[ O coleccionador de olhos ]

Tarde de Sábado (no caso, 16h30 de 23/09), cinemas Alvaláxia...

Preparo-me para queimar mais hora e meia do meu tempo livre a ver um qualquer filme que me promete a chacina de um bando de jovens deliquentes. Como, no dia em questão, a minha tolerância para com adolescentes chungas já está abaixo de zero, alinho sem pestanejar...

Ainda gasto os últimos minutos antes da sessão, tentando ler um chatérrimo conto de fantasmas (em Inglês) quando vejo entrar na sala um indivíduo com duas crianças e um adolescente. Fico a pensar se teria sido uma ilusão induzida pela minha leitura e guardo a confirmação para mais tarde...

O filme em questão chamava-se "O coleccionador de olhos" e, durante cerca de 90 minutos, brindou-nos com: fanatismo religioso, gente morta (à machadada, à pancada, aos tiros, empalada, atirada da janela, perfurada com barras de ferro pelos olhos adentro, comida viva por cães), fracturas expostas, linguagem obscena (*), mutilações, corpos em decomposição, consumo de droga, masturbação, etc., etc.

Já agora, diga-se que o tema principal da obra era a obsessão de um maníaco por arrancar olhos às pessoas (enquanto vivas, claro). Os olhinhos, com nervo à mistura, eram, depois, guardados em boiões e ficavam para colecção numa mesa de uma sala do hotel onde a acção se desenrolava. O hotel estava abandonado e as suas paredes cobertas de imundície, sangue e, claro, baratas...

Em todo o filme a violência é assumida e explícita. Temos até direito a uma pequena viagem ao interior do corpo humano para observar os efeitos de uma queda de muitos metros de altura, com perfurações de diversos tipos. Uma verdadeira iguaria!

Bom, mas, ironias à parte, eu não contesto a existência destes filmes. Eu fui vê-lo! O que me deixou revoltado foi que, ao sair da sala, e fazendo eu um compasso de espera propositado, pude confirmar a minha desconfiança. Efectivamente, um energúmeno tinha levado duas crianças (8-12 anos) e um adolescente (14/15?) a ver o filme em questão. Ora, não é possível, pelo car taz, pelas descrições disponíveis em grande quantidade, etc., que aquele indivíduo desconhecesse o conteúdo da película e, mesmo que tal sucedesse, ele era sempre livre de, a qualquer momento, se levantar e sair. Não o fez. A razão para tal comportamento só pode ser uma total irresponsabilidade, um "deixa-andar" entranhado, uma falta de sentido crítico que tudo permite. E, pensa-se: quando crianças (repito, crianças) são levadas, de propósito, ao cinema, para ver coisas destas (havia filmes infantis e juvenis no mesmo espaço), o que se pode esperar que seja o seu crescimento? Qual será o desenvolvimento do seu carácter? As esperanças serão poucas. Mas, o mais assustador é que o patife do pai (?) não está sozinho. Está acompanhado de quem lhe vendeu os quatro bilhetes, de quem lhos recebeu à entrada, de quem se sentou junto dele e o viu, na sala, com as crianças. Ninguém se mexe e esta é a imagem do nosso povo, um povo de bandalheira onde tudo vale, onde ninguém faz nada, onde nada interessa.

E, com esta, já é a segunda vez que vejo menores (crianças) numa sala de cinema, vendo um filme de terror. Da outra vez, foi nas salas VIP das Amoreiras e o menu era consideravelmente menos nocivo: lobisomens comendo mulheres (em vários sentidos...).


Está tudo bem, portanto. E, se não estiver, a culpa é do Governo, obviamente!...



(*) - aqui, há que dar os parabéns à tradutora que teve o cuidado de não ferir susceptibilidades, trocando a palavra "puta" por "meretriz", o que faz todo o sentido no contexto do filme e ainda mais se pensarmos que as personagens eram adolescentes condenados por tráfico de droga, agressões, roubos, etc. Pensou nas criancinhas que estavam a ver a fita, concerteza...
Vá-se lá fugir das memórias. Vá-se lá pedir-lhes que não nos batam à porta nas alturas menos próprias. Vá-se lá fingir que o que nos passa agora à frente é novo e não a continuação de qualquer coisa que nunca se foi embora...
[ Pragas ]

Há pragas que são passageiras, há outras que vêm para ficar. Entre as primeiras contam-se coisas tão nocivas quanto efémeras como sejam as Spice Girls ou um número da Caras; entre as segundas, ocorre-me, assim de repente, as empresas de segurança.
Já não me lembro de quando foi mas recordo-me de quando os lugares de porteiro e recepcionista eram ocupados por pessoas de meia-idade que não usavam uniformes de mau-gosto. Também me lembro de ir aos incipientes centros comerciais da altura (ah pois, já os havia!) e não ver vigilantes. Não eram necessários ou, como diriam os iluminados da Economia, havia um nicho de mercado à espera de ser preenchido? Provavelmente, os chatarrões de fato teriam razão, a julgar pela explosão de empresas de segurança que, em todo o lado e para todo o lado, espalharam hordas de homens - e mulheres... (fica a concessão ao igualitarismo de Esquerda) -, para nos atenderem ao balcão, prestarem informações, tomarem conta dos nossos valores, entregar senhas nos serviços públicos ou, como me parece que é o caso em demasiadas ocasiões, se passearem simplesmente com os seus intercomunicadores.
Recentemente, tive três oportunidades para constatar que a inutilidade das empresas de segurança é um facto em muitas situações e não apenas embirrância minha...

Situação nº1 - Alvaláxia, Lisboa

Na zona de comidas, um grupo de três casais na casa dos vinte, aparentando pertencer à classe média, parecia festejar um aniversário na zona comum de restauração. Passemos à frente do pormenor de mau-gosto que é celebrar os anos de alguém numas mesas de centro comercial e concentremo-nos no "depois da festa". Este ocorreu quando eu me preparava para morder um suculento hamburguer (numa das minhas raras incursões ao sofisticado universo gastronómico da comida de plástico) e se começou a ouvir vozes exaltadas de mulheres. Tento perceber o que se passa, dou descanso aos dentes e afino os ouvidos para tentar escutar melhor. Não era preciso: em poucos segundos passa por mim uma rapariga com sangue a escorrer pela cara, seguida de mais duas ou três que a tentam acalmar. Pelo caminho por entre as mesas, em direcção à casa-de-banho, a revoltada moça vai soltando ameaças. Aparentemente, alguma coisa tinha corrido mal no salão de jogos... Passam longos minutos. A jovem volta a cruzar a zona de restauração, voltam-se a ouvir gritos e vão aparecendo seguranças. Mais gritos, mais discussão e mais alguns seguranças. E assim se foi mantendo a coisa durante, pelo menos meia-hora. Acabo de comer, vou dar uma volta pelo centro e sempre ouvindo gritos e discussão. E o molho de seguranças, lá. Sento-me a ler e a fazer tempo para ir ao cinema e a discussão continua. Acabo a leitura, vou para o cinema e... a discussão continua... (adivinharam: os seguranças lá estavam). Aqui, já se tinha passado mais de uma hora desde o começo das "hostilidades"!
Desta vez, a PSP já estava no local. Ora, como sabem, a PSP tem uma reputação a manter e, por tal, apresentou-se, falou e... não resolveu nada.
Bom, sentei-me na sala, vi o filme e, ao sair da sala, preocupado por ter perdido 90 minutos a ver uma péssima fita, sou brindado pelo doce som de restos de discussão. Aqui, já se tinham passado duas horas e meia! Duas horas e meia durante as quais os seguranças do Alvaláxia deixaram que os utilizadores do espaço fossem incomodados por gente aos gritos, a soltar imprecações e ameaças, a passear-se com sangue na cara e, como parece óbvio, a agredir-se.
E pergunta o tolinho: para que raio é que servem os seguranças?!


Situação nº 2 - CC do Campo Pequeno, Lisboa

Ah, o prestígio da renovação dos espaços, a centralidade, a sofisticação... Passemos à frente do facto de, do ponto de vista estritamente comercial, o CC do Campo Pequeno ser absolutamente desinteressante ("trapos" são coisa que me interessa pouco) e concentremo-nos no que interessa: o CCQP tem uma zona de restauração! (não estavam à espera desta, pois não?)
E como o que interessa é matar a fome, aquele é um sítio como qualquer outro para o fazer. Para além disso, confesso, o prestígio é uma coisa que sabe bem e não me parece que a tasca da esquina o tenha. Ainda assim, hei-de falar com o dono para saber se ele o vai adquirir nos próximos tempos. Isso e Sumol porque eu não bebo Fanta.
Bom, estava eu e dois colegas a comer a nossa comidinha de franchising quando, por entre as notas de piano ao vivo, somos contemplados com o assédio mendicante de duas mulheres romenas. Ah pois, nada como ouvir o "My way" com uma letra do tipo "senhor, senhor, para o menino, senhor...". As mulheres, vestindo-se como ciganas, uma com o habitual bebé ao colo (já repararam como os bebés romenos são uns santos?, sempre a dormir, não dão trabalho nenhum) e a outra com um rebento já autónomo que apresentava a vantagem de poder ir de mesa em mesa pedindo qualquer coisa. Ora, como se a situação não fosse já irritante, ainda por cima, estas criaturas dedicavam-se a importunar os clientes do centro comercial à vista de diversos seguranças a quem elas passavam literalmente debaixo da cara (eram pequenas, as mulheres), sem que eles fizessem o que quer que fosse.
E pergunta o tolinho: para que raio é que servem os seguranças?!


Situação nº 3 - CC do Campo Pequeno, Lisboa

Exactamente, outra vez o CCQP. Desta vez eram só duas mulheres, tentando disfarçar a sua origem com um aspectozinho melhor mas entregues ao mesmo trabalho: andar a pedir esmola a quem almoçava. E, para variar, os seguranças nada faziam. Como isto já me estava a causar azia, dirigi-me à recepção do centro para apresentar reclamação. Santo milagre! Ainda a reclamação não estava assinada (livro de reclamações, nunca esquecer a sua existência!) e já as mulheres eram postas na rua. Reclamar compensa SEMPRE!
Mas o tolinho pergunta: e se eu não tivesse reclamado?
[ O riso é coisa de morcegos ]

Estou cansado. Dormi quase o que devia mas, mesmo assim, sinto-me moído. Deitei-me tarde porque estreava uma série de humor na SIC e, nas nossas TV's, estas coisas ficam para tarde, para muito tarde. Neste caso, para depois da meia-noite. É engraçado (mas não faz rir) que programas que apelam ao pensamento ou à gargalhada (sejamos optimistas) sejam atirados para altas horas. Porque, para mim, meia-noite ainda é tarde. Admito que não o seja para quem não faça nada no dia seguinte mas para quem tem de se levantar cedo, meia-noite é tarde! Imaginem uma e tal que foi quando me deitei... E assim, fica-se numa situação em que nos apetece rir mas não o fazemos ou não o devemos fazer a menos que queiramos acordar o resto do prédio. Sorri-se, portanto e, ocasionalmente, deixa-se escapar um risinho mais entusiasmado.

Para poder ver a dita série tive de levar com alguns longos minutos de telenovela o que me fez pensar que, antigamente (não, não, já depois do 25/04...), as telenovelas passavam à hora do jantar ou um pouco depois. Posteriormente veio um período em que passaram a ser ao almoço, durante a tarde e ao jantar. Agora, das duas uma, ou as donas de casa (que ainda são o grande público destas coisas!) não se despedem do marido no outro dia de manhã ou as TV's já só passam telenovelas. Devo ter-me distraído e não apanhei o momento em que a telenovela foi declarada oficialmente como a sopa que todos temos de comer. De qualquer modo, telenovela até à meia-noite é obra. O "coroné" e o jagunço mais a "minina" e o "negão": o raio que os parta! Para ver três palermas a tentarem dizer umas piadas tive de estar acordado até à uma e tal da manhã e tudo por causa das telenovelas?! Ora bolas! Vão si cátá!
Telefonaram-me agora por causa da recepção de um "press-release". Assim mesmo. Há uns anos dizia-se um "comunicado de imprensa".
E isto desenrola-me na cabeça uma pequena listagem. Confiram:









AntigamenteAgora
Comunicado de imprensaPress release
Salão de exposiçõesShow room
OrçamentoBudget
ItemItem (leia-se "áitame")
IDID (leia-se "aidí")
VerificaçãoCheck, checking, checkage (???)
Gestor de produtoProduct manager
RascunhoDraft
ImpressãoPrint



Em boa verdade, a lista é enorme mas não me apetece estar a pensar muito agora. Isto foi só em jeito de desabafo.

Só não substituem a palavra imbecil porque, em Inglês, se diz quase da mesma maneira...

Natal é quando um homem quiser

O Natal está aí. Na realidade, está ali, melhor, lá ao fundo, a um mês de distância. Já esteve ainda mais longe mas, já nessa altura, estava pertíssimo de nós. O milagre é conseguido pelos comerciantes, essa raça sempre pronta a dar cabo do sentido e dos valores de qualquer data em nome da sacrossanta Economia. É curioso este termo - Economia -, na realidade é uma contradição de si mesmo. Para a Economia o que é bom é que se gaste. Economia x Consumo? Não, Economia=Consumo.
Bom, voltando ao Natal: a um mês do dito já me sinto bombardeado com publicidade sorridente acerca da confortável alegria da quadra. As ruas enchem-se de decorações luminosas, as montras de enfeites, o Pai Natal fez uma chegada em grande no Algarve e trouxe consigo uma pista de gelo.


Uma grande parte do mundo cristão (o único que devia comemorar o Natal) encontra-se em zonas onde não há neve, onde o PN nunca poderia vestir-se com aquela roupa quente e onde a própria árvore de Natal assumiria uma forma completamente diferente. E qual é o problema? Sim, qual é o problema de o mundo inteiro se rever em estereótipos que nada têm a ver com a cultura de cada povo mas que são meros "enlatados" do consumismo ocidental? Nenhum, a julgar pela forma como todos aderem à coisa. É o caso da árvore de Natal: como seria se, em vez do pinheiro ou do abeto tivessemos a palmeira de Natal? Uma palmeira nunca poderia servir para comemorar o Natal. Já imaginaram o trabalho que seria colocar as decorações lá em cima, no único sítio que essas inúteis árvores têm com folhagem? Devaneios...


Quando eu era miúdo, ansiava pelo Natal. Um pedaço antes já só pensava nos brinquedos que iria receber e nas coisas que iria comer. É claro que havia sempre um "engraçado" que, em vez de um belo brinquedo me oferecia roupa ou ainda pior (naquela altura), um envelope com dinheiro mas mesmo que a coisa corresse mal, havia sempre as broas para adoçar a noite. Hoje em dia, o concentrado de Natal diluiu-se. Aquele curto período, agora transformado em mês e meio perdeu a graça. É difícil aguentar o "espírito" durante tanto tempo. Quando se chega ao que interessa mesmo já se está cansado e a querer que tudo aquilo passe depressa. É triste. É mesmo muito triste. Porque, num mundo cada vez mais bruto, o Natal ainda era aquela época com alguma doçura em que a família se juntava com gosto. Agora, cumpre-se uma data.
Natal é quando um homem quiser: aparentemente, muitos homens querem que o Natal comece no princípio de Novembro. Para vender, para ajudar à Economia. E isto não é esquisito? Por um lado as pessoas queixam-se da falta de dinheiro, os comerciantes queixam-se da falta de vendas e, por outro lado, aumenta-se o período de campanha intensiva de vendas... Já se sabia que o Natal vinha envolvido em toda aquela hipocrisia do amor e fraternidade quando se resumia a prendas e comida. Agora, a máscara começa a cair de forma definitiva. Um dia destes, o Natal há-de começar em Agosto, para aproveitar os turistas que cá estão. É pô-los a fazer as comprinhas de Natal à vinda da praia, ó gente!

Hoje, antes da hora de almoço, eu já tinha programado em: ASP, VBScript, JavaScript, ColdFusion, PHP, mySQL, MSSQL, HTML e Visual Basic. Até aqui, é o dia-a-dia. O que me faz notar isto é a ironia de, a certa altura, eu atender o telefone (sim, também faço de telefonista) e alguém me pedir para falar com o responsável do Departamento de Formação da empresa. Pus a chamada em espera e perguntei ao meu chefe se devia desatar a rir ou passar-lhe a chamada. Ele disse que eu podia rir. Resolvi não o fazer e disse ao indivíduo que estava do outro lado da linha para mandar um email para a empresa.
Já estou nesta empresa há mais de 5 anos e nunca tive qualquer tipo de formação profissional...
Percebem agora a piada?
Se me deixarem...

Estou a fazer uma alteração num site e preciso testar a dita

1) O meu PC começa a moer (como de costume)
2) O IE, atacado por um vírus que não se consegue remover, abre-me insistentemente janelas.
3) Dizem-me que não posso desinstalar o IE (?)
4) O IE deixa de funcionar.
5) Tento o Opera. Dá-me uma incompatibilidade
6) Mudo de PC. Este está a correr uma tarefa e o IE nem abre
7) Tento mais um PC. O site leva imenso tempo a abrir.
8) Finalmente, o site abre. Tento fazer login mas não consigo.
9) Após algum tempo, consigo entrar. O programa dá erro.
10) Sento-me à mesa para corrigir o problema. Pego na caneta para escrever e... a tinta acabou.
11) Procuro uma caneta. Não há.
12) O armário onde as canetas estão guardadas está fechado à chave.
13) Só o chefe tem a chave do armário das canetas. O chefe não está.
14) Pego num lápis. Está sem bico.
15) Procuro um afia-lápis: não encontro.
16) Vou buscar uma caneta de recurso que trago comigo. Está seca.
17) À beira de um ataque, lembro-me de processar alguém num milhão de dólares por danos causados aos meus nervos. Mas isso é na América...
Eu costumava trabalhar em Lisboa. Melhor, eu costumava trabalhar no centro de Lisboa. Eu sempre trabalhei no centro de Lisboa: na Baixa, na Av. da Liberdade, em Campolide, na Av. da República... De há quase dois anos a esta parte trabalho num subúrbio. Eu nunca precisei de sair de Lisboa para nada a não ser... mulheres. Por qualquer razão, essas, as que foram e as que podiam ter sido eram sempre de fora de Lisboa. Mas eu perdoava-lhes o defeito. Agora, a minha vida é feita do caminho entre uma casa quase à saída de Lisboa e um triste subúrbio onde trabalho num ainda mais triste apartamento de um tristíssimo recanto de uma zona dormitório. Não é mania mas a praceta onde fica o meu trabalho é o canto mais feio de toda esta zona. É preciso galo.
Antigamente, quando precisava de desanuviar, descia as escadas e ia até um café qualquer, que os havia aos pontapés por todo o lado. Podia dar-me ao luxo de escolher o local de acordo com o que me apetecia. Tempos houve em que, por baixo de mim, havia um super-mercado com um café onde quase tudo era mais barato e de qualidade aceitável. Tempos houve em que, ao almoço, podia dar uma volta pelas Amoreiras ou ir sentar-me à sombra das árvores do jardim.
Agora, quando quero ir comer qualquer coisa, mais pela necessidade de parar um pouco do que por fome, tenho de andar duzentos metros e atravessar vazios. Se estiver a chover, molho-me. Mas antes isso do que ir até à varanda porque esta fica no trabalho e há momentos em que só se está bem longe daí.
Oscilo entre dois cafés: um de que gosto e outro de que não. Ao primeiro vou porque sim, ao segundo vou porque o primeiro está fechado. No primeiro, um galão é servido amavelmente e custa 70 cêntimos, no segundo, o galão é servido com má cara e custa 1 euro. No primeiro descanso, no segundo quero por-me a andar de volta para o trabalho...
Se quiser almoçar por um preço mais ou menos modesto, tenho de andar quinhentos metros, a subir, até uma amostra de centro comercial. Antigamente, ao fim de 50 metros estava a comer uma bela sopa por menos de 1 euro. Agora, sopa, só se for num menu...
Quando trabalhava em Lisboa podia dar-me ao prazer de ir e vir do trabalho a pé. Ao fim do dia isso era especialmente agradável. Agora, tenho de ir a pé de casa até uma estação de combóio, apanhar o dito e, depois, andar cerca de 10 minutos, sempre a subir, até chegar à empresa.
A empresa mudou-se para aqui para poupar dinheiro. Isso deve ser importante para manter os postos de trabalho e os ordenados. É por isso que há dois anos que não sou aumentado.
São 14:40 e um véu de sono parece querer cobrir-me, aqui, nesta pasmaceira onde trabalho, sub-subúrbio de Lisboa por intermédio do Cacém. Ao longe vejo o rio e o mar. Lisboa tão perto que apetece esticar o braço e agarrar a ponte. Ou então, fugir em direcção a Carcavelos, correr para a praia, atirar as coisas para a areia e mergulhar nas águas quase sempre mornas.
De um e do outro lado, chama-me qualquer coisa melhor do que a luta contra a vontade de me esticar e deixar o tempo passar...
A sesta não devia ser um luxo redescoberto por uns quaisquer americanos excêntricos, dispostos a pagar uma pequena fortuna pelo saudável prazer de descansar vinte minutos após o almoço. A sesta devia ser uma instituição, imposta pela lei e pelo hábito.
De que vale fazerem estudos demonstrando que a sesta não só é necessária ao corpo como também é um revigorante para a cabeça se, depois, as conclusões esbarram na habitual tacanhez dos espíritos? "Perder 20 minutos por dia a dormir? Só se compensarem esse tempo ao fim do dia..."
Argumenta-se com os tais estudos, com o enorme aumento da produtividade causado pelo refrescar do espírito, afinal, com o bem da empresa... É latim mal gasto...
A sesta é como a mulher do próximo: apetece mas é pecado.