Sou rico?

Estou contente. Voltei de férias e tenho uma carta na caixa do correio, enviada pelo Millennium, a convidar-me a gastar 2000 euros (exactamente, 400 contos) durante a actual época natalícia (que, como sabem, dura pelo menos dois meses) para ganhar um vale de 40 euros de um qualquer "Clube Wine & Gourmet". Mas, se o valor da prenda me parecer pouco, posso sempre gastar 5000 euros (mais de 1000 contos) para poder ter um absolutamente fantástico prémio de 100 euros (vinte continhos). Ora, sou eu que ainda estou afectado pelo jet lag ou há aqui qualquer coisa de profundamente estúpido?

1) Quem é que gasta 2000 ou 5000 euros em dois meses?
2) De quem gasta as quantias acima indicadas, quem é que o faz no Natal?
3) Quem consegue e quer gastar 5000 euros a crédito (bom cartão, hem?) tem algum interesse nuns míseros vales de 40 ou 100 euros?

5000 euros em dois meses?! Querem ver que já sou rico?

Haja pachorra!
nem todos podem ser astronautas

Segundo acaba de informar um jornalista desportivo da RTP, na transmissão do jogo Portugal-Cazaquistão, este acaba de chegar à meia-lua. O comentador acrescentou que já era um feito. Concordo: o Cazaquistão não é os EUA, o Cazaquistão é um país pobre, saído da desagregação da URSS e mesmo esta não tinha os meios (ou a vontade?) para se lançar à conquista do nosso satélite natural. Os bravos do Cazaquistão tiveram mais ambição do que os soviéticos e, provavelmente com o apoio de Alá, de peito aberto, lançaram-se à conquista da nossa meia-lua...

Da "nossa"?, mas, afinal... nós também fomos à Lua? Nada isso, nós vivemos lá...
o gato já cheira mal?

Ao terceiro episódio do "Diz que é uma espécie de magazine", o novo programa desses ícones do humor nacional que são os Gato Fedorento, parece confirmar-se o meu prgnóstico inicial: a coisa é fraca.

O primeiro episódio foi assim-assim, o segundo foi melhorzinho, o terceiro foi o pior.
Ou os rapazes mudam aquilo ou arriscam-se a ficar só com os "verdadeiros fans", aqueles que papam qualquer coisa...
a minha casa, não!

Recentemente, recebi uma carta do Millennium BCP publicitando um novo serviço, de seu nome "Crédito Mill Opções" (o "Mill" é mesmo assim, uma espécie de trocadilho com o nome do banco, engendrado pelos génios do marketing ao serviço do grupo BCP).
A lógica do serviço é muito simples: eu tenho uma casa e ela vale dinheiro, logo, o BCP empresta-me até 95% do valor da casa para que eu possa realizar os meus sonhos (o habitual apelo onírica...) que, como não podiam deixar de ser, para os publicitários se resumem a automóveis, férias em praias tropicais, jóias e televisões de plasma. Faltam as mulheres, mas como o BCP tem sido gerido por gente ligada à Opus Dei, suponho que semelhante assunção de pecado seja considerada inaceitável...
Ora, se esta pressão para a criação ou acumular de dívidas não tivesse já qualquer coisa de imoral, o caso torna-se ainda mais problemático quando se tem em conta que eu tenho um crédito à habitação cujo final ainda não se vê e, apesar disso, o BCP acha por bem enviar-me publicidade a um serviço onde é a minha casa, que eu ainda estou a "começar" a pagar, que vai servir de garantia!!!

Há coisas que nem ao Diabo lembram.
A menos que o Diabo seja da Opus Dei...
Fish não é fixe!

A Aula Magna, na Cidade Universitária, estava cheia. O público, composto em grande parte por trintões e quarentões (os jovens já nem reconhecem a banda Marillion), se partilhasse do meu estado de espírito, ansiava por um concerto com vinte anos de atraso. E não era qualquer concerto mas sim a exibição dessa obra maior dos anos 80 chamada "Misplaced Childhood". É certo que, desta vez, não eram os Marillion que tocavam mas era a voz do seu antigo cantor que iríamos ouvir e é sempre isso que constitui a parte mais reconhecível de uma banda. Fish iria cantar um dos discos que mais marcou a minha adolescência, disco do qual sei (ainda) a maior parte das letras, disco que reconheço em cada acorde. Ele que subisse ao palco, então.

O concerto começou antes da hora, como é "lei" hoje em dia. Uma banda de suporte, nacional, entra antes da hora e faz com que o concerto principal comece depois da hora. Que se lixem os horários.

O som estava altíssimo. A banda Forgotten Suns debitava uma espécie de rock sinfónico misturado com Heavy Metal e, se a música propriamente dita não era má, o cantor, esse, podia ficar calado. No fim do espectáculo, os meus ouvidos já estavam semi-entorpecidos. Meti o algodão...

Finalmente, Fish entra e, quando eu esperava começar a ouvir os primeiros acordes do álbum que me fazia estar ali, o escocês brinda-me com meio espectáculo de canções próprias, da sua carreira a solo que, como toda a gente sabe, só é apreciada pela família mais próxima do cantor. Consta que os seus amigos de pub também a elogiam mas cobram uma rodada geral pelo sacrifício.

Ao fim de um enormíssimo tempo (o sofrimento estica sempre o relógio), Fish lá se calou com as sensaborias e saiu de palco. Houve quem comentasse que iria pedir o dinheiro de volta. O sentimento é compreensível. "Ninguém" estava ali para ouvir "Fish" mas sim para escutar Marillion ainda que para isso tivesse de se abstrair da presença totalmente sem classe dos músicos que estavam em palco (seriam amigos de copos?). No entanto, há que admitir que os ditos estavam à altura da imagem decadente de Fish.

Ao fim de um curto intervalo, a banda reentra em palco e esfrego as mãos. Era agora!
Os primeiros acordes de "Pseudo Silk Kimono" devem ter arrepiado muita gente por ali. A mim, infelizmente, não o fizeram por ter imediatamente reparado que as dificuldades vocais de Fish iriam continuar. Com o continuar do espectáculo, não só o problema se manteve como houve problemas de som e até um corte total que motivou comentários pouco abonatórios por parte do cantor. Diga-se aliás que Fish não parece ser uma pessoa com o sentido da delicadeza atendendo às várias (e longas) piadas acerca da sonoridade da nossa língua (e nem entremos agora na questão do "vocês são um país tão pequeno, tão pequeno, tão pequeno...").

As coisas boas têm, muitas vezes, o defeito de serem breves e esse é o caso de "Misplaced Childhood". Mesmo com um espectáculo mau (provavelmente o pior concerto que já vi), Fish podia muito bem ter repetido a dose de Marillion que eu não me importaria. Eu até seria capaz de esquecer a forma desenxabida como Kayleigh foi tocado, os solos fora de tom e a sempre presente falta de capacidade vocal de Fish.

Após o prato principal, tivemos direito a algumas músicas "extras" (já se sabe que os encores são "obrigatórios") mas, primeiro, tivemos de aturar mais um enorme discurso, desta feita acompanhado com vinho.
O concerto acabou com músicas dos Marillion e o público deve ter saído contente. Era para ouvir Marillion que ali estavam. Mas eu lembrava-me constantemente de um concerto que vi no Pavilhão Carlos Lopes, já com Steve Hogarth ao microfone e como já então o achei superior a Fish (em expressividade e voz). Passaram muitos anos é certo e a idade mata muito do talento e das capacidades mas a minha vontade de ouvir um disco que tanto me dizia estava cá toda e Fish não esteve à altura das expectativas.

Um concerto para esquecer ou lembrar com um sorriso amarelo...
menos um...

Sadam Hussein foi condenado à morte. A meu ver, a decisão é justa e só peca por tardia. Em breve haverá menos um pulha no mundo. A diferença não será muita mas a grão e grão...
Anuncia-se que Sadam será enforcado (como forma de humilhação) e não fuzilado. Por mim, tudo bem. Felizmente não estamos na Idade Média. Nessa altura, o nosso querido Sadam seria enforcado, esquartejado e os seus restos espalhados pelos caminhos. Ora, isso teria graves consequências a nível ambiental, nomeadamente, na saúde dos corvos...
tiro no pé?

Acaba de estrear o novo programa dos Gato Fedorento. Aparentemente (e a análise a um primeiro programa é sempre arriscada), os rapazes deram um tiro no pé. O programa em formato de "directo" perde no distanciamento que (não) se cria com os sketches (aqui, relegados para um segundo nível) e com o pouco à vontade dos intervenientes no largar de piadas "de passagem". Esperemos que melhore... bastante
cidadania de supermercado

Há algum tempo atrás, a comunicação social, no desempenho de uma das suas várias funções (no caso a do sensacionalismo hipócrita) deu a conhecer o caso aparentemente chocante de uma mulher de origem indiana, a viver há muitos anos em Portugal, mãe de filhos, "empresária", que tinha visto negado o seu pedido de cidadania portuguesa. A senhora em questão tinha sido vítima do excesso de zelo de um juiz que tinha tido o desplante de querer que a pretendente a cidadã portuguesa conhecesse o hino nacional e igualmente fosse capaz de destacar figuras da sociedade e história nacionais. A pessoa em questão falhou e continuou a ser considerada cidadã indiana e não portuguesa.
Por mim, não só o juiz se portou bem como merecia um louvor por aplicar aquilo que é, afinal de contas, simples bom senso, coisa cada vez mais rara em quem imagina, faz e aplica a Lei.
Não me apetece estar aqui a divagar sobre o assunto até porque o mesmo serve apenas como uma espécie de introdução a outro caso que, no fundo, se insere numa espécie de conceito de cidadania de supermercado em que cada um se propõe ser reconhecido como cidadão de um determinado país não por ter uma relação filial com aquele mas porque, pura e simplesmente, lhe dá jeito.
E é o mote deste texto, uma senhora de "origem" portuguesa, que viveu durante anos no Congo (já nem sei qual, tais são as constantes mudanças de nome), que foi viver para o Líbano (atracção por terras exóticas, já se vê) e que constituiu vasta prole à qual faz questão de dar nacionalidade portuguesa. A senhora já só se exprime em Francês, as criancinhas, o mais que sabem de Portugal são os nomes das nossas estrelas futebolísticas mas, que raio!, são todos portugueses (ou querem sê-lo). Fazem-no pelo apelo do sangue? Não, fazem-no pelo simples interesse de ter um passaporte que lhes dá mais garantias do que um congolês ou libanês. Ser-se Português e, acima de tudo, ser-se cidadão da União Europeia é visto como uma espécie de salva-vidas: se alguma coisa correr mal... somos portugueses.
Da parte desta gente existe um instinto de "sobrevivência" que se sobrepõe a um princípio tão importante quanto o de pertença a uma nação, a um povo mas, da parte de um Estado, só pode existir o princípio da defesa da sua integridade e, no caso português, o Estado-Nação quase perfeito não pode compadecer-se com paraquedistas sob o risco de se perverter algo que devia ser nobre e não meramente um produto de consumo.

Lembro-me ainda do já distante caso de uma macaense residente em Hong-Kong, que nem uma palavra sabia de Português, que já mal mantinha relações com Macau e que, um dia, ao ser detida por tráfico de droga em Singapura, se lembrou de que tinha um passaporte português. Rapidamente a comunicação social montou uma campanha hipócrita para socorrer "a cidadã portuguesa" e o país, como bom cordeiro, se mobilizou em seu apoio. Não deu resultado: ainda bem.
o apelo ao fel

A ASSOFT (Associação Portuguesa de Software), iniciou recentemente uma campanha contra a pirataria informática.
Para a ASSOFT, bem como para outras entidades ligadas à questão dos direitos de autor, a cópia ilegal e consequente utilização de programas é um verdadeiro flagelo com o qual urge acabar. A ASSOFT faz o seu papel, a SPA também faz o seu noutras vertentes, o Estado pretende fazer, igualmente, o seu. Toda a gente faz o seu papel, mas muitas empresas, não. É a crua realidade que ainda vigora uma sensação de impunidade nos responsáveis das empresas que permitem (e incentivam) a utilização de software que não foi adquirido (e não é gratuito). Até aí, julgo que não se discute. O que já é bastante discutível é a forma como a ASSOFT está a proceder. Esta associação apela expressamente a que sejam feitas denúncias anónimas visando as empresas em falta. Para o efeito, até criou um site cujo URL é, nada mais, nada menos, www.denuncia.com.pt. Ou seja, a ASSOFT pede às pessoas que, no meio de tanta coisa de que se têm de lembrar, aproveitem para dar um saltinho à net (ou telefonem, ou mandem um fax) para denunciar alguém. Não é preciso ter muitos neurónios para perceber o apelo que semelhante procedimento representa ao lado mais vingativo de cada um de nós. "Foi despedido? Vingue-se do seu patrão e denuncie-o à ASSOFT", "O seu vizinho, o tal de quem você não gosta, tem uma empresa? De que está à espera? Chame a ASSOFT!".
Atendendo ao elevado nível de pirataria existente, há boas possibilidades do bufo ver cumprido o seu desejo e a vítima ter de largar do bolso uma boa quantia em multas.

Em qualquer sociedade existem muitos e graves problemas. Assim de repente, estou a lembrar-me de que seria interessante apelar ao "bufismo" no que diz respeito ao tráfico de droga, ao incumprimento fiscal, aos sinais exteriores de riqueza, etc. O próprio Estado poderia ser denunciado inúmeras vezes pelos cidadãos bufos. Mas não: de todas as problemáticas que poderiam ser alvo de bufismo, a pirataria informática, aquela actividade que TODA a gente pratica, foi a escolhida. A ASSOFT devia (e tem, concerteza) consciência de que ninguém se preocuparia em denunciar semelhante ilegalidade. As pessoas estão-se borrifando. A ASSOFT sabe, portanto, que a única razão que levará alguém a denunciar outrém será o mau-fígado. E, se do ponto de vista prático, isso poderá trazer alguns benefícios, não deixa de ser um aproveitamento sujo dos defeitos humanos.
a inteligência pesa?

Ao ver estas fotos de comentadores do Jornal de Negócios, estou inclinado a dizer que sim...



P.S.: ainda havia mais uma foto mas estragava o enquadramento :)