Fish não é fixe!

A Aula Magna, na Cidade Universitária, estava cheia. O público, composto em grande parte por trintões e quarentões (os jovens já nem reconhecem a banda Marillion), se partilhasse do meu estado de espírito, ansiava por um concerto com vinte anos de atraso. E não era qualquer concerto mas sim a exibição dessa obra maior dos anos 80 chamada "Misplaced Childhood". É certo que, desta vez, não eram os Marillion que tocavam mas era a voz do seu antigo cantor que iríamos ouvir e é sempre isso que constitui a parte mais reconhecível de uma banda. Fish iria cantar um dos discos que mais marcou a minha adolescência, disco do qual sei (ainda) a maior parte das letras, disco que reconheço em cada acorde. Ele que subisse ao palco, então.

O concerto começou antes da hora, como é "lei" hoje em dia. Uma banda de suporte, nacional, entra antes da hora e faz com que o concerto principal comece depois da hora. Que se lixem os horários.

O som estava altíssimo. A banda Forgotten Suns debitava uma espécie de rock sinfónico misturado com Heavy Metal e, se a música propriamente dita não era má, o cantor, esse, podia ficar calado. No fim do espectáculo, os meus ouvidos já estavam semi-entorpecidos. Meti o algodão...

Finalmente, Fish entra e, quando eu esperava começar a ouvir os primeiros acordes do álbum que me fazia estar ali, o escocês brinda-me com meio espectáculo de canções próprias, da sua carreira a solo que, como toda a gente sabe, só é apreciada pela família mais próxima do cantor. Consta que os seus amigos de pub também a elogiam mas cobram uma rodada geral pelo sacrifício.

Ao fim de um enormíssimo tempo (o sofrimento estica sempre o relógio), Fish lá se calou com as sensaborias e saiu de palco. Houve quem comentasse que iria pedir o dinheiro de volta. O sentimento é compreensível. "Ninguém" estava ali para ouvir "Fish" mas sim para escutar Marillion ainda que para isso tivesse de se abstrair da presença totalmente sem classe dos músicos que estavam em palco (seriam amigos de copos?). No entanto, há que admitir que os ditos estavam à altura da imagem decadente de Fish.

Ao fim de um curto intervalo, a banda reentra em palco e esfrego as mãos. Era agora!
Os primeiros acordes de "Pseudo Silk Kimono" devem ter arrepiado muita gente por ali. A mim, infelizmente, não o fizeram por ter imediatamente reparado que as dificuldades vocais de Fish iriam continuar. Com o continuar do espectáculo, não só o problema se manteve como houve problemas de som e até um corte total que motivou comentários pouco abonatórios por parte do cantor. Diga-se aliás que Fish não parece ser uma pessoa com o sentido da delicadeza atendendo às várias (e longas) piadas acerca da sonoridade da nossa língua (e nem entremos agora na questão do "vocês são um país tão pequeno, tão pequeno, tão pequeno...").

As coisas boas têm, muitas vezes, o defeito de serem breves e esse é o caso de "Misplaced Childhood". Mesmo com um espectáculo mau (provavelmente o pior concerto que já vi), Fish podia muito bem ter repetido a dose de Marillion que eu não me importaria. Eu até seria capaz de esquecer a forma desenxabida como Kayleigh foi tocado, os solos fora de tom e a sempre presente falta de capacidade vocal de Fish.

Após o prato principal, tivemos direito a algumas músicas "extras" (já se sabe que os encores são "obrigatórios") mas, primeiro, tivemos de aturar mais um enorme discurso, desta feita acompanhado com vinho.
O concerto acabou com músicas dos Marillion e o público deve ter saído contente. Era para ouvir Marillion que ali estavam. Mas eu lembrava-me constantemente de um concerto que vi no Pavilhão Carlos Lopes, já com Steve Hogarth ao microfone e como já então o achei superior a Fish (em expressividade e voz). Passaram muitos anos é certo e a idade mata muito do talento e das capacidades mas a minha vontade de ouvir um disco que tanto me dizia estava cá toda e Fish não esteve à altura das expectativas.

Um concerto para esquecer ou lembrar com um sorriso amarelo...
menos um...

Sadam Hussein foi condenado à morte. A meu ver, a decisão é justa e só peca por tardia. Em breve haverá menos um pulha no mundo. A diferença não será muita mas a grão e grão...
Anuncia-se que Sadam será enforcado (como forma de humilhação) e não fuzilado. Por mim, tudo bem. Felizmente não estamos na Idade Média. Nessa altura, o nosso querido Sadam seria enforcado, esquartejado e os seus restos espalhados pelos caminhos. Ora, isso teria graves consequências a nível ambiental, nomeadamente, na saúde dos corvos...
tiro no pé?

Acaba de estrear o novo programa dos Gato Fedorento. Aparentemente (e a análise a um primeiro programa é sempre arriscada), os rapazes deram um tiro no pé. O programa em formato de "directo" perde no distanciamento que (não) se cria com os sketches (aqui, relegados para um segundo nível) e com o pouco à vontade dos intervenientes no largar de piadas "de passagem". Esperemos que melhore... bastante
cidadania de supermercado

Há algum tempo atrás, a comunicação social, no desempenho de uma das suas várias funções (no caso a do sensacionalismo hipócrita) deu a conhecer o caso aparentemente chocante de uma mulher de origem indiana, a viver há muitos anos em Portugal, mãe de filhos, "empresária", que tinha visto negado o seu pedido de cidadania portuguesa. A senhora em questão tinha sido vítima do excesso de zelo de um juiz que tinha tido o desplante de querer que a pretendente a cidadã portuguesa conhecesse o hino nacional e igualmente fosse capaz de destacar figuras da sociedade e história nacionais. A pessoa em questão falhou e continuou a ser considerada cidadã indiana e não portuguesa.
Por mim, não só o juiz se portou bem como merecia um louvor por aplicar aquilo que é, afinal de contas, simples bom senso, coisa cada vez mais rara em quem imagina, faz e aplica a Lei.
Não me apetece estar aqui a divagar sobre o assunto até porque o mesmo serve apenas como uma espécie de introdução a outro caso que, no fundo, se insere numa espécie de conceito de cidadania de supermercado em que cada um se propõe ser reconhecido como cidadão de um determinado país não por ter uma relação filial com aquele mas porque, pura e simplesmente, lhe dá jeito.
E é o mote deste texto, uma senhora de "origem" portuguesa, que viveu durante anos no Congo (já nem sei qual, tais são as constantes mudanças de nome), que foi viver para o Líbano (atracção por terras exóticas, já se vê) e que constituiu vasta prole à qual faz questão de dar nacionalidade portuguesa. A senhora já só se exprime em Francês, as criancinhas, o mais que sabem de Portugal são os nomes das nossas estrelas futebolísticas mas, que raio!, são todos portugueses (ou querem sê-lo). Fazem-no pelo apelo do sangue? Não, fazem-no pelo simples interesse de ter um passaporte que lhes dá mais garantias do que um congolês ou libanês. Ser-se Português e, acima de tudo, ser-se cidadão da União Europeia é visto como uma espécie de salva-vidas: se alguma coisa correr mal... somos portugueses.
Da parte desta gente existe um instinto de "sobrevivência" que se sobrepõe a um princípio tão importante quanto o de pertença a uma nação, a um povo mas, da parte de um Estado, só pode existir o princípio da defesa da sua integridade e, no caso português, o Estado-Nação quase perfeito não pode compadecer-se com paraquedistas sob o risco de se perverter algo que devia ser nobre e não meramente um produto de consumo.

Lembro-me ainda do já distante caso de uma macaense residente em Hong-Kong, que nem uma palavra sabia de Português, que já mal mantinha relações com Macau e que, um dia, ao ser detida por tráfico de droga em Singapura, se lembrou de que tinha um passaporte português. Rapidamente a comunicação social montou uma campanha hipócrita para socorrer "a cidadã portuguesa" e o país, como bom cordeiro, se mobilizou em seu apoio. Não deu resultado: ainda bem.
o apelo ao fel

A ASSOFT (Associação Portuguesa de Software), iniciou recentemente uma campanha contra a pirataria informática.
Para a ASSOFT, bem como para outras entidades ligadas à questão dos direitos de autor, a cópia ilegal e consequente utilização de programas é um verdadeiro flagelo com o qual urge acabar. A ASSOFT faz o seu papel, a SPA também faz o seu noutras vertentes, o Estado pretende fazer, igualmente, o seu. Toda a gente faz o seu papel, mas muitas empresas, não. É a crua realidade que ainda vigora uma sensação de impunidade nos responsáveis das empresas que permitem (e incentivam) a utilização de software que não foi adquirido (e não é gratuito). Até aí, julgo que não se discute. O que já é bastante discutível é a forma como a ASSOFT está a proceder. Esta associação apela expressamente a que sejam feitas denúncias anónimas visando as empresas em falta. Para o efeito, até criou um site cujo URL é, nada mais, nada menos, www.denuncia.com.pt. Ou seja, a ASSOFT pede às pessoas que, no meio de tanta coisa de que se têm de lembrar, aproveitem para dar um saltinho à net (ou telefonem, ou mandem um fax) para denunciar alguém. Não é preciso ter muitos neurónios para perceber o apelo que semelhante procedimento representa ao lado mais vingativo de cada um de nós. "Foi despedido? Vingue-se do seu patrão e denuncie-o à ASSOFT", "O seu vizinho, o tal de quem você não gosta, tem uma empresa? De que está à espera? Chame a ASSOFT!".
Atendendo ao elevado nível de pirataria existente, há boas possibilidades do bufo ver cumprido o seu desejo e a vítima ter de largar do bolso uma boa quantia em multas.

Em qualquer sociedade existem muitos e graves problemas. Assim de repente, estou a lembrar-me de que seria interessante apelar ao "bufismo" no que diz respeito ao tráfico de droga, ao incumprimento fiscal, aos sinais exteriores de riqueza, etc. O próprio Estado poderia ser denunciado inúmeras vezes pelos cidadãos bufos. Mas não: de todas as problemáticas que poderiam ser alvo de bufismo, a pirataria informática, aquela actividade que TODA a gente pratica, foi a escolhida. A ASSOFT devia (e tem, concerteza) consciência de que ninguém se preocuparia em denunciar semelhante ilegalidade. As pessoas estão-se borrifando. A ASSOFT sabe, portanto, que a única razão que levará alguém a denunciar outrém será o mau-fígado. E, se do ponto de vista prático, isso poderá trazer alguns benefícios, não deixa de ser um aproveitamento sujo dos defeitos humanos.
a inteligência pesa?

Ao ver estas fotos de comentadores do Jornal de Negócios, estou inclinado a dizer que sim...



P.S.: ainda havia mais uma foto mas estragava o enquadramento :)
Já chegou! Já chegou! Quem?! O Pai Natal!
Vi hoje a primeira loja cheia de bonecada natalícia. Hoje é dia 20 de Outubro: faltam dois meses e cinco dias para o Natal...
no melhor pano cai a nódoa

Acabo de ver pela primeira vez um (quiçá longo demais para o espectador médio) programa sobre a Língua Portuguesa, em horário nobre, na RTP. Quase me comove ver, finalmente, as atenções da televisão pública viradas para uma das mais prementes necessidades da nossa sociedade e, igualmente, uma das mais óbvias aplicações do serviço público televisivo.
O programa está bem apresentado embora tenha algumas falhas como sejam a utilização de caixas vermelhas para assinalar quer as formas correctas, quer as formas incorrectas de escrever/dizer algo (um sistema verde/vermelho seria bem mais compreensível); ou algumas tentações de cair no eruditismo fútil (o que é que interessa ao cidadão médio saber o que são palavras "parónimas"?). Mas a nódoa surgiu quando a palavra "Francês" apareceu escrita com "ç"... Ah, pois! E o mais engraçado é que, mais à frente, semelhante situação foi apresentada como exemplo de mau-trato à língua... :)

À parte de algumas afinações necessárias, a iniciativa é excelente! Parabéns RTP!
[ ainda agora começou... ]

São 6:45 da manhã. Lá fora, um cão ladra furiosamente (como de costume). Acordo, levanto-me e resolvo aproveitar o tempo para tratar de algumas coisas na internet.

Vou ao site da seguradora Açoreana e tento entrar na minha área: dá erro de SQL. Após algumas tentativas, desisto.

Vou ao site do MillenniumBCP (nome estúpido o deste banco) e tento definir um valor para o pagamento da prestação do cartão de crédito: dá erro e uma mensagem do tipo "Tem de fazer um inquérito". Uau!
Insisto e, agora, tento mudar o limite da prestação mensal: dá erro e uma mensagem do tipo "Tem de fazer um inquérito". Uau! (pela segunda vez)
Deixando o cartão de crédito para trás, ataco desta feita o sector dos seguros: apesar de ter dois seguros no banco, diz-me que não tenho nenhum...

O dia começou há pouco, com um cão a ladrar, os computadores já estão a dar raia e... o cão continua a ladrar...
[ o transe de coelho ]

Eu gostava de ser como o Eduardo Prado Coelho. OK, piadas sobre o físico à parte, o homem é um intelectual, deve, concerteza, viver melhor do que eu e até já viveu durante anos na capital francesa. E mais! Foi pago (e bem) para viver em Paris enquanto que eu tive de pagar (e bem) para lá estar durantes uns poucos dias...

Saltando as invejas mesquinhas, o EPC deve ser um homem feliz (até parece que é professor universitário na área de letras - o que deve ser óptimo para as hormonas) e porque consegue ver mais do mundo do que o comum dos mortais, pelo menos, é a impressão com que fico após ter ido ver o filme "português" "Transe", da realizadora Maria Teresa Villaverde. Fi-lo a conselho indirecto do EPC, depois de ter lido um recorte do jornal Público, com uma crónica em tons superlativos acerca do dito filme. Nesse momento, as dúvidas que eu tinha fruto de muitos barretes que o cinema nacional já me enfiou, desvaneceram-se e passei a ter como objectivo primordial do dia seguinte (além de respirar), ver a nova película. E cumpri o objectivo...

Quatro euros depois, estava sentado num dos cinemas do Saldanha, a postos para ser esmagado pelas momumentais qualidades que EPC atribuía ao filme e a, de uma vez por todas, me deixar tentar pela ideia de que o cinema Português ("moderno") até podia ser interessante.

A história começa e imediatamente se instala algum desconforto: o som é um pouco baço e temos uma espécie de sequência de sonho com uma criancinha dizendo qualquer coisa em Russo (a língua do filme, já agora). Mmm... calma, pode não ser nada.
O tempo vai passando e o tom do filme não sai do desinteressante (para não dizer chato): as imagens são sem graça, a história é relativamente fluida mas sem criar ansiedade pela cena seguinte, a música é ausente. E este último pormenor até é importante porque EPC conseguiu ver (ouvir, i.e.) uma perturbadora música onde eu só ouvi silêncio. Deve ser a tal história do "som do silêncio"...

Sonia (sem acento porque a rapariga é russa) farta-se da miséria de Sãopetersburgo (ainda não cheguei a uma conclusão quanto à forma correcta de escrever o nome da cidade...) e muda-se de armas e bagagens (não que tenha qualquer das duas) para a Alemanha onde, para variar, trabalha como mulher da limpeza. Aí, ao fim de algum tempo é "raptada" (sem violência - que os mafiosos também podem ser bons rapazes) e posta ao cuidado de um mafioso iniciante que lhe dá a hipótese de se ir embora. Como a rapariga não aguenta o caminho a pé, ele retoma-a, dá-lhe banho e comida e até aproveita para lhe fazer companhia na cama, naquela que é, provavelmente, a mais serena cena de violação alguma vez vista.

Sonia é o primeiro trabalho do mafioso que, ou a entrega no destino, ou está feito, claro. E o destino é Itália, onde Sonia é colocada a trabalhar num bordel. Como primeiro trabalho, tem de satisfazer um preto - brasileiro? africano? (não se percebe bem) -, mas fica sem se conseguir mexer e nós ficamos também sem perceber o que lhe terá causado mais repúdio: a raça ou a situação. Sonia leva umas lambadas e, de cliente em cliente, lá vão tentando que a moça faça alguma coisa. Passado algum tempo, a nossa infeliz russa é levada para um palacete onde deverá servir de brinquedo a um jovem adulto demente que, após um fascínio inicial, fica bastante desiludido ao constatar que a "flor dela é murcha"... Este problema de origem botânica não demoveu, no entanto, o assistente pessoal do louco a mostrar-lhe como é que as coisas se fazem...
Sonia consegue fugir mas é apanhada daí a pouco, maltradada (mas não muito, aparentemente), colocada num contentor e despejada em Portugal, numa sala onde um homem tem com ela um diálogo absolutamente hilariante (no mau sentido). Aqui, podemos tirar quaisquer dúvidas quanto aos dons poliglotas de Sonia que já falava Russo, aprendeu Alemão, Italiano e, pasme-se!, se expressa em fluente Português de Lisboa nesta última parte do filme.

Teresa Villaverde podia ter-nos dado um filme-choque acerca do tráfico de mulheres, podia ter-nos dado um soco no estômago (ao EPC, deu - o que é difícil, convenhamos) mas não resistiu à tentação de intelectualizar o que podia ser uma boa história. Ou, se calhar, não sabe contar uma história de forma interessante para o espectador. A obsessão dos tiques de "autor", de remeter tudo para segundos sentidos, dos planos longos e fixos, da ausência de acompanhamento musical, tudo isso é-nos posto à frente pela enésima vez, como prova da imutabilidade dos nossos "autores".

O cinema português revela-se absolutamente incapaz de se "industrializar" e descolar da doença intelectualóide que nos impede de ter o prazer de ver bom cinema na nossa língua. Quando o tenta fazer, cria abortos como "O crime do Padre Amaro" mas, será de pensar se isso não será um mal menor.

Num momento em que a Palestina tem uma óptima fita a rodar em Lisboa, que a Espanha enche salas com Almodovar, que outras cinematografias não anglo-saxónicas nos brindam com bom cinema, Portugal mantém-se fiel à ideia de que é o último refúgio da inteligência aplicada ao cinema e persiste num caminho suicida que nos nega a todos um direito tão básico quanto o de termos um audiovisual próprio (ainda que não original)

Assim, não vamos lá...