Se me deixarem...

Estou a fazer uma alteração num site e preciso testar a dita

1) O meu PC começa a moer (como de costume)
2) O IE, atacado por um vírus que não se consegue remover, abre-me insistentemente janelas.
3) Dizem-me que não posso desinstalar o IE (?)
4) O IE deixa de funcionar.
5) Tento o Opera. Dá-me uma incompatibilidade
6) Mudo de PC. Este está a correr uma tarefa e o IE nem abre
7) Tento mais um PC. O site leva imenso tempo a abrir.
8) Finalmente, o site abre. Tento fazer login mas não consigo.
9) Após algum tempo, consigo entrar. O programa dá erro.
10) Sento-me à mesa para corrigir o problema. Pego na caneta para escrever e... a tinta acabou.
11) Procuro uma caneta. Não há.
12) O armário onde as canetas estão guardadas está fechado à chave.
13) Só o chefe tem a chave do armário das canetas. O chefe não está.
14) Pego num lápis. Está sem bico.
15) Procuro um afia-lápis: não encontro.
16) Vou buscar uma caneta de recurso que trago comigo. Está seca.
17) À beira de um ataque, lembro-me de processar alguém num milhão de dólares por danos causados aos meus nervos. Mas isso é na América...
Eu costumava trabalhar em Lisboa. Melhor, eu costumava trabalhar no centro de Lisboa. Eu sempre trabalhei no centro de Lisboa: na Baixa, na Av. da Liberdade, em Campolide, na Av. da República... De há quase dois anos a esta parte trabalho num subúrbio. Eu nunca precisei de sair de Lisboa para nada a não ser... mulheres. Por qualquer razão, essas, as que foram e as que podiam ter sido eram sempre de fora de Lisboa. Mas eu perdoava-lhes o defeito. Agora, a minha vida é feita do caminho entre uma casa quase à saída de Lisboa e um triste subúrbio onde trabalho num ainda mais triste apartamento de um tristíssimo recanto de uma zona dormitório. Não é mania mas a praceta onde fica o meu trabalho é o canto mais feio de toda esta zona. É preciso galo.
Antigamente, quando precisava de desanuviar, descia as escadas e ia até um café qualquer, que os havia aos pontapés por todo o lado. Podia dar-me ao luxo de escolher o local de acordo com o que me apetecia. Tempos houve em que, por baixo de mim, havia um super-mercado com um café onde quase tudo era mais barato e de qualidade aceitável. Tempos houve em que, ao almoço, podia dar uma volta pelas Amoreiras ou ir sentar-me à sombra das árvores do jardim.
Agora, quando quero ir comer qualquer coisa, mais pela necessidade de parar um pouco do que por fome, tenho de andar duzentos metros e atravessar vazios. Se estiver a chover, molho-me. Mas antes isso do que ir até à varanda porque esta fica no trabalho e há momentos em que só se está bem longe daí.
Oscilo entre dois cafés: um de que gosto e outro de que não. Ao primeiro vou porque sim, ao segundo vou porque o primeiro está fechado. No primeiro, um galão é servido amavelmente e custa 70 cêntimos, no segundo, o galão é servido com má cara e custa 1 euro. No primeiro descanso, no segundo quero por-me a andar de volta para o trabalho...
Se quiser almoçar por um preço mais ou menos modesto, tenho de andar quinhentos metros, a subir, até uma amostra de centro comercial. Antigamente, ao fim de 50 metros estava a comer uma bela sopa por menos de 1 euro. Agora, sopa, só se for num menu...
Quando trabalhava em Lisboa podia dar-me ao prazer de ir e vir do trabalho a pé. Ao fim do dia isso era especialmente agradável. Agora, tenho de ir a pé de casa até uma estação de combóio, apanhar o dito e, depois, andar cerca de 10 minutos, sempre a subir, até chegar à empresa.
A empresa mudou-se para aqui para poupar dinheiro. Isso deve ser importante para manter os postos de trabalho e os ordenados. É por isso que há dois anos que não sou aumentado.
São 14:40 e um véu de sono parece querer cobrir-me, aqui, nesta pasmaceira onde trabalho, sub-subúrbio de Lisboa por intermédio do Cacém. Ao longe vejo o rio e o mar. Lisboa tão perto que apetece esticar o braço e agarrar a ponte. Ou então, fugir em direcção a Carcavelos, correr para a praia, atirar as coisas para a areia e mergulhar nas águas quase sempre mornas.
De um e do outro lado, chama-me qualquer coisa melhor do que a luta contra a vontade de me esticar e deixar o tempo passar...
A sesta não devia ser um luxo redescoberto por uns quaisquer americanos excêntricos, dispostos a pagar uma pequena fortuna pelo saudável prazer de descansar vinte minutos após o almoço. A sesta devia ser uma instituição, imposta pela lei e pelo hábito.
De que vale fazerem estudos demonstrando que a sesta não só é necessária ao corpo como também é um revigorante para a cabeça se, depois, as conclusões esbarram na habitual tacanhez dos espíritos? "Perder 20 minutos por dia a dormir? Só se compensarem esse tempo ao fim do dia..."
Argumenta-se com os tais estudos, com o enorme aumento da produtividade causado pelo refrescar do espírito, afinal, com o bem da empresa... É latim mal gasto...
A sesta é como a mulher do próximo: apetece mas é pecado.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

... e os hábitos também. As novas tecnologias vieram alterar a nossa relação com os outros e, por vezes, alterar radicalmente comportamentos que se pensava imutáveis por serem o reflexo de sensações, essas sim, que nunca mudam. Vem isto a propósito do nascimento do filho de um amigo meu, terceira pessoa mais ou menos próxima a quem isso acontece. Sempre imaginei que, quando alguém meu conhecido fosse pai, espalhasse a notícia de modo esfusiante através de telefonemas em catadupa, dando a notí­cia a todos os que lhe eram chegados. Mas a tradição já não é o que era: agora, comunica-se a notí­cia do primeiro filho com um simples (e atrasado) SMS, escrito em forma quase telegráfica, ao jeito de notícia de rodapé. Lá se foi o clássico "Já nasceu! É um rapaz!". Após este passo, seguia-se a ida à maternidade onde os babosos pais esperavam as visitas desejosas de conhecer a criança: agora, manda-se por correio electrónico uma foto do rebento, satisfazendo a curiosidade de todos e poupando-lhes assim o cansaço da deslocação. São os novos tempos e, acima de tudo, as pessoas desta época. É certo que poder-se-ia argumentar que há casos e casos mas, por acaso ou não, já é o terceiro...
Produtividade

Mais um dia de trabalho. Horas passadas a teclar ao tom da ansiedade que se adivinha nos clientes. Toda a gente quer tudo para ontem. Se não puder ser para ontem, então, pode ser para hoje. Tudo é urgente.

Leio as notícias na net e fico a saber que o Governo prepara-se para aprovar um pacote de medidas para aumentar a produtividade. Rio-me. Não consigo deixar de soltar um riso sarcástico perante o mundo da Lua onde, por vezes, as pessoas que detêm o poder parecem viver.
Ler que as melhorias na produtividade estão dependentes da diminuição da burocracia e outros factores igualmente genéricos e subjectivos e, depois, ter de trabalhar com um Pentium II a 300Mhz quando a norma do mercado já ultrapassa os 2Ghz! Ter de perder horas por semana à espera que o computador se digne a deixar-me trabalhar. Só não é verdadeiramente cómico porque é triste.
Quantas empresas, quantos patrões se preocupam com o investimento na qualidade do pessoal e no conforto que este tem no trabalho? Enquanto vivermos num país onde os empresários não vêem mais do que um palmo à frente do nariz, que interessam medidas de fundo (tão ao fundo que nem se lhes percebe a utilidade)?
Se as empresas, ainda que pequenas, não gastarem na formação profissional dos seus empregados, como é que estes podem usar as técnicas mais adequadas e mais produtivas? Se o material for obsoleto como é que se pode produzir mais e em menos tempo? Se, em plena vaga de calor, nem uma ventoinha houver numa sala e os empregados forem obrigados a trabalhar com temperaturas elevadíssimas, ocupando a cabeça mais com pensamentos de fuga do que de trabalho, como é que se há-de conseguir que o país avance?
Se, numa empresa, até os manuais técnicos têm de ser comprados pelos funcionários, como é que se lhes pode, depois, pedir que se sacrifiquem pelo cumprimento dos objectos?
E já agora, o que é que se pode chamar a este fenómeno generalizado e terceiro-mundista das horas extraordinárias não remuneradas? A estupidez dos nossos empresários é tanta que nem conseguem entender que um funcionário desmotivado e extenuado nunca conseguirá render o que for necessário.
Exploram-se as pessoas, estica-se a corda, gastam-se as vidas dos outros sem que esses tenham a coragem de dizer basta.