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O 1º de Dezembro

Para os mais distraídos, amanhã, Sábado, dia 1 de Dezembro é feriado nacional. Não será coisa que se note muito tendo em conta a infeliz coincidência de calhar a um fim-de-semana a comemoração deste dia de boa memória. Também não se pode contar com a comunicação social ou mesmo com os poderes instituídos para avivar as consciências ou educar os ignorantes. Convenhamos, ninguém quer saber para nada do 1º de Dezembro. Mas é pena...

Em 1 de Dezembro do ano da graça de 1640 houve uma revolta em Lisboa com um objectivo muito claro: terminar com a sujeição da coroa portuguesa à dinastia filipina com sede em Madrid. Para isso, seria preciso substituir Filipe III (IV de Espanha) pelo Duque de Bragança, João de seu nome que, curiosamente, era casado com uma espanhola.
Diz-se que o futuro D. João IV não estava muito inclinado a deixar o seu palácio de Vila Viçosa (visita a não perder) e a aventurar-se na "conquista" do trono português. Diz-se também que foi a sua mulher que o convenceu alegando que mais valia ser rainha por um dia do que duquesa toda a vida. Onde acaba a lenda e começa a realidade?

A data da Restauração da Independência - que deu nome à Praça dos Restauradores e à Rua 1º de Dezembro (ambas em Lisboa) -, foi alvo, ao longo dos tempos, de apropriação por parte dos sectores mais conservadores e nacionalistas da nossa sociedade, tendo com isso sido inculcadas no imaginário popular diversas ideias que não correspondem à realidade mas que foram sendo passadas como forma de fortalecer um patriotismo sempre débil no nosso povo e ainda mais nas classes dirigentes. Salazar e o Estado Novo souberam tirar bom partido da data, a 1ª República também e ainda me lembro de uma célebre manifestação quando eu era criança, organizada pela jornalista Vera Lagoa, então directora do semanário "O Diabo", periódico semi-oficial da direita nacional. Estabelecida a democracia, a data começou a perder fulgor resumindo-se hoje ao feriado, e a uma ou duas sessões solenes frequentadas por velhotes serôdios. Para o regime actual, empenhadíssimo na construção europeia e na integração comercial com Espanha, a comemoração do 1º de Dezembro é um fardo que a história nos deixou, um sinal feio que tentamos esconder puxando a manga da camisa.

Mas, independentemente das cores que os tempos actuais queiram dar à História, ela existe e deve ser conhecida. A Restauração é um período fascinante do nosso passado colectivo, algo que vai muito mais além do que o dia que se comemora. A guerra com Espanha, intermitente e de baixa intensidade (ao contrário do que se costuma contar) , durou 28 anos e traduziu-se numa série de vitórias portuguesas possíveis pelo brio dos nossos militares, pela força que tem quem luta por uma causa justa, pela conjugação de interesses políticos internacionais, pela decadência do Império Espanhol e das suas finanças (com a involuntária colaboração dos traidores portugueses a viverem em Espanha, autênticas sanguessugas do erário público castelhano), e por um constante e muitas vezes humilhante jogo de cintura que o nosso país teve de utilizar.

Espanha sempre pensou que a qualquer momento poderia reconduzir ao rebanho a ovelha tresmalhada e foi-se ocupando de outras rezes rebeldes (a Catalunha, os Países Baixos), afundando-se em guerras intermináveis e custosas em vidas e dinheiro, sempre mais enfraquecida pelo conflito com Portugal, Inglaterra, França, Holanda...
A Portugal coube aproveitar as rivalidades, ir recuperando e cimentando posições, umas vezes pela força das armas, outras pela via diplomática, outras aindas pagando para recuperar o que tinha sido seu (um pouco conhecido negócio com os Holandeses, a propósito do Brasil) e ir esperando os momentos em que Filipe IV de Espanha e a sua alma danada, Olivares, se viravam (sem êxito) contra o nosso território.

A versão "oficial" dos acontecimentos diz-nos que houve 40 conjurados, todos grandes patriotas, que se reuniam perto do Rossio, para preparar o plano de ataque ao poder. Não eram 40, nem eram grandes patriotas. Eram herdeiros da mesma nobreza que em 1580 se tinha vendido a Filipe II de Espanha, originando a sua célebre frase "Portugal é meu por direito: herdei-o, conquistei-o, comprei-o". O que se passou foi que, ao juntarem-se as duas coroas, os nobres portugueses passaram a ter obrigações para com a Coroa Espanhola (esqueçamos o pormenor formal da separação dos negócios dos reinos) e os conflitos que esta mantinha com todas as nações. Ao fim de 60 anos, a nobreza estava cansada e não se sentia recompensada. Foi, portanto, o interesse que fez com que os poderosos se mexessem e não a glória do Reino.

Quanto ao Duque de Bragança, sempre se tinha sentido mais inclinado para a música do que para a política e era conhecida e famosa a sua colecção de livros e instrumentos musicais que se perdeu aquando do terramoto de 1755. Também era compositor e há quem defenda a tese de que o tema Adeste Fideles (que é uma das peças musicais fundamentais em qualquer celebração natalícia à face da terra) é da sua autoria. Você sabia disso? Provavelmente, não.

E o povo? Que pensava o povo de tudo isto? É costume dizer-se que o povo queria um soberano português, que odiava o "traidor" Miguel de Vasconcelos (o defenestrado) que respondia perante a Duquesa de Mântua, delegada da coroa. Mas... seria isto verdade?
De uma forma geral, sim. O povo era mais "patriota" do que aqueles que detinham algum poder (os nobres, os financeiros judeus, os burgueses) mas mesmo aqui a História reserva-nos algumas surpresas como seja saber que a população de São Paulo (Brasil) ofereceu vassalagem à coroa espanhola para garantir a continuação do comércio com a América espanhola...


Ler História é ser constantemente agredido com a verdade. No caso, tive oportunidade de, recentemente, ler um excelente livro escrito pelo historiador espanhol Rafael Valladares, obra justa, honesta, que analisa com frieza o enquadramento histórico da Restauração, não cedendo a patriotismos de nenhum lado da fronteira e possibilitando-nos o contacto com uma realidade muito diferente da versão gloriosa que nos foi ensinada quando ainda se ensinava o que era o 1º de Dezembro.

Em 1640, pos-se fim à catástrofe que foram os 60 anos de dominação estrangeira. Não nos devemos esquecer que a perda da independência nacional só foi possível graças às loucuras de D. Sebastião, à posterior incapacidade para aguentar o barco por parte de D. Henrique, ao colaboracionismo dos poderosos e ao baixar dos braços por parte de quem se opunha à situação.
Portugal, enquanto país, pouco ou nada ganhou com a união das coroas. É certo que no Brasil, os bandeirantes aproveitaram a situação para empurrar para ocidente as fronteiras da colónia, fazendo tábua rasa de Tordesilhas mas, no resto do mundo, o Império Português foi estraçalhado por Ingleses e Holandeses. E já que se fala de desastres, convém lembrar que na Invencível Armada, essa louca aventura de Filipe I, pereceram milhares de compatriotas nossos e afundaram-se muitos dos nossos melhores navios. Não tinhamos nada contra a Inglaterra mas éramos obrigados a alinhar na campanha e pagámos bem caro por isso.

A História é uma lição e, como se costuma dizer, é uma "velha senhora que se repete sem cessar". O período pós-Alcácer-Quibir, a dominação filipina, a Restauração, são enormes avisos do que pode custar a um povo o não saber ser senhor de si mesmo e traçar o seu próprio caminho. Ninguém nos guia se quisermos ser cegos.

Alguém está - ainda -, interessado em perceber isto?
[ Pragas ]

Há pragas que são passageiras, há outras que vêm para ficar. Entre as primeiras contam-se coisas tão nocivas quanto efémeras como sejam as Spice Girls ou um número da Caras; entre as segundas, ocorre-me, assim de repente, as empresas de segurança.
Já não me lembro de quando foi mas recordo-me de quando os lugares de porteiro e recepcionista eram ocupados por pessoas de meia-idade que não usavam uniformes de mau-gosto. Também me lembro de ir aos incipientes centros comerciais da altura (ah pois, já os havia!) e não ver vigilantes. Não eram necessários ou, como diriam os iluminados da Economia, havia um nicho de mercado à espera de ser preenchido? Provavelmente, os chatarrões de fato teriam razão, a julgar pela explosão de empresas de segurança que, em todo o lado e para todo o lado, espalharam hordas de homens - e mulheres... (fica a concessão ao igualitarismo de Esquerda) -, para nos atenderem ao balcão, prestarem informações, tomarem conta dos nossos valores, entregar senhas nos serviços públicos ou, como me parece que é o caso em demasiadas ocasiões, se passearem simplesmente com os seus intercomunicadores.
Recentemente, tive três oportunidades para constatar que a inutilidade das empresas de segurança é um facto em muitas situações e não apenas embirrância minha...

Situação nº1 - Alvaláxia, Lisboa

Na zona de comidas, um grupo de três casais na casa dos vinte, aparentando pertencer à classe média, parecia festejar um aniversário na zona comum de restauração. Passemos à frente do pormenor de mau-gosto que é celebrar os anos de alguém numas mesas de centro comercial e concentremo-nos no "depois da festa". Este ocorreu quando eu me preparava para morder um suculento hamburguer (numa das minhas raras incursões ao sofisticado universo gastronómico da comida de plástico) e se começou a ouvir vozes exaltadas de mulheres. Tento perceber o que se passa, dou descanso aos dentes e afino os ouvidos para tentar escutar melhor. Não era preciso: em poucos segundos passa por mim uma rapariga com sangue a escorrer pela cara, seguida de mais duas ou três que a tentam acalmar. Pelo caminho por entre as mesas, em direcção à casa-de-banho, a revoltada moça vai soltando ameaças. Aparentemente, alguma coisa tinha corrido mal no salão de jogos... Passam longos minutos. A jovem volta a cruzar a zona de restauração, voltam-se a ouvir gritos e vão aparecendo seguranças. Mais gritos, mais discussão e mais alguns seguranças. E assim se foi mantendo a coisa durante, pelo menos meia-hora. Acabo de comer, vou dar uma volta pelo centro e sempre ouvindo gritos e discussão. E o molho de seguranças, lá. Sento-me a ler e a fazer tempo para ir ao cinema e a discussão continua. Acabo a leitura, vou para o cinema e... a discussão continua... (adivinharam: os seguranças lá estavam). Aqui, já se tinha passado mais de uma hora desde o começo das "hostilidades"!
Desta vez, a PSP já estava no local. Ora, como sabem, a PSP tem uma reputação a manter e, por tal, apresentou-se, falou e... não resolveu nada.
Bom, sentei-me na sala, vi o filme e, ao sair da sala, preocupado por ter perdido 90 minutos a ver uma péssima fita, sou brindado pelo doce som de restos de discussão. Aqui, já se tinham passado duas horas e meia! Duas horas e meia durante as quais os seguranças do Alvaláxia deixaram que os utilizadores do espaço fossem incomodados por gente aos gritos, a soltar imprecações e ameaças, a passear-se com sangue na cara e, como parece óbvio, a agredir-se.
E pergunta o tolinho: para que raio é que servem os seguranças?!


Situação nº 2 - CC do Campo Pequeno, Lisboa

Ah, o prestígio da renovação dos espaços, a centralidade, a sofisticação... Passemos à frente do facto de, do ponto de vista estritamente comercial, o CC do Campo Pequeno ser absolutamente desinteressante ("trapos" são coisa que me interessa pouco) e concentremo-nos no que interessa: o CCQP tem uma zona de restauração! (não estavam à espera desta, pois não?)
E como o que interessa é matar a fome, aquele é um sítio como qualquer outro para o fazer. Para além disso, confesso, o prestígio é uma coisa que sabe bem e não me parece que a tasca da esquina o tenha. Ainda assim, hei-de falar com o dono para saber se ele o vai adquirir nos próximos tempos. Isso e Sumol porque eu não bebo Fanta.
Bom, estava eu e dois colegas a comer a nossa comidinha de franchising quando, por entre as notas de piano ao vivo, somos contemplados com o assédio mendicante de duas mulheres romenas. Ah pois, nada como ouvir o "My way" com uma letra do tipo "senhor, senhor, para o menino, senhor...". As mulheres, vestindo-se como ciganas, uma com o habitual bebé ao colo (já repararam como os bebés romenos são uns santos?, sempre a dormir, não dão trabalho nenhum) e a outra com um rebento já autónomo que apresentava a vantagem de poder ir de mesa em mesa pedindo qualquer coisa. Ora, como se a situação não fosse já irritante, ainda por cima, estas criaturas dedicavam-se a importunar os clientes do centro comercial à vista de diversos seguranças a quem elas passavam literalmente debaixo da cara (eram pequenas, as mulheres), sem que eles fizessem o que quer que fosse.
E pergunta o tolinho: para que raio é que servem os seguranças?!


Situação nº 3 - CC do Campo Pequeno, Lisboa

Exactamente, outra vez o CCQP. Desta vez eram só duas mulheres, tentando disfarçar a sua origem com um aspectozinho melhor mas entregues ao mesmo trabalho: andar a pedir esmola a quem almoçava. E, para variar, os seguranças nada faziam. Como isto já me estava a causar azia, dirigi-me à recepção do centro para apresentar reclamação. Santo milagre! Ainda a reclamação não estava assinada (livro de reclamações, nunca esquecer a sua existência!) e já as mulheres eram postas na rua. Reclamar compensa SEMPRE!
Mas o tolinho pergunta: e se eu não tivesse reclamado?

Promoção?!

Qualquer coisa não bate bem quando um restaurante apresenta um miserável menu como o da fotografia, chama à coisa "bitoque", cobra € 6,20 e ainda se orgulha de estar a fazer uma grande "promoção"...

"Kurz & Gut", no Campo Pequeno. Só para quem quiser cair nela...


P.S. - e que tal as autoridades começarem a pensar em proteger a denominação "bitoque", para evitar que esse prato tão característico (pelo menos, de Lisboa) seja abastardado pelos chicos-espertos da restauração?

O Porto está vivo!

Cavalgando a recente novidade dos casamentos homossexuais, a Câmara Municipal do Porto decidiu apelar ao espírito inovador, tolerante e aberto que marca a capital do concelho do Porto e instituir os "Noivos de São João".

Esta iniciativa enquadra-se numa sã concorrência com a capital do país e visa estabelecer pontes de solidariedade que permitam aos casais "gay" o acesso à felicidade em moldes iguais aos dos pares mais conservadores patrocinados pelo santo alfacinha de nome António e conhecido popularmente na zona de Alfama por "Tó Santo".

Indagado o presidente da edilidade nortenha sobre se isto seria uma resposta à partida dos aviões da Red Bull para Lisboa, Rui Rio escusou-se a alimentar polémicas declarando apenas que "Mais uma vez, Lisboa está atrás e é assim que gostamos".

Da parte das forças vivas da cidade vizinha de Gaia, as reacções não poderiam ser mais positivas tendo a Associação Comercial do Porto desmarcado o boicote por si promovido à Red Bull, EDP, Galp, Santa Casa da Misericórdia, Associação de Cegos de Portugal e Federação Nacional de Filatelia com base na necessidade de desanuviamento das relações entre as duas cidades. "Nunca estivemos contra Lisboa, apenas achámos nojenta a atitude do monhé que manda naquela cidade marroquina", afirmou o presidente da associação que avançou até com um "slogan" para a iniciativa: "Beba um Porto e case com um roto".

Também a população portuense está entusiasmada com os "Noivos de São João" e sente que esta é a grande oportunidade de a cidade dar a volta e afirmar-se. "É importante que nos assumamos como cidade de ponta" proclamou orgulhosamente Roberto Baibém, um empresário de restauração na zona da Ribeira. "O Porto dá a cara e tudo mais para mostrar ao mundo o que realmente é", continuou o mesmo Baibém enquanto atendia uns turistas estrangeiros vindos do sul. "O país julga que nos pode guardar num armário mas nós vamos saltar cá para fora!", concluiu o empresário.

A hipótese de Lisboa promover um acontecimento semelhante por forma a roubar o protagonismo internacional que se espera a Invicta venha a ter é descartada por António Costa (o presidente da CML) que, aliás, manifestou o desejo de ajudar a CMP na organização do evento já que é conhecida a experiência do santo lisboeta em assuntos de bilhas partidas.

Mas, nem tudo são mares de rosas no Porto. A ILGA e a Opus Gay já vieram a público recusar a atitude condescendente da CMP exigindo que os casamentos joaninos incluam igualmente casais heterossexuais "Nem que os tenham de ir buscar a Guimarães!". Para as associações de defesa dos direitos dos homossexuais, é inaceitável a "guetização" dos matrimónios e a sua manipulação para fins políticos e turísticos. Por outro lado, o Bloco de Esquerda condenou vivamente a figura de São João que considerou "um lobo com pele de cordeiro".

Apesar destas reacções dos sectores homoactivistas, Rui Rio está esperançado em que tudo corra bem e adiantou alguns pormenores sobre as festividades: Desfile pela Av. dos Aliados, casamentos na Sé celebrados pelo Papa da cidade e, finalmente, copo de água no Palácio de Cristal que, contrariando o seu nome, será tapado para formar o maior quarto escuro de sempre. "Teremos cá um funcionário do Guiness para oficializar o record" sublinhou o Presidente da Câmara.

A segurança do evento estará a cargo de "uns rapazes de Gaia".

É neste espírito empreendedor que se têm vivido os últimos dias na capital do trabalho, com as autoridades preparando dossiês de promoção da cidade e realizando um sem número de contactos por forma a maximizar a "experiência portuense" de todos os que se desloquem à urbe para casar. "Já temos um símbolo para os Noivos de São João" - declarou Mirinda Catraia, a responsável pelo departamento de turismo da câmara - "Estávamos indecisos entre o edifício da Câmara e a Torre dos Clérigos mas optámos pelo primeiro porque está mais acompanhado dos lados e é um óptimo símbolo do que esta cidade é".

Relativamente à data em que os casamentos se irão realizar, a única certeza até ao momento é de que ocorrerão posteriormente à tradicional festa de São João já que nessa pretende-se que toda a gente possa martelar sem constrangimentos.

A cidade dos aviõezinhos

A Invicta, volta e meia, fica agitada. Não estou a falar das cíclicas festas a comemorar as vitórias do FCP, nem do famoso São João. Há, de vez em quando, "matérias" que geram polémicas com formatos muito próprios, muito viscerais.

Nós aqui, da cidade capital, olhamos para as questiúnculas com origem na cidade das tripas e, geralmente, rimo-nos das personagens envolvidas (há umas certas semelhanças entre o Porto e a aldeia de irredutíveis gauleses, mormente quando desatam todos à pancada). Ou é um ex-major aos berros, ou é um ex-médico a chorar pedindo para o deixarem ir para casa, ou é um novo presidente da câmara a tentar salvar a pele de uma claque desportiva ainda menos recomendável do que as outras, ou é isto ou aquilo mas, naquela terra - e arredores -, parece que andam sempre todos descontentes uns com os outros e, depois, com os de cá de baixo. Entenda-se por "os de cá de baixo", os que cá estão e os que para cá vierem.

Desta vez, a nova polémica a trazer mais vivacidade àquela cadência choradinha com que os nossos irmãos portuenses falam é a dos aviõezinhos (ou "abionzinhos", que nós não alinhamos em discriminações de pronúncia). A malta do Porto está indignadíssima com a infernal capital por esta lhe ir "tirar" a organização da corrida da Red Bull. Como sempre, nada como ler os comentários às notícias na internet para nos apercebermos dos limites de estupidez a que o ser humano consegue chegar: pedem-se cortes de estrada, revoltas e revoluções, independência, restauração do Condado Portucalense (depois, começam as brigas por causa da definição de fronteiras), união com a Galiza, integração em Espanha, o diabo a quatro... E, a gente, aqui, ri-se...

Parece que a Red Bull tinha um contrato com a CMP e o contrato acabou. A CML adiantou-se e tentou trazer o evento para Lisboa. O Governo, estupidamente, meteu-se ao barulho. Ou seja, o município lisboeta fez o que lhe competia na defesa dos interesses de Lisboa, o do Porto, pelos vistos, não o fez e o Governo meteu-se onde não devia, o que, agora, dá azo a que aquela gente lá de cima ande a imaginar, como de costume, conspirações maquiavélicas para tirar o brilho à Invicta.

Mas isto seria demasiadamente simples. O problema do Porto não reside na linha do Tejo mas sim em si mesmo. O Porto é uma cidade com um ego exacerbado e, como acontece quase sempre a personagens com semelhante defeito, perde demasiado tempo a falar de si mesmo e muito pouco a fazer pela vida. Esta situação dos aviões é o melhor dos exemplos: a reacção perante a deslocalização da prova não foi de confronto saudável, nem de dinamismo institucional. A concorrência não agrada ao Porto. Ele quer a prova porque é sua e ponto final. Chegou lá primeiro e o resto que se lixe. É como aqueles homens que acham que por terem sido o primeiro namorado de uma rapariga, ela tem de lhes ser fiel para toda a vida. Só que a Red Bull quer é dinheiro e está-se pouco importando para o Porto ou Lisboa ou a Cascalheira. No Porto não percebem isso e reagem como crianças mimadas a quem tivessem tirado um brinquedo.

A associação de comerciantes do Porto vai mais longe na birra por causa dos aviões, incitando a um boicote aos patrocinadores do evento. Que nem mais um pingo de Red Bull escoe pelas gargantas da juventude portuense! Que nem mais um SMS seja enviado pela TMN! Que nem mais um carro role com gasosa da Galp! Fim aos patifes que roubam a cidade! Morte aos "bámpiiros" da capital que comem tudo.

Só fica por explicar é porque raio é que as tão faladas "forças vivas" do Norte (essa mítica região onde as cidades são todas rivais umas das outras), como de costume, são incapazes de assegurar a prevalência dos seus interesses sobre os de Lisboa. Fica por explicar como é que, no meio de tanto super-empresário, associação comercial e industrial, milionário e família rica de longos pergaminhos, ninguém consegue desencantar formas de dinamizar o Porto, seja com provas desportivas, eventos culturais de massas, estabelecimento de empresas e artistas ou qualquer outra coisa. Ninguém consegue explicar como é que uma vilazinha ao lado de Lisboa consegue ser competitiva com esta (falo de Oeiras) e a (ainda) segunda cidade do país só consegue olhar para a placa de saída...

Realmente, é fácil, é muito fácil pedir boicotes porque estes exigem aquilo em que a "cidade do trabalho" é melhor: não fazer uma porra! Depois, diz-se que é tudo porque os outros são maus como as cobras. Será que até um concerto musical tem de ser organizado no Porto por empresas de Lisboa? Os U2 vão tocar duas vezes em Coimbra, O George Michael foi lá, os Dire Straits tocaram no Algarve mas, no Porto, ninguém pára? Como explicar isto? É culpa do Governo?

A questão dos aviõezinhos prova o quão atual se mantém a famosa cena do Herman José e do seu Engº reunido numa cave secreta com mais três palermas que passam o tempo a irritarem-se uns com os outros enquanto planeiam ofuscar o brilho da Expo 98 com o seu Tripanário (que nunca mais está construído). O humor pode ser uma grande lição... Haja vontade de a aprender!

O paraíso de Barcarena

No concelho de Oeiras há muita coisa boa. É uma ironia, é certo, mas o "companheiro" Isaltino, comummente tido como corrupto, sabe gerir a Câmara Municipal do concelho vizinho da capital. Há arranjos paisagísticos bonitos, há parques empresariais "finórios", há jardins e equipamentos sociais...
Enfim, diz-me quem nunca votou nele que o homem sabe o que faz.

É claro que nenhum presidente faz tudo e é preciso ter boas equipas à volta mas estas são geralmente fruto da arte de saber escolher com quem se trabalha e, fazendo, portanto, fé em quem é munícipe do Sr. Morais, o homem sabe rodear-se de gente competente.

Vem isto a propósito de uma ida minha, no Sábado passado, à Fábrica da Pólvora, que fica em Barcarena.
Vai-se pelo IC19, sai-se na saída para Tercena, dá-se umas voltinhas e eis-nos frente a um conjunto de edifícios que vai desde o Séc. XVII até ao Séc. XX. O espaço é grande e compreende vários núcleos mais ou menos dispersos pelos dois lados da ribeira da barcarena, uns ainda do domínio público, outros perdidos em ruínas e, finalmente, outros em posse privada (uma faculdade).

A Fábrica da Pólvora é, por assim dizer, uma espécie de Éden encravado numa paisagem cada vez mais urbanizada, sentindo-se perfeitamente a pressão urbanística a cercar o belíssimo espaço. Nalguns lados, já não é possível deixar de ver os prédios a agigantarem-se por cima das copas das árvores...
Mas a Fábrica, resiste. E com o trabalho de restauração e manutenção que a CMO empreendeu, foi possível proporcionar a quem visite o espaço um brilhante equilíbrio entre património arquitectónico, equipamentos sociais e zonas verdes.

Quase todos os edifícios estão pintados de amarelo, uma cor que contrasta fortemente com a vegetação feita, em boa parte, de eucaliptos, e que dá ao espaço um tom alegre, quase de verão. Há um grande anfiteatro onde se realizam espectáculos, há uma enorme praça onde qualquer criança gostaria de disparar a correr, há bancos a chamarem-nos para um descanso à sombra de uma árvore, há bom-gosto por todo o lado. E há a piada de ver os viveiros da CMO onde centenas ou milhares de árvores crescem os primeiro centímetros em vasos cuidadosamente alinhados como verdes exércitos em parada.

Trabalhei dois anos na zona de São Marcos - Cacém e, tirando uma fugaz visita, nunca tinha ido visitar a Fábrica da Pólvora porque me fazia impressão ir àquela zona que detestava e que tresandava à tristeza do trabalho. Finalmente, a pretexto de um bom bife com pimenta (única boa recordação de São Marcos), resolvi passar por Barcarena. E hei-de ir lá mais vezes, quer seja para me encostar a uma árvore nos relvados, quer seja para tirar fotografias ao deslumbrante amarelo com que os edifícios estão pintados, quer seja para beber uma cerveja e apreciar algum espectáculo.

Fábrica da Pólvora: um bom exemplo de que o património que os nossos antepassados nos legaram está aí para o bem de todos nós.