Há pragas que são passageiras, há outras que vêm para ficar. Entre as primeiras contam-se coisas tão nocivas quanto efémeras como sejam as Spice Girls ou um número da Caras; entre as segundas, ocorre-me, assim de repente, as empresas de segurança.
Já não me lembro de quando foi mas recordo-me de quando os lugares de porteiro e recepcionista eram ocupados por pessoas de meia-idade que não usavam uniformes de mau-gosto. Também me lembro de ir aos incipientes centros comerciais da altura (ah pois, já os havia!) e não ver vigilantes. Não eram necessários ou, como diriam os iluminados da Economia, havia um nicho de mercado à espera de ser preenchido? Provavelmente, os chatarrões de fato teriam razão, a julgar pela explosão de empresas de segurança que, em todo o lado e para todo o lado, espalharam hordas de homens - e mulheres... (fica a concessão ao igualitarismo de Esquerda) -, para nos atenderem ao balcão, prestarem informações, tomarem conta dos nossos valores, entregar senhas nos serviços públicos ou, como me parece que é o caso em demasiadas ocasiões, se passearem simplesmente com os seus intercomunicadores.
Recentemente, tive três oportunidades para constatar que a inutilidade das empresas de segurança é um facto em muitas situações e não apenas embirrância minha...
Situação nº1 - Alvaláxia, Lisboa
Na zona de comidas, um grupo de três casais na casa dos vinte, aparentando pertencer à classe média, parecia festejar um aniversário na zona comum de restauração. Passemos à frente do pormenor de mau-gosto que é celebrar os anos de alguém numas mesas de centro comercial e concentremo-nos no "depois da festa". Este ocorreu quando eu me preparava para morder um suculento hamburguer (numa das minhas raras incursões ao sofisticado universo gastronómico da comida de plástico) e se começou a ouvir vozes exaltadas de mulheres. Tento perceber o que se passa, dou descanso aos dentes e afino os ouvidos para tentar escutar melhor. Não era preciso: em poucos segundos passa por mim uma rapariga com sangue a escorrer pela cara, seguida de mais duas ou três que a tentam acalmar. Pelo caminho por entre as mesas, em direcção à casa-de-banho, a revoltada moça vai soltando ameaças. Aparentemente, alguma coisa tinha corrido mal no salão de jogos... Passam longos minutos. A jovem volta a cruzar a zona de restauração, voltam-se a ouvir gritos e vão aparecendo seguranças. Mais gritos, mais discussão e mais alguns seguranças. E assim se foi mantendo a coisa durante, pelo menos meia-hora. Acabo de comer, vou dar uma volta pelo centro e sempre ouvindo gritos e discussão. E o molho de seguranças, lá. Sento-me a ler e a fazer tempo para ir ao cinema e a discussão continua. Acabo a leitura, vou para o cinema e... a discussão continua... (adivinharam: os seguranças lá estavam). Aqui, já se tinha passado mais de uma hora desde o começo das "hostilidades"!
Desta vez, a PSP já estava no local. Ora, como sabem, a PSP tem uma reputação a manter e, por tal, apresentou-se, falou e... não resolveu nada.
Bom, sentei-me na sala, vi o filme e, ao sair da sala, preocupado por ter perdido 90 minutos a ver uma péssima fita, sou brindado pelo doce som de restos de discussão. Aqui, já se tinham passado duas horas e meia! Duas horas e meia durante as quais os seguranças do Alvaláxia deixaram que os utilizadores do espaço fossem incomodados por gente aos gritos, a soltar imprecações e ameaças, a passear-se com sangue na cara e, como parece óbvio, a agredir-se.
E pergunta o tolinho: para que raio é que servem os seguranças?!
Situação nº 2 - CC do Campo Pequeno, Lisboa
Ah, o prestígio da renovação dos espaços, a centralidade, a sofisticação... Passemos à frente do facto de, do ponto de vista estritamente comercial, o CC do Campo Pequeno ser absolutamente desinteressante ("trapos" são coisa que me interessa pouco) e concentremo-nos no que interessa: o CCQP tem uma zona de restauração! (não estavam à espera desta, pois não?)
E como o que interessa é matar a fome, aquele é um sítio como qualquer outro para o fazer. Para além disso, confesso, o prestígio é uma coisa que sabe bem e não me parece que a tasca da esquina o tenha. Ainda assim, hei-de falar com o dono para saber se ele o vai adquirir nos próximos tempos. Isso e Sumol porque eu não bebo Fanta.
Bom, estava eu e dois colegas a comer a nossa comidinha de franchising quando, por entre as notas de piano ao vivo, somos contemplados com o assédio mendicante de duas mulheres romenas. Ah pois, nada como ouvir o "My way" com uma letra do tipo "senhor, senhor, para o menino, senhor...". As mulheres, vestindo-se como ciganas, uma com o habitual bebé ao colo (já repararam como os bebés romenos são uns santos?, sempre a dormir, não dão trabalho nenhum) e a outra com um rebento já autónomo que apresentava a vantagem de poder ir de mesa em mesa pedindo qualquer coisa. Ora, como se a situação não fosse já irritante, ainda por cima, estas criaturas dedicavam-se a importunar os clientes do centro comercial à vista de diversos seguranças a quem elas passavam literalmente debaixo da cara (eram pequenas, as mulheres), sem que eles fizessem o que quer que fosse.
E pergunta o tolinho: para que raio é que servem os seguranças?!
Situação nº 3 - CC do Campo Pequeno, Lisboa
Exactamente, outra vez o CCQP. Desta vez eram só duas mulheres, tentando disfarçar a sua origem com um aspectozinho melhor mas entregues ao mesmo trabalho: andar a pedir esmola a quem almoçava. E, para variar, os seguranças nada faziam. Como isto já me estava a causar azia, dirigi-me à recepção do centro para apresentar reclamação. Santo milagre! Ainda a reclamação não estava assinada (livro de reclamações, nunca esquecer a sua existência!) e já as mulheres eram postas na rua. Reclamar compensa SEMPRE!
Mas o tolinho pergunta: e se eu não tivesse reclamado?
Estou cansado. Dormi quase o que devia mas, mesmo assim, sinto-me moído.
Para poder ver a dita série tive de levar com alguns longos minutos de telenovela o que me fez pensar que, antigamente (não, não, já depois do 25/04...), as telenovelas passavam à hora do jantar ou um pouco depois. Posteriormente veio um período em que passaram a ser ao almoço, durante a tarde e ao jantar. Agora, das duas uma, ou as donas de casa (que ainda são o grande público destas coisas!) não se despedem do marido no outro dia de manhã ou as TV's já só passam telenovelas. Devo
E isto desenrola-me na cabeça uma pequena listagem. Confiram:
| Antigamente | Agora |
| Comunicado de imprensa | Press release |
| Salão de exposições | Show room |
| Orçamento | Budget |
| Item | Item (leia-se "áitame") |
| ID | ID (leia-se "aidí") |
| Verificação | Check, checking, checkage (???) |
| Gestor de produto | Product manager |
| Rascunho | Draft |
| Impressão |
Em boa verdade, a lista é enorme mas não me apetece estar a pensar muito agora. Isto foi só em jeito de desabafo.
Só não substituem a palavra imbecil porque, em Inglês, se diz quase da mesma maneira...
O Natal está aí. Na realidade, está ali, melhor, lá ao fundo, a um mês de distância. Já esteve ainda mais longe mas, já nessa altura, estava pertíssimo de nós. O milagre é conseguido pelos comerciantes, essa raça sempre pronta a dar cabo do sentido e dos valores de qualquer data em nome da sacrossanta Economia. É curioso este termo - Economia -, na realidade é uma contradição de si mesmo. Para a Economia o que é bom é que se gaste. Economia x Consumo? Não, Economia=Consumo.
Bom, voltando ao Natal: a um mês do dito já me sinto bombardeado com publicidade sorridente acerca da confortável alegria da quadra. As ruas
Uma grande parte do mundo cristão (o único que devia comemorar o Natal)
Quando eu era miúdo, ansiava pelo Natal. Um pedaço antes já só pensava nos brinquedos que iria receber e nas coisas que iria comer. É claro que havia sempre um "engraçado" que, em vez de um belo brinquedo me oferecia roupa ou ainda pior (naquela altura), um envelope com dinheiro mas mesmo que a coisa corresse mal, havia sempre as broas para adoçar a noite. Hoje em dia, o concentrado de Natal diluiu-se. Aquele curto período, agora transformado em mês e meio perdeu a graça. É difícil aguentar o "espírito" durante tanto tempo. Quando se chega ao que interessa mesmo já se está cansado e a querer que tudo aquilo passe depressa. É triste. É mesmo muito triste. Porque, num mundo cada vez mais bruto, o Natal ainda era aquela época com alguma doçura em que a família se juntava com gosto. Agora, cumpre-se uma data.
Natal é quando um homem quiser: aparentemente, muitos homens querem que o Natal comece no princípio de Novembro. Para vender, para ajudar à Economia. E isto não é esquisito? Por um lado as pessoas queixam-se da falta de dinheiro, os comerciantes queixam-se da falta de vendas e, por outro lado, aumenta-se o período de campanha intensiva de vendas... Já se sabia que o Natal vinha envolvido em toda aquela hipocrisia do amor e fraternidade quando se resumia a prendas e comida. Agora, a máscara começa a cair de forma definitiva. Um dia destes, o Natal há-de começar em Agosto, para aproveitar os turistas que cá estão. É pô-los a fazer as comprinhas de Natal à vinda da praia, ó gente!
Já estou nesta empresa há mais de 5 anos e nunca tive qualquer tipo de formação profissional...
Percebem agora a piada?
Estou a fazer uma alteração num site e preciso testar a dita
1) O meu PC começa a moer (como de costume)
2) O IE, atacado por um vírus que não se consegue remover, abre-me insistentemente janelas.
3) Dizem-me que não posso desinstalar o IE (?)
4) O IE deixa de funcionar.
5) Tento o Opera. Dá-me uma incompatibilidade
6) Mudo de PC. Este está a correr uma tarefa e o IE nem abre
7) Tento mais um PC. O site leva imenso tempo a abrir.
8) Finalmente, o site abre. Tento fazer login mas não consigo.
9) Após algum tempo, consigo entrar. O programa dá erro.
10) Sento-me à mesa para corrigir o problema. Pego na caneta para escrever e... a tinta acabou.
11) Procuro uma caneta. Não há.
12) O armário onde as canetas estão guardadas está fechado à chave.
13) Só o chefe tem a chave do armário das canetas. O chefe não está.
14) Pego num lápis. Está sem bico.
15) Procuro um afia-lápis: não encontro.
16) Vou buscar uma caneta de recurso que trago comigo. Está seca.
17) À beira de um ataque, lembro-me de processar alguém num milhão de dólares por danos causados aos meus nervos. Mas isso é na América...
Antigamente, quando precisava de desanuviar, descia as escadas e ia até um café qualquer, que os havia aos pontapés por todo o lado. Podia dar-me ao luxo de escolher o local de acordo com o que me apetecia. Tempos houve em que, por baixo de mim, havia um super-mercado com um café onde quase tudo era mais barato e de qualidade aceitável. Tempos houve em que, ao almoço, podia dar uma volta pelas Amoreiras ou ir sentar-me à sombra das árvores do jardim.
Agora, quando quero ir comer qualquer coisa, mais pela necessidade de parar um pouco do que por fome, tenho de andar duzentos metros e atravessar vazios. Se estiver a chover, molho-me. Mas antes isso do que ir até à varanda porque esta fica no trabalho e há momentos em que só se está bem longe daí.
Oscilo entre dois cafés: um de que gosto e outro de que não. Ao primeiro vou porque sim, ao segundo vou porque o primeiro está fechado. No primeiro, um galão é servido amavelmente e custa 70 cêntimos, no segundo, o galão é servido com má cara e custa 1 euro. No primeiro descanso, no segundo quero por-me a andar de volta para o trabalho...
Se quiser almoçar por um preço mais ou menos modesto, tenho de andar quinhentos metros, a subir, até uma amostra de centro comercial. Antigamente, ao fim de 50 metros estava a comer uma bela sopa por menos de 1 euro. Agora, sopa, só se for num menu...
Quando trabalhava em Lisboa podia dar-me ao prazer de ir e vir do trabalho a pé. Ao fim do dia isso era especialmente agradável. Agora, tenho de ir a pé de casa até uma estação de combóio, apanhar o dito e, depois, andar cerca de 10 minutos, sempre a subir, até chegar à empresa.
A empresa mudou-se para aqui para poupar dinheiro. Isso deve ser importante para manter os postos de trabalho e os ordenados. É por isso que há dois anos que não sou aumentado.
De um e do outro lado, chama-me qualquer coisa melhor do que a luta contra a vontade de me esticar e deixar o tempo passar...
A sesta não devia ser um luxo redescoberto por uns quaisquer americanos excêntricos, dispostos a pagar uma pequena fortuna pelo saudável prazer de descansar vinte minutos após o almoço. A sesta devia ser uma instituição, imposta pela lei e pelo hábito.
De que vale fazerem estudos demonstrando que a sesta não só é necessária ao corpo como também é um revigorante para a cabeça se, depois, as conclusões esbarram na habitual tacanhez dos espíritos? "Perder 20 minutos por dia a dormir? Só se compensarem esse tempo ao fim do dia..."
Argumenta-se com os tais estudos, com o enorme aumento da produtividade causado pelo refrescar do espírito, afinal, com o bem da empresa... É latim mal gasto...
A sesta é como a mulher do próximo: apetece mas é pecado.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mais um dia de trabalho. Horas passadas a teclar ao tom da ansiedade que se adivinha nos clientes. Toda a gente quer tudo para ontem. Se não puder ser para ontem, então, pode ser para hoje. Tudo é urgente.
Leio as notícias na net e fico a saber que o Governo prepara-se para aprovar um pacote de medidas para aumentar a produtividade. Rio-me. Não consigo deixar de soltar um riso sarcástico perante o mundo da Lua onde, por vezes, as pessoas que detêm o poder parecem viver.
Ler que as melhorias na produtividade estão dependentes da diminuição da burocracia e outros factores igualmente genéricos e subjectivos e, depois, ter de trabalhar com um Pentium II a 300Mhz quando a norma do mercado já ultrapassa os 2Ghz! Ter de perder horas por semana à espera que o computador se digne a deixar-me trabalhar. Só não é verdadeiramente cómico porque é triste.
Quantas empresas, quantos patrões se preocupam com o investimento na qualidade do pessoal e no conforto que este tem no trabalho? Enquanto vivermos num país onde os empresários não vêem mais do que um palmo à frente do nariz, que interessam medidas de fundo (tão ao fundo que nem se lhes percebe a utilidade)?
Se as empresas, ainda que pequenas, não gastarem na formação profissional dos seus empregados, como é que estes podem usar as técnicas mais adequadas e mais produtivas? Se o material for obsoleto como é que se pode produzir mais e em menos tempo? Se, em plena vaga de calor, nem uma ventoinha houver numa sala e os empregados forem obrigados a trabalhar com temperaturas elevadíssimas, ocupando a cabeça mais com pensamentos de fuga do que de trabalho, como é que se há-de conseguir que o país avance?
Se, numa empresa, até os manuais técnicos têm de ser comprados pelos funcionários, como é que se lhes pode, depois, pedir que se sacrifiquem pelo cumprimento dos objectos?
E já agora, o que é que se pode chamar a este fenómeno generalizado e terceiro-mundista das horas extraordinárias não remuneradas? A estupidez dos nossos empresários é tanta que nem conseguem entender que um funcionário desmotivado e extenuado nunca conseguirá render o que for necessário.
Exploram-se as pessoas, estica-se a corda, gastam-se as vidas dos outros sem que esses tenham a coragem de dizer basta.