o não de Santana
| Santana Lopes (SL) é uma daquelas personagens que me inspira sentimentos contraditórios. Um pouco à imagem de Paulo Portas (não é à toa que estiveram "juntos" politicamente), SL é capaz de nos surpreender com tiradas absolutamente racionais e com as quais é difícil estar em desacordo para, logo de seguida se envolver em polémicas revestidas de populismo barato. Nunca atingindo sequer uma parte do brilhantismo intelectual de Portas (que até sobre cinema escreve bem), SL tem a vantagem de ser mais mediático e de ter por trás um partido maior e aproveita isto para potenciar a projecção da sua figura, alcançada em entrevistas, debates e jornais. SL é sempre a vedeta esperada dos congressos do PSD, é a personagem cujo discurso é aguardado com ansiedade, é um íman para as câmaras. | |
Recentemente, uma das ideias defendida por SL ao longo dos anos foi posta, finalmente, em prática dentro do PSD: as eleições directas para a presidência. SL deve estar orgulhoso de tal. Tão orgulhoso como da sua intervenção no noticiário da SIC Notícias onde se recusou a continuar após ser interrompido para a exibição da chegada de José Mourinho a Portugal... A SIC Notícias, a meio de uma entrevista, achou por bem interrompê-la para nos brindar com algo de absolutamente corriqueiro e que, conforme se provou, não apresentava qualquer interesse. Mourinho nem sequer falou aos jornalistas e tudo se resumiu a um "ali vem ele, ali vai ele". Na retoma da entrevista, SL, numa atitude digna de quem se sente, criticou, em directo, a estação de TV pelo que tinha feito. Fê-lo com toda a razão. Apenas falhou num tique elitista ao referir-se a "um treinador de futebol", num tom marcadamente perjorativo. SL, o político, não consegue perceber que "um treinador de futebol" possa ser mais importante do que ele. Mas pode... José Mourinho é um daqueles portugueses que devia ser fabricado em série. Devia haver clones de Mourinho na administração pública, na política, nas faculdades, enfim, um pouco por todo o lado onde fosse necessário planear, ensinar e gerir. Mourinho já transcende a simples qualidade de técnico desportivo de escol e assume-se como um símbolo do que todos gostariam de ser: eficientes, ricos, famosos e respeitados. O até há pouco tempo treinador do Chelsea pode ser odiado por muitos - como Santana -, mas, se o é, é porque o seu êxito gera invejas. SL apenas consegue ser odiado pelas trapalhadas em que se meteu. É a maior das diferenças entre o "treinador de futebol" e o "político que já foi Primeiro Ministro". Mourinho conseguiu tudo à custa do seu enorme talento para fazer algo de concreto: vencer. SL sempre se afirmou em plataformas pouco estáveis, de forma passageira, nunca como um vencedor de guerras mas tão-somente de batalhas, de "combates" (como o próprio gosta de chamar às etapas políticas). Mas, independentemente da "birra de classe" por parte de SL, o que convém não perder de vista é o choque entre o que se pode chamar "critérios jornalísticos" e o que se poderia muito simplesmente chamar "respeito". De facto, a chegada de Mourinho ao aeroporto não configurava um evento de especial interesse para o público, sobretudo se pensarmos que a "confusão" da demissão/despedimento do treinador já tinha sido há vários dias e que não havia a esperar qualquer novidade a ser declarada pelo special one. Foi (mais) um momento de mau jornalismo, cedendo a SIC Notícias ao (suposto) espectáculo da notícia que, neste caso, até se veio a revelar inexistente. SL não gostou e, a julgar pelos comentários da maior parte das pessoas, tem o apoio geral. A SIC, pelo contrário, não reconhecendo o erro (algum jornalista o faz?) ainda colocou mais lenha no fogo ao associar a recusa de SL à sua propensão para deixar coisas a meio. Não só se tratou de um comentário cobarde como, pelo menos no caso da demissão do Governo por Jorge Sampaio, SL foi (bem?) impedido de continuar a exercer funções. Não foi, portanto, da sua responsabilidade o "corte". No fundo, as partes envolvidas no caso estarão, ambas, contentes. A SIC Notícias conseguiu publicidade e Santana Lopes esteve na origem de mais um "facto", o que lhe permite (a SL) manter-se à tona. E quem é que perdeu? pergunta-se. O bom senso, de certeza. Quanto ao público, acredito que prefira o circo à "chateza" de uma boa e séria discussão sobre política. | |
Este vídeo foi retirado do Rascunho Virtual







