Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

... e os hábitos também. As novas tecnologias vieram alterar a nossa relação com os outros e, por vezes, alterar radicalmente comportamentos que se pensava imutáveis por serem o reflexo de sensações, essas sim, que nunca mudam. Vem isto a propósito do nascimento do filho de um amigo meu, terceira pessoa mais ou menos próxima a quem isso acontece. Sempre imaginei que, quando alguém meu conhecido fosse pai, espalhasse a notícia de modo esfusiante através de telefonemas em catadupa, dando a notí­cia a todos os que lhe eram chegados. Mas a tradição já não é o que era: agora, comunica-se a notí­cia do primeiro filho com um simples (e atrasado) SMS, escrito em forma quase telegráfica, ao jeito de notícia de rodapé. Lá se foi o clássico "Já nasceu! É um rapaz!". Após este passo, seguia-se a ida à maternidade onde os babosos pais esperavam as visitas desejosas de conhecer a criança: agora, manda-se por correio electrónico uma foto do rebento, satisfazendo a curiosidade de todos e poupando-lhes assim o cansaço da deslocação. São os novos tempos e, acima de tudo, as pessoas desta época. É certo que poder-se-ia argumentar que há casos e casos mas, por acaso ou não, já é o terceiro...
Produtividade

Mais um dia de trabalho. Horas passadas a teclar ao tom da ansiedade que se adivinha nos clientes. Toda a gente quer tudo para ontem. Se não puder ser para ontem, então, pode ser para hoje. Tudo é urgente.

Leio as notícias na net e fico a saber que o Governo prepara-se para aprovar um pacote de medidas para aumentar a produtividade. Rio-me. Não consigo deixar de soltar um riso sarcástico perante o mundo da Lua onde, por vezes, as pessoas que detêm o poder parecem viver.
Ler que as melhorias na produtividade estão dependentes da diminuição da burocracia e outros factores igualmente genéricos e subjectivos e, depois, ter de trabalhar com um Pentium II a 300Mhz quando a norma do mercado já ultrapassa os 2Ghz! Ter de perder horas por semana à espera que o computador se digne a deixar-me trabalhar. Só não é verdadeiramente cómico porque é triste.
Quantas empresas, quantos patrões se preocupam com o investimento na qualidade do pessoal e no conforto que este tem no trabalho? Enquanto vivermos num país onde os empresários não vêem mais do que um palmo à frente do nariz, que interessam medidas de fundo (tão ao fundo que nem se lhes percebe a utilidade)?
Se as empresas, ainda que pequenas, não gastarem na formação profissional dos seus empregados, como é que estes podem usar as técnicas mais adequadas e mais produtivas? Se o material for obsoleto como é que se pode produzir mais e em menos tempo? Se, em plena vaga de calor, nem uma ventoinha houver numa sala e os empregados forem obrigados a trabalhar com temperaturas elevadíssimas, ocupando a cabeça mais com pensamentos de fuga do que de trabalho, como é que se há-de conseguir que o país avance?
Se, numa empresa, até os manuais técnicos têm de ser comprados pelos funcionários, como é que se lhes pode, depois, pedir que se sacrifiquem pelo cumprimento dos objectos?
E já agora, o que é que se pode chamar a este fenómeno generalizado e terceiro-mundista das horas extraordinárias não remuneradas? A estupidez dos nossos empresários é tanta que nem conseguem entender que um funcionário desmotivado e extenuado nunca conseguirá render o que for necessário.
Exploram-se as pessoas, estica-se a corda, gastam-se as vidas dos outros sem que esses tenham a coragem de dizer basta.