
Sintra decadente
Fui a Sintra. À partida, semelhante acontecimento não devia evocar mais do que a memória de uma agradável tarde a deambular pelas ruas desse (pequeno) oásis nacional. Mas, a verdade é que a imagem que Sintra deixa ao visitante mais atento está longe de corresponder à que nos é transmitida pelos panfletos turísticos. É certo que as belezas estão lá: o castelo continua a olhar-nos sobranceiramente, o palácio domina a Volta do Duche, o verde inunda-nos a vista e o tutti-fruti arquitectónico embala-nos em sonhos de pequenas salas onde se come biscoitos e se bebe um chá quente. Sintra está lá, como sempre esteve. O problema são os pedaços de Sintra que começam a deixar de estar lá ou a querer ir-se embora, abandonados pela incúria, ajudante involuntária da ganância e da especulação imobiliária. Passear por Sintra é, para quem respeita o património e o bom-gosto, de uma maneira geral, para quem tenha bom-senso, uma verdadeira tortura, tantos são os exemplos de abandono e decadência nos quais tropeçamos pelos principais caminhos da bonita vila. Alguns dos (belos) edifícios cuja decadência somos forçados a contemplar, ano após ano, começam a entrar num estado de ruína do qual será difícil sair. E a pergunta salta-nos à garganta: e ninguém faz nada?!
Mudou-se a gestão autárquica: de PS passou-se para PSD (que já vai no segundo mandato consecutivo) mas Sintra continua a não ver melhoras. Muito pelo contrário, alguns perfeitos atentados têm sido cometidos, como, por exemplo, a pavimentação da rua que leva ao Museu, com placas cinzentas e algum mármore escuro à mistura no que constitui um flagrante caso de arranjo pimbalhão do espaço público. Sintra é Património Mundial mas isso não impediu a Câmara Municipal de Sintra de fazer algo que, em Lisboa, talvez só se visse num bairro social. E já nem se fala dos contentores para o lixo, feitos em metal cinzento (e já enferrujados) ou do repuxo de água (em estilo urbano-industrial) deitados pelo chão (provavelmente por algum skater mais desajeitado.
Junto a esta calçada pimba, temos, pelo menos quatro vivendas/casas abandonadas, estando duas em estado de ruína/pré-ruína. Uma delas, há longos anos deixada à sua sorte, está a ser alvo de uma intervenção que já lhe acrescentou dois avançados (para garagens?) e encurtou uma janela (tudo se espera, portanto...) mas, as outras lá estão... Num dos casos, trata-se de uma vivenda com colunas, azulejos, maneirismos neo-manuelinos... enfim, aquela bric-a-brac que dá graça a tantas construções na área. Quem vale a este património?
Mas, o visitante, resolve continuar em direcção à Volta do Duche e, ao chegar ao miradouro, repara num busto ali colocado "homenageando" o general Firmino Miguel. E a palavra "homenageando" encontra-se entre aspas porque, das duas uma: ou o senhor tinha cara de palhaço ou o escultor é um perfeito amador que devia reduzir as suas intervenções a bonecos feitos em pasta de papel... E, depois, o tamanho despropositado do busto (enorme)... Um atentado ao bom gosto (e não entramos pela oportunidade - ou não -, da "homenagem").
Um pouco mais à frente, entramos numa rua onde, à esquerda temos edifícios de vários andares e, à direita, casas e casarões. Quanto aos edifícios, temos coisas em estilo Português Suave de má qualidade, outras em estilo "sintrense" e, finalmente, um pavoroso e deslocado exemplar de arquitectura "moderna" e amorfa cuja construção em semelhante local só pode ser explicada pela estupidez ou pela corrupção. Do outro lado da rua - na zona das casas -, existem, pelo menos, duas construções devolutas, sendo uma delas uma amorosa casa. E voltamos a perguntar: como é que isto é possível?
Mas o tom de "há aqui qualquer coisa que não bate certo" continua um pouco por todo o lado. Na Volta do Duche andaram a semear esculturas de mau-gosto, na vila velha, há caixas de correio de todo o tipo (saloio) penduradas à porta de edifícios que deviam ser protegidos, há árvores que rebentaram com os passeios e os peões que saltem para a estrada porque os carros não deixam espaço para aqueles se esgueirarem. Nas ruas mais estreitas, em pleno centro turístico, os peões são obrigados a conviver com os automóveis ali estacionados (e que, nalguma altura, hão-de circular), os popós - mais uma vez, eles -, estão estacionados por todo o lado, e, como não podia deixar de ser, há mais edificios em decadência acelerada. Ao lado do Palácio da Vila, um hotel foi construido (anos 80?), manchando a panorâmica do lado de Seteais e ninguém se preocupou em minimizar o efeito do monstro (com plantas trepadeiras nas paredes exteriores, pintura das partes coloridas, colocação de telhados, etc), nada!
Sintra é mais um exemplo (como a zona histórica do Porto) de um tesouro que caiu nas mãos de piratas!...
Tarde de Sábado (no caso, 16h30 de 23/09), cinemas Alvaláxia...