "desajeitada". A título de exemplo, a oferta de um calendário com uma fotografia da "família real" a um oficial superior do exército, em Timor...

Igualdade q.b.

O Conselho de Segurança da ONU emitiu uma resolução referente à igualdade de géneros em zonas de combate. O nosso governo, na sequência, aprovou um "plano nacional de acção" para a igualdade de géneros. Acho bem!

A verdade é que se há coisa que me toca é a igualdade. Igualdade entre classes, sexos, raças, culturas, tudo!

Mas... o que é que se entende por igualdade? E até que ponto é que a procura desta não favorece novas desigualdades?

Aquilo a que assistimos inicialmente com as sufragistas foi a reinvindicação de um nível mínimo de igualdade perante o Estado, seguido de outros avanços tendentes a assegurar que mulheres e homens tinham acesso igual à participação cívica, por se entender que não existe verdadeira democracia quando não há igualdade de tratamento perante a lei. Faz sentido e é nobre.

O problema é que, ao mesmo tempo que as mulheres foram conquistando os seus direitos legítimos, o seu leque de obrigações não aumentou na devida proporção e mantiveram-se mesmo (quando não se encorajaram) situações discriminatórias para com os homens. Os exemplos são fáceis de trazer à discussão:

1) Forças Armadas: as mulheres fizeram questão de poderem ingressar nas fileiras do Exército e demais armas mas nunca demonstraram qualquer interesse em apoiar o fim do serviço militar obrigatório (que era "castigo" exclusivo dos homens) e muito menos de exigirem que também elas fossem forçadas a entrar nos quartéis. Também não se notou grande combatividade feminina no sentido de acabar com a regra quase universalmente aceite de não enviar "militares-fêmea" para zonas de combate. Ou seja, o feminismo lutou por alcançar um direito mas ignorou as obrigações.

2) Custódia paternal: as mulheres exigiram à sociedade não serem vistas como meras "mães" mas como cidadãs participativas que poderiam, ou não, querer a maternidade. E lutaram para que os homens se tornassem mais participativos nas tarefas caseiras e, de um modo geral, mais envolvidos nas questões familiares. No entanto, continua a vigorar (e a ser por elas alimentado) um preconceito baseado numa suposta predisposição das mulheres para cuidarem das crianças, preconceito esse que lhes assegura posição largamente privilegiada nos tribunais, sempre que se dá uma disputa pelo poder paternal. Não se vê qualquer movimentação feminina tendente a corrigir semelhante injustiça.

3) Trabalho: as mulheres empenharam-se em aceder aos postos de trabalho que antigamente estavam "oficiosamente" reservados aos homens e a sua preponderência em determinadas áreas académicas indica que, no futuro, é bem possível que uma boa parte dos lugares de decisão esteja nas suas mãos. Uma das lutas femininas no local de trabalho prende-se com a igualdade nas remunerações. No entanto, nota-se uma perfeita ausência de preocupação igualitária quando toca a outras condições de trabalho, nomeadamente no facto de uma grande parte dos homens ser obrigada a vestir-se de acordo com regras estabelecidas (fato e gravata) ao mesmo tempo que às mulheres é concedida liberdade quase total na escolha da indumentária. Só não sabe o valor disto, quem não tem de viver "encafuado" numa armadura de pano...


4) Exclusividade: a existência de ambientes reservados (formal ou informalmente) a homens tem sido contestada pelas mulheres, desde as já referidas forças armadas até aos selectos e exclusivos "clubes de cavalheiros" britânicos, não hesitando algumas em recorrer à via judicial para alcançarem os seus fins. Para as feministas, é inaceitável que a condição de mulher as possa arredar de qualquer instituição, pública ou particular. No entanto, assistimos a uma profusão de ambientes e serviços unicamente reservados a mulheres, como sejam os ginásios 100% femininos, as corridas de beneficência (aparentemente, os homens não podem ser solidários no que diz respeito ao cancro da mama - mesmo que já se tenha provado que também podem sofrer dele), os canais de TV dirigidos às mulheres, acesso gratuito a estabelecimentos de diversão nocturna, noites temáticas nos mesmos estabelecimentos onde só elas podem entrar, condições preferenciais nos seguros com tipos de apólices só para condutoras, etc. Nada disto parece fazer qualquer impressão às defensoras da igualdade.

5) Quotas: em nome da igualdade de acesso ao poder, o igualitarismo empedernido gizou esquemas de modo a forçar à igualdade representativa nos órgãos de soberania (ou na tentativa de acesso a eles), inventando proporções de 1/2, 1/3, as mais das vezes perfeitamente deslocadas da realidade social e política (há efectivamente muito menos mulheres envolvidas na política) e passando por cima de critérios que deveriam ser sagrados - como o mérito -, entrando em contradição com aquilo que seriam os princípios básicos de verdadeira igualdade - natural! - entre géneros. O paternalismo masculino (que bem que fica aqui uma senhora!) aliado a um optimismo apalermado por parte de algumas "colaboradoras" tem sido, curiosamente, das poucas coisas em que se tem manifestado alguma contestação feminina, talvez por via de um certo orgulho ferido com base na rejeição de favores. Mas já não se tem assistido a qualquer desconforto quando, de forma desbragada, são feitos elogios às "mulheres na política" e a uma suposta "maneira diferente de estar" (que escapa à maioria das pessoas). A ser verdade semelhante diferença, teríamos uma Caixa de Pandora aberta...

6) Tratamento diferenciado: já por duas vezes (à entrada da Colecção Berardo) e num hipermercado (em tempos de "ameaça" terrorista), se deu a totalmente humilhante e inaceitável situação de a todos os homens ser "pedido" que deixassem as suas mochilas no bengaleiro ao mesmo tempo que as visitantes/clientes eram deixadas entrar com as suas malas, mochilas e sacos sem que qualquer reparo lhes fosse feito. Em ambos os casos, nenhuma mulher, mesmo as que acompanhavam homens, levantou qualquer objecção a semelhante discriminação, baseada em critérios que só podem ter origem numa cabeça com problemas. Situação idêntica acontece na entrada para concertos e grandes eventos, onde os homens são revistados enquanto que as mulheres são, na generalidade, deixadas passar sem qualquer incómodo. Como se isto não fosse condenável pela diferenciação de tratamento, ainda há a questão de segurança: um ataque terrorista ou um acto de vandalismo pode ser facilmente executado se for por uma mulher...

Ou seja, a natural vontade do sexo feminino de se ver equiparado ao masculino tem como limites o próprio interesse e conforto das mulheres, sendo este o único princípio a reger as suas reinvindicações. Ao contrário do que sucedeu com os direitos das mulheres - que contaram com o apoio de muitos homens (nomeadamente aqueles com poder para mudarem as coisas) -, nas situações em que os homens estejam em desvantagem, a ausência de preocupação por parte do outro sexo é total.

Como sou um firme crente na igualdade plena e até já tive de me bater por isso (para ouvir coisas do tipo "sou uma rapariga, não posso andar a acartar caixas!"), irrita-me particularmente a retórica feminista que apela a elevados princípios mas sempre condicionada ao interesse próprio, seja ele ao mais alto nível da organização social ou à porta do bar...

Copiar <> Roubar

Uma das notícias do dia é o "pedido" que foi feito à Portugal Telecom para bloquear o acesso a umas dezenas de sites hospedados nos seus servidores e que promoviam a descarga ilegal de conteúdos, nomeadamente filmes e música.

A iniciativa, que envolve a ANACOM, o IGAP e uma tal MAPiNET, enquadra-se no guerra contra o que se convencionou chamar "pirataria informática", guerra essa que, periodicamente, conhece novas batalhas que, fatalmente, acabam por fazer umas baixas involuntárias para tudo voltar, pouco depois, ao mesmo.

Aliás, hoje mesmo, um dos sites bloqueados saltou, pouco depois, para novo servidor e lá continua alegremente fornecendo ligações para discos e filmes.

Um dos argumentos utilizados pelos autores dos sites, e à semelhança do que aconteceu com o Pirate Bay, na Suécia, que as páginas de internet a seu cargo não guardam os conteúdos pirateados, limitando-se a indicar onde eles estão. Trata-se de um preciosismo desesperado e, até, desesperante, para quem tenta ver estes assuntos com seriedade.

Basto recorrer ao senso comum para perceber que não é preciso roubar para se ser punido. Dizer aos ladrões onde é que o vizinho guarda as jóias, também é crime.

Mas... não serei eu o primeiro a atirar uma pedra aos donos destes sites até porque eu, tal como toda a gente (não acredito em santos) já beneficiou (e muito) com a pirataria. Aliás, se ela não existisse, a informática não tinha conhecido, sequer, um décimo do seu desenvolvimento.

Aquilo que eu gostaria de rebater aqui é um dos argumentos mais comummente usados para justificar a pirataria: os preços.

Ora, quando me lembro do que eram as minhas despesas com música quando não tinha acesso à internet (e esta não estava vulgarizada), vejo que eu era um cliente regular dos vendedores de discos, estivessem eles na Feira da Ladra ou em lojas, fossem os discos novos ou usados.

Nessa altura (meados dos anos 90), um CD novo custava-me 2800$00 (€ 14) na Feira da Ladra e 3600$00 (€ 18) numa loja. Em segunda mão, a coisa andava pelos 1000$00 (€ 5). Era raríssimo comprar um disco novo numa loja. Defendia-me procurando os sítios mais baratos mas fazia despesa. E, tal como eu, muitos outros iam às compras ao fim-de-semana, para voltarem para casa carregados.

Desde que a internet passou a fornecer-me música de borla, praticamente nunca mais comprei um disco. E porquê? Porque a ocasião faz o ladrão. O problema com a pirataria não são os preços mas sim a oportunidade! Quem consegue obter algo graciosamente, não quer pagar. É tão simples quanto isto. Dinheiro gastamos nós - e muito -, nas coisas mais insignificantes porque ninguém no-las dá. Mas os conteúdos na internet são-nos dados, logo...

A indústria do audiovisual, para além de apostar na repressão, insiste igualmente na "educação", obrigando-nos a contragosto a ter de aturar aqueles vídeos no início dos DVD's, cuja moral é "se você não rouba um disco, porque razão faz um download"? A resposta é simples, ainda que a maior parte das pessoas não se aperceba dela: porque copiar não é o mesmo que furtar. Quem copia não sente que está a retirar algo a outrém (quando muito, impede-o de obter algo). Esse é o travão moral e ético que nos impede de sermos ladrões: a noção de estar a roubar, de estar a privar um terceiro de um bem. Isso é roubo! Copiar, não o é. Quando muito, é um aproveitamento...

Como ficar rico

Acabei de ver, no site do MilenniumBCP que, se pegar em €500 (quinhentos euros) e os colocar num depósito à ordem durante quinze dias, ganho treze cêntimos de juro! Depois, ainda há o imposto e mais não sei o quê, o que me deixa mais ou menos dez cêntimos de nova fortuna.

Ora, pergunto eu: vale a pena andar a por publicidade neste blog (onde poucos carregam), jogar em casinos (onde só se perde), etc., quando o bom do MillenniumBCP põe à nossa disposição meios tão simples e fáceis de meter dinheiro aos bolsos? Não, não vale.

A única coisa que me lixa é não ter um milhão de euros para aplicar com os mirabulantes 0,5% anuais (taxa bruta)...

Playboy Portugal - nº 4

Pleno verão... o povo quer praia, farra, descanso, mais farra e, se possível, um parzinho. As hormonas não têm descanso: como se não bastasse a providencial beleza das nossas pequenas, parece que, finalmente, as estrangeiras bonitas descobriram a nossa cidade capital. É vê-las por aí, saltitantes, frescas e de corpinho à mostra.

Que tem isto a ver com a Playboy? Tem tudo, vê-se logo. O mais recente número da icónica (atenção às piadas porcas) revista mostra-nos Débora Montenegro e uma tal Sunsette Verde (só pode ser nome artístico) e, no essencial, não acrescenta nada aos números anteriores. Ao fim de quatro edições, as dúvidas estão desfeitas e nota-se que existe uma "linha editorial" no que toca ao tipo de fotografia de nu a ser apresentado. Não há ousadia, as meninas rapam os pelos públicos e o nu integral, em vez de uma "obrigação", parece ser mais um capricho ocasional das "modelos". Fraude!, grito eu e muitos outros.

Débora Montenegro não se despe totalmente a não ser numa foto "mascarada" pelos tons de luz e as fotos acabam por ficar naquela da provocação ("querias ver, não querias? - ná!"); quanto à "Sunsette", é dona de formas bonitas mas é feia. Ora, como eu não sou camionista e não alinho nos partidários do CCM, gosto de mulheres bonitas e esta, concerteza que não é.


O ensaio da Verde moça também é péssimo em termos de gosto. As fotos parecem saídas de uma revista de baixo nível. Não porque sejam atrevidas (há uma, enfim) mas porque a cara da pequena aliada aos tons e ao arranjo parece coisa de baixo orçamento e pouco talento.

A Playboy PT é uma treta! Na sua não-importância, ainda assim, acaba por ser um símbolo parolo da nossa mentalidade ainda mais parola e é aqui que entram as estrangeiras saltitantes. Pergunto eu, com tantas que por aí andam à noite parecendo que a roupa lhes é um fardo, não seria de começarem a contratá-las para a revista? Fariam, certamente, melhor figura do que estas "tugas" complexadas!

Catinga dixit! (é Latim...)

ETA: 50 anos

A ETA, organização a que uns chamam terrorista e outros separatista, faz hoje 50 anos. Meio-século para uma organização de luta armada é coisa digna de nos fazer pensar. Pensar nas vítimas, nas razões, nos meios, na persistência, na abnegação...

Cinquenta anos de contínua renovação de um animal que o Estado Espanhol não consegue matar porque aquele se alimenta das razões de um povo que pede algo de tão simples e sempre negado quanto a autodeterminação, direito reconhecido universalmente aos povos a menos que estejam inseridos num "país desenvolvido".

O aniversário da "País Basco e Liberdade" (Euskadi ta askatasuna) é, também, o aniversário do símbolo máximo do irredentismo nacionalista na Europa ocidental. É uma boa ocasião para que os espíritos que não estejam toldados por dogmas políticos e intoxicados pela pressão mediática (sob controlo ou influência do governo espanhol) possam pensar como raio é que é possível a uma organização sobreviver na clandestinidade durante tanto tempo, sendo periodicamente sangrada dos seus elementos mais importantes para renascer rejuvenescida.

A resposta à pergunta anterior é fácil mas obriga a tomar um partido por não ser possível evitar aceitar que se a ETA (e outras estruturas a ela associadas) anda existe é porque uma larga fatia da população Basca a apoia directa ou indirectamente. E fá-lo não por capricho ou sob ameaça mas sim por se rever no núcleo ideológico da organização: a independência do País Basco. Ora, se numa nação tão pequena quanto a basca, uma percentagem razoável da população se dispõe a sair à rua em apoio de "terroristas", se vota nas organizações políticas a eles associadas, isso quer dizer que uma percentagem muito maior da mesma população se revê no projecto abertamente independentista mas que, por força da natural rejeição da violência armada, transfere os seus votos para o moderado PNV.

continua mais tarde

Sei o que não quero!

Um volte-face é coisa que pode acontecer a qualquer momento. A mim, aconteceu-me hoje de manhã um. Decidi em quem não vou votar. Eu, que até tinha simpatia pelo demónio de serviço (o Sócrates), eu que até me arrepiava com aquela ideia da Manuela Ferreira Leite de entregar a educação aos privados, passei a estar absolutamente decidido a não votar PS e tenho um bichinho atrás da orelha a dizer-me "Vota útil, vota PSD".

Aguentei muita coisa que se disse e fez por causa do Governo, defendi-o quando achei que a maledicência era demais, levantei os braços para aplaudir o Magalhães mas... há coisas que são demais. Quando a TSF anuncia que, na apresentação do programa de governo do PS, lá estão matérias como o comboio de alta velocidade (esse elefante branco, defendido pelos maiores interesseiros da praça), o casamento homossexual (ver texto antigo) e a regionalização, então, eu não quero saber de mais nada porque, o meu voto não levam!

A minha grande dúvida, agora, é saber se voto nulo, em branco ou num qualquer partidozeco (como fiz nas Europeias, com o MMS). A opção PSD é pílula que me custa a engolir e só o Pacheco Pereira seria capaz de me convencer a tal.

Eu quero é ir viver para uma ilha deserta!

Tenham medo, muito medo...

Tenham medo, muito medo... era o mote de uma qualquer série de TV, daquelas à antiga, com maus actores e a preto e branco, como que para acentuar a maniqueísta luta entre o bem e o mal.

Medo, muito medo é o que a comunicação social tenta criar nas populações de todo o mundo, seja com os acidentes de avião, seja com as gripes das aves e dos porcos, ou a crise económica, ou a carne de vaca, ou qualquer outra coisa.

Dizia Michael Moore, no seu "Bowling for columbine", que os americanos eram um povo vivendo constantemente sob o medo de qualquer coisa e que isso seria uma das causas das elevadas taxas de criminalidade nos EUA. Cada vez mais lhe dou razão, não tanto no que diz respeito à realidade estado-unidense (para a qual me estou lixando) mas porque também eu sinto a pressão (e os efeitos dela) à qual nós, portugueses, estamos sujeitos.

A actual campanha é a do vírus H1N1 (ex-gripe mexicana, ex-gripe suína). No Reino Unido, a loucura já chegou ao ponto de a comunicação social veicular a ideia de que as mulheres não deviam engravidar nos tempos mais próximos, que as pessoas deviam viajar apenas o estritamente necessário e até que - pasme-se -, deviam ficar mais tempo em casa! As autoridades britânicas já fizeram notar que isso não faz qualquer sentido mas o que importa aqui é entender a teia de medo que se tenta lançar sobre as pessoas.

"Não saiam de casa que podem ficar doentes!" - só não digo que os limites foram ultrapassados porque o cancro da comunicação social é uma doença que consegue sempre empurrar os seus limites mais além, rumo ao abismo da estupidez na qual se tenta que a população caia.

Pessoas assustadas são mais facilmente manipuláveis. Pessoas manipuláveis são menos contestatárias. Pessoas menos contestatárias dão melhores trabalhadores e consumidores.

Cada vez estamos mais perto das sociedades caóticas e brutais ao estilo Blade Runner. Multiculturalismo forçado, manipulação mediática, consumismo desenfreado, Estado securitário, cultura da violência, etc. Está tudo aí e só não vê quem não quer.