São 14:40 e um véu de sono parece querer cobrir-me, aqui, nesta pasmaceira onde trabalho, sub-subúrbio de Lisboa por intermédio do Cacém. Ao longe vejo o rio e o mar. Lisboa tão perto que apetece esticar o braço e agarrar a ponte. Ou então, fugir em direcção a Carcavelos, correr para a praia, atirar as coisas para a areia e mergulhar nas águas quase sempre mornas.
De um e do outro lado, chama-me qualquer coisa melhor do que a luta contra a vontade de me esticar e deixar o tempo passar...
A sesta não devia ser um luxo redescoberto por uns quaisquer americanos excêntricos, dispostos a pagar uma pequena fortuna pelo saudável prazer de descansar vinte minutos após o almoço. A sesta devia ser uma instituição, imposta pela lei e pelo hábito.
De que vale fazerem estudos demonstrando que a sesta não só é necessária ao corpo como também é um revigorante para a cabeça se, depois, as conclusões esbarram na habitual tacanhez dos espíritos? "Perder 20 minutos por dia a dormir? Só se compensarem esse tempo ao fim do dia..."
Argumenta-se com os tais estudos, com o enorme aumento da produtividade causado pelo refrescar do espírito, afinal, com o bem da empresa... É latim mal gasto...
A sesta é como a mulher do próximo: apetece mas é pecado.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
... e os hábitos também. As novas tecnologias vieram alterar a nossa relação com os outros e, por vezes, alterar radicalmente comportamentos que se pensava imutáveis por serem o reflexo de sensações, essas sim, que nunca mudam. Vem isto a propósito do nascimento do filho de um amigo meu, terceira pessoa mais ou menos próxima a quem isso acontece. Sempre imaginei que, quando alguém meu conhecido fosse pai, espalhasse a notícia de modo esfusiante através de telefonemas em catadupa, dando a notícia a todos os que lhe eram chegados. Mas a tradição já não é o que era: agora, comunica-se a notícia do primeiro filho com um simples (e atrasado) SMS, escrito em forma quase telegráfica, ao jeito de notícia de rodapé. Lá se foi o clássico "Já nasceu! É um rapaz!". Após este passo, seguia-se a ida à maternidade onde os babosos pais esperavam as visitas desejosas de conhecer a criança: agora, manda-se por correio electrónico uma foto do rebento, satisfazendo a curiosidade de todos e poupando-lhes assim o cansaço da deslocação. São os novos tempos e, acima de tudo, as pessoas desta época. É certo que poder-se-ia argumentar que há casos e casos mas, por acaso ou não, já é o terceiro...
Produtividade
Mais um dia de trabalho. Horas passadas a teclar ao tom da ansiedade que se adivinha nos clientes. Toda a gente quer tudo para ontem. Se não puder ser para ontem, então, pode ser para hoje. Tudo é urgente.
Leio as notícias na net e fico a saber que o Governo prepara-se para aprovar um pacote de medidas para aumentar a produtividade. Rio-me. Não consigo deixar de soltar um riso sarcástico perante o mundo da Lua onde, por vezes, as pessoas que detêm o poder parecem viver.
Ler que as melhorias na produtividade estão dependentes da diminuição da burocracia e outros factores igualmente genéricos e subjectivos e, depois, ter de trabalhar com um Pentium II a 300Mhz quando a norma do mercado já ultrapassa os 2Ghz! Ter de perder horas por semana à espera que o computador se digne a deixar-me trabalhar. Só não é verdadeiramente cómico porque é triste.
Quantas empresas, quantos patrões se preocupam com o investimento na qualidade do pessoal e no conforto que este tem no trabalho? Enquanto vivermos num país onde os empresários não vêem mais do que um palmo à frente do nariz, que interessam medidas de fundo (tão ao fundo que nem se lhes percebe a utilidade)?
Se as empresas, ainda que pequenas, não gastarem na formação profissional dos seus empregados, como é que estes podem usar as técnicas mais adequadas e mais produtivas? Se o material for obsoleto como é que se pode produzir mais e em menos tempo? Se, em plena vaga de calor, nem uma ventoinha houver numa sala e os empregados forem obrigados a trabalhar com temperaturas elevadíssimas, ocupando a cabeça mais com pensamentos de fuga do que de trabalho, como é que se há-de conseguir que o país avance?
Se, numa empresa, até os manuais técnicos têm de ser comprados pelos funcionários, como é que se lhes pode, depois, pedir que se sacrifiquem pelo cumprimento dos objectos?
E já agora, o que é que se pode chamar a este fenómeno generalizado e terceiro-mundista das horas extraordinárias não remuneradas? A estupidez dos nossos empresários é tanta que nem conseguem entender que um funcionário desmotivado e extenuado nunca conseguirá render o que for necessário.
Exploram-se as pessoas, estica-se a corda, gastam-se as vidas dos outros sem que esses tenham a coragem de dizer basta.
Mais um dia de trabalho. Horas passadas a teclar ao tom da ansiedade que se adivinha nos clientes. Toda a gente quer tudo para ontem. Se não puder ser para ontem, então, pode ser para hoje. Tudo é urgente.
Leio as notícias na net e fico a saber que o Governo prepara-se para aprovar um pacote de medidas para aumentar a produtividade. Rio-me. Não consigo deixar de soltar um riso sarcástico perante o mundo da Lua onde, por vezes, as pessoas que detêm o poder parecem viver.
Ler que as melhorias na produtividade estão dependentes da diminuição da burocracia e outros factores igualmente genéricos e subjectivos e, depois, ter de trabalhar com um Pentium II a 300Mhz quando a norma do mercado já ultrapassa os 2Ghz! Ter de perder horas por semana à espera que o computador se digne a deixar-me trabalhar. Só não é verdadeiramente cómico porque é triste.
Quantas empresas, quantos patrões se preocupam com o investimento na qualidade do pessoal e no conforto que este tem no trabalho? Enquanto vivermos num país onde os empresários não vêem mais do que um palmo à frente do nariz, que interessam medidas de fundo (tão ao fundo que nem se lhes percebe a utilidade)?
Se as empresas, ainda que pequenas, não gastarem na formação profissional dos seus empregados, como é que estes podem usar as técnicas mais adequadas e mais produtivas? Se o material for obsoleto como é que se pode produzir mais e em menos tempo? Se, em plena vaga de calor, nem uma ventoinha houver numa sala e os empregados forem obrigados a trabalhar com temperaturas elevadíssimas, ocupando a cabeça mais com pensamentos de fuga do que de trabalho, como é que se há-de conseguir que o país avance?
Se, numa empresa, até os manuais técnicos têm de ser comprados pelos funcionários, como é que se lhes pode, depois, pedir que se sacrifiquem pelo cumprimento dos objectos?
E já agora, o que é que se pode chamar a este fenómeno generalizado e terceiro-mundista das horas extraordinárias não remuneradas? A estupidez dos nossos empresários é tanta que nem conseguem entender que um funcionário desmotivado e extenuado nunca conseguirá render o que for necessário.
Exploram-se as pessoas, estica-se a corda, gastam-se as vidas dos outros sem que esses tenham a coragem de dizer basta.
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