Eu costumava trabalhar em Lisboa. Melhor, eu costumava trabalhar no centro de Lisboa. Eu sempre trabalhei no centro de Lisboa: na Baixa, na Av. da Liberdade, em Campolide, na Av. da República... De há quase dois anos a esta parte trabalho num subúrbio. Eu nunca precisei de sair de Lisboa para nada a não ser... mulheres. Por qualquer razão, essas, as que foram e as que podiam ter sido eram sempre de fora de Lisboa. Mas eu perdoava-lhes o defeito. Agora, a minha vida é feita do caminho entre uma casa quase à saída de Lisboa e um triste subúrbio onde trabalho num ainda mais triste apartamento de um tristíssimo recanto de uma zona dormitório. Não é mania mas a praceta onde fica o meu trabalho é o canto mais feio de toda esta zona. É preciso galo.
Antigamente, quando precisava de desanuviar, descia as escadas e ia até um café qualquer, que os havia aos pontapés por todo o lado. Podia dar-me ao luxo de escolher o local de acordo com o que me apetecia. Tempos houve em que, por baixo de mim, havia um super-mercado com um café onde quase tudo era mais barato e de qualidade aceitável. Tempos houve em que, ao almoço, podia dar uma volta pelas Amoreiras ou ir sentar-me à sombra das árvores do jardim.
Agora, quando quero ir comer qualquer coisa, mais pela necessidade de parar um pouco do que por fome, tenho de andar duzentos metros e atravessar vazios. Se estiver a chover, molho-me. Mas antes isso do que ir até à varanda porque esta fica no trabalho e há momentos em que só se está bem longe daí.
Oscilo entre dois cafés: um de que gosto e outro de que não. Ao primeiro vou porque sim, ao segundo vou porque o primeiro está fechado. No primeiro, um galão é servido amavelmente e custa 70 cêntimos, no segundo, o galão é servido com má cara e custa 1 euro. No primeiro descanso, no segundo quero por-me a andar de volta para o trabalho...
Se quiser almoçar por um preço mais ou menos modesto, tenho de andar quinhentos metros, a subir, até uma amostra de centro comercial. Antigamente, ao fim de 50 metros estava a comer uma bela sopa por menos de 1 euro. Agora, sopa, só se for num menu...
Quando trabalhava em Lisboa podia dar-me ao prazer de ir e vir do trabalho a pé. Ao fim do dia isso era especialmente agradável. Agora, tenho de ir a pé de casa até uma estação de combóio, apanhar o dito e, depois, andar cerca de 10 minutos, sempre a subir, até chegar à empresa.
A empresa mudou-se para aqui para poupar dinheiro. Isso deve ser importante para manter os postos de trabalho e os ordenados. É por isso que há dois anos que não sou aumentado.