Camões: sempre

Por ocasião da leitura de uma obra de José Hermano Saraiva sobre a vida de Camões ("Vida ignorada de Camões"), ocorre-me publicar aqui essa maravilha (uma de várias) que o nosso Imortal nos deixou. Publicada - e lida -, até à exaustão, conserva, séculos depois, a beleza das coisas verdadeiramente eternas. Como o Amor, dirão alguns, como o Génio humano, apontarão outros. A verdade é que o bom velho Luís Vaz, rufia que fosse, sabia, como poucos, trocar o estoque pela pena.




Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?



Quem de nós não se revê em algo disto?

Cheiras tão bem

Agora que já vou começando a perceber umas coisas muito básicas de Alemão (lá me vou conseguindo concentrar nas aulas...), ocorre-me estar a ouvir Rammstein e "apanhar" pedaços das letras.

O ritmo é marcial, as guitarras rugem, as paredes vibram e o cantor rosna:

"Tu cheiras tão beeeem, tu cheiras tão beeeem. Eu acho-te tão booooa, tão booooa."

Bem, já toda a gente sabia que traduzir letras escritas em Inglês era um exercício que não nos brindava com grandes revelações. Pelos vistos, em Alemão também se dá o mesmo fenómeno. Mas isso até nem me preocupa por aí além. O que me faz espécie é que eu achava que os rapazes, no meio daquele ritmo martelado que me faz sempre pensar em soldadinhos a marchar, até diziam coisas com mais substância. Também tem a ver com a língua, é certo. O Alemão parece demasiadamente sério para banalidades. Mas é preconceito meu (e dos bem palermas). Às tantas, 99,9% das vezes em que eu não percebo o que é que o cantor diz, ele até está a debitar grandes pensamentos.

Bom... que se lixe! Se a rapariga cheira bem, isso merece ser dito, que raio!

"Tu cheiras tão beeeem, tu cheiras tão beeeem. Eu acho-te tão booooa, tão booooa." - Olhó teledisco aqui!

Nas asas do amor

Segundo li hoje, uma agência de viagens a operar no nosso mercado está a organizar o primeiro evento de skydating (tem sempre mais pinta, em "estrangeiro") que, traduzido de forma livre, seria qualquer coisa como "engate aéreo" o que até estaria muito bem para o caso. E que raio é isto de skydating, perguntar-se-á toda a gente? É simples: pega-se num número igual de homens e mulheres (nesta primeiro evento não haverá lugar para sexualidades "alternativas"), põe-se o pessoal num avião e, durante a viagem até ao destino (que, neste caso será Viena), os moçoilos solitários andarão a passear pelo avião a "conversar" com as pequenas que, por o serem - i.e., meninas -, não terão de dar-se ao trabalho sequer de se levantarem do assento. Eles que vão ter com elas (e é se quiserem!). Cada "conversa" só poderá durar cinco minutos e, no fim, serão entregues à organização as notas dadas por cada um a quem tiverem entrevistado (ou por quem o tiverem sido).

Chegados a Viena, os solteirões passam uma noite lá e voltam na manhã seguinte. Dias depois, receberão em casa uma cartinha com os resultados da aventura, ou seja, com indicação de terem sido, ou não, abençoados com um par.

Parece que a coisa não está a andar mal pelo lado feminino mas, no que diz respeito aos machos, ainda faltam 14. Isto até se percebe: uma coisa destas levanta suspeitas. As raparigas serão mesmo clientes ou mulheres pagas pela organização? E, se forem clientes, quantas delas serão imigrantes à procura de um passaporte? Nos dias que correm, é a situação mais provável.

Mas, fica aqui a notícia para quem quiser tentar e pagar EUR 160 para ganhar asas e - quem sabe? -, encontrar a sua cara-metade, algures pelos céus da Europa. Poderão sempre, um dia mais tarde, dizer: "Lembras-te de quando nos conhecemos, amor? Vi-te em França, falei contigo na Suíça e apaixonei-me ao chegarmos à Áustria."

Se o seu par não lhe cai do céu, não desanime e suba aos céus à procura dele...

Corações ao alto...
apartheid canino

Andava eu a organizar as minhas fotos (tarefa hercúlea) quando deparei com uma bem engraçada tirada em Lausanne (Suíça) em Novembro de 2005.

Aparentemente, na bela cidade suíça (há alguma coisa que não seja bela naquele país?), existe uma atitude discriminatória relativamente aos cães de cor preta. Aqui, não se pode falar em raça porque há, por exemplo, Labradores de cor preta, amarela, castanha..., portanto, o problema das autoridades de Lausanne é mesmo a cor!

Se você tiver um cão preto, ele tem de andar de trela e no lado esquerdo do caminho (ou seja, no cimento). Se ele for branco, já pode andar sem trela e na relva fofinha. Como é que isto se pode admitir? E - pergunta-se -, a que regra estão sujeitos todos os cães que não caibam nesta visão maniqueísta de preto e branco?

Se isto se passasse na zona "alemã" da boa Helvécia, ainda se conseguia perceber (mas nunca aceitar). Agora, logo em Lausanne, a cidade tão intimamente ligada aos Jogos Olímpicos...

Pobres cães pretos de Lausanne...
canções de amor

"As canções de amor" (Les chansons d'amour) é o último filme do francês Christophe Honoré a estrear em Portugal e conta-nos a história de Ismaël, um jovem adulto que vive uma relação a três com a sua namorada Julie e a "convidada" Alice. Com a morte da primeira, o triângulo desfaz-se e Ismaël acaba por ceder aos encantos de Erwann, o jovem bretão irmão de Gwendal, o novo e efémero romance de Alice. Confuso? Desagradado? Não se preocupe.

Em "As canções de amor" o que menos importa é a história. O trunfo do filme está, precisamente, nas canções que lhe dão o nome. Canções que não são complementos do enredo, pedaços musicais enxertados na narrativa, mas sim parte do discurso das personagens - diálogos musicados, se assim quisermos pensar. E são belas estas canções da autoria de Alex Beaupain e interpretadas (e bem) pelos próprios actores. Entre as várias composições destacam-se "Au parc" (por Chiara Mastroianni) e "As-tu déjà aimé ?" (cantada em duo por Grégoire Leprince-Ringuet e Louis Garrel). Mas, apontar temas em particular implica uma injustiça óbvia, tal é a qualidade de toda a banda sonora.

"As canções de amor" pode ser visto como uma espécie de "Magnólia" em Francês. Entenda-se que o filme propriamente dito nunca poderia ser comparado com essa obra maior de Paul Thomas Anderson. Honoré não é aquilo a que se possa chamar um realizador brilhante e bastaria lembrar esse horrível "A mãe" para desfazer quaisquer dúvidas. Não, é ao nível musical que a película gaulesa ganha estatuto de destaque, com canções sensíveis, melodias ora de uma beleza triste, ora de uma jovialidade contagiante (ouça-se o par de temas acima indicados).

A cinematografia francesa não é fácil. Filmes como aquele de que aqui se fala podem contribuir para chamar público às salas. É certo que, no fim, são as músicas que dão vontade de o rever mas um filme é feito de imagem e som e as bandas sonoras têm de ser aceites não como um acrescento mas como algo que pode ser essencial ao prazer do espectáculo. Nesta fita, a banda sonora é o espectáculo.
presente envenenado

Inscrevi-me num curso de Alemão, no IEFP. Fi-lo por puro gosto pela sonoridade da língua. Não preciso, para nada, de saber falar o idioma de Goethe, Beckenbauer ou Hitler. A música dos Rammstein vale por si indiferentemente do que as letras possam dizer. Os livros de Günter Grass são traduzidos. O futebol fala-se com os pés. O Metal germânico é cantado em Inglês...

Mas a língua tem uma classe que poucas partilham e foi com alegria que vi que o Estado se propunha oferecer-me um curso de um mês de Alemão. Sim, a palavra é mesmo "oferecer" porque apenas tive de pagar uma inscrição de €5 (cinco euros)!

Cinco euros por um mês com 3 horas por dia de aulas, direito a dossier, bloco de notas, caneta, material de apoio, lugar de estacionamento e... uma professora bonita. :)

Ora aqui é que a porca torce o rabo. É que eu acho que todas as professoras deviam ser feias. Professoras como a minha são boas para a assiduidade (quem é que quer faltar às aulas?) mas péssimas para a concentração. Ver uma bela rapariga andar de um lado para o outro, ajeitando os cabelos, expondo ocasionalmente um longo e alvo pescoço, distribuindo sorrisos enquanto vai dizendo "sehr gut!" (muito bem) e ter de conseguir prestar atenção à gramática é coisa que se aproxima da tortura...

Quando a esmola é muita, o pobre desconfia. O Estado presenteia-me com um curso que se aproxima de inútil (como tantos) mas que assenta que nem uma luva nos meus gostos culturais para, logo a seguir, me sujeitar à provação que é passar três horas diárias a domar as hormonas: "Quietas! Deixem-me estudar em paz!".

O que sofre um homem solteiro... ou, em Alemão, "Ein fraulos Mann"

ÚLTIMA HORA: indica-me um anónimo comentador que o termo para solteiro é "ledig". Seja! "Ein ledig Mann" ;)
o celibato sai caro

Um recente artigo na internet, no habitual estilo "está tudo mal", versava sobre as dificuldades por que passam as famílias. E, como celibatário forçado que sou, ocorreu-me que a vida dos outros, os que têm como melhor amiga a mão direita, talvez não seja muito melhor...

Ser celibatário é uma condição cuja razão depende de cada um. Uns são-no por escolha, outros por falta de oportunidade para mudar, outros porque calha. Mas, se as razões que levam quem vive sozinho a estar (e continuar) nesse estado podem variar de pessoa para pessoa, o certo é que as consequências de se ser solteiro e desacompanhado poderão muito bem ser notadas na maior parte dos elementos deste "estado civil". De todas, destacam-se as de nível sexual e económico. Eis uma pequena lista:


- A prestação da casa (ou a renda) cai-nos toda em cima.
- Água, luz, gás: é tudo por nossa única conta.
- Se tivermos um acidente de automóvel nunca temos testemunha porque estamos sozinhos.
- Se quisermos ir de férias, pagamos mais por irmos sozinhos.
- No cinema, os pares pagam meio-bilhete; os solteiros pagam bilhete inteiro.
- No ginásio, não há descontos de família.
- Nos impostos, não há descontos nem ajudas.
- No restaurante, somos os tipos que estão a ocupar uma mesa para vários - ou somos mal atendidos ou temos de levar com a má cara dos grupos que chegam e não têm lugar.
- Não há sexo (a menos que se pague). Se for esta a escolha (as prostitutas), o celibato ainda nos sai mais caro.
- Comemos mal - ou porque não sabemos cozinhar ou porque não dá gosto cozinhar só para um.
- A lida da casa tem de ser feita por nós. Podemos arranjar uma empregada mas isso implica ainda mais despesa.
- Se gostamos de crianças, isso é de desconfiar...
- Se falamos de mulheres é porque somos uns mulherengos incorrigíveis.
- Se já temos uma certa idade, então, somos maricas.
- Se o dia nos corre mal, só nos resta desabafar com as paredes.
- Se o dia nos corre bem, não temos com quem partilhar a alegria.


A lista continuava mas já estou suficientemente deprimido...
Pobres casais, que têm tantas dificuldades...
andam atrás de mim!

Por vezes vem-me à cabeça (ao pensamento, i.e.) uma velha canção dos Guns n'Roses, "Out ta get me", cujo refrão era assim: "They're out ta get me, They won't catch me" (eles andam atrás de mim mas não vão apanhar-me). E acontece semelhante fenómeno quando me ocorrem situações como a de há pouco - consultar o saldo bancário.

O HolmesPlace fez o favor de aumentar a mensalidade que pago em cinco euros e qualquer coisinha pelo serviço de toalha. Era oferta mas não me disseram quando é que a dita acabava...
(sabem, no entanto, enviar SMS com convites para actividades...)
Temos portanto uma situação em que ando a pagar vinte e tal euros a mais do que os meus colegas de trabalho. Só porque sim.


O MillenniumBCP aumentou-me, uma vez mais, a prestação da casa, em qualquer coisa como vinte e cinco euros (é um empréstimo pequeno). Também não avisa. Resultado: saldo negativo, logo, ainda mais uma taxa de dez euros a pagar!
(o MillenniumBCP envia publicidade, cartinhas a untar os clientes, emails com aviso de saldo, etc. mas não avisa ninguém sobre o aumento das prestações - para quê? que importância é que isso tem?)


O portátil precisa de uma nova bateria. A que tinha está morta há muito, o que me faz o feliz possuidor de um "portátil de mesa". Só encontrei uma bateria igual numa empresa de vigaristas cá do burgo (que nem sequer respondem aos emails), numa marca com representação em França e Alemanha (que também não responde a emails) e num site da Formosa. Este vende o precioso artigo mas cobrar-me-á qualquer coisa como USD 130. E ainda há que contar com as taxas alfandegárias...


O popó começou a fazer birra quando se mete a marcha atrás. Um dia depois, faz birra com qualquer mudança. O popó (um Opel Corsa B de 2000, que eu uso muito pouco) é um chulo que, regularmente, e sempre nas piores alturas (em termos de dinheiro) faz questão de ter uma avaria qualquer (o que, no caso dos automóveis, implica sempre umas dezenas de contos de despesa).
Mas, apesar da sua chulice, o popó ainda me avisou, ainda me disse, numa noite, que estava a apetecer-lhe fazer birra, e eu insisti com ele no dia seguinte...
O popó acaba por ser um chulo simpático e que, de alguma forma, dá sempre pré-aviso de greve apesar de eu não o tratar bem: ando pouco com ele, não lhe dou banho, não lhe dou oportunidade de ver pornografia, não lhe digo coisinhas fofas...
Hoje vou deixá-lo à porta do mecânico (se conseguir chegar lá...). Fica de castigo no fim-de-semana. Depois, é a vez de ele se vingar.

Vistas bem as coisas, o chulo do popó (o carro, não eu) até é um tipo simpático: já me levou um dinheirão em reparações mas parece ter mais consideração por mim do que aqueles a quem eu pago atempadamente por serviços de prestígio ou a quem dou a particular alegria de ser cliente (a acreditar na última carta do MillenniumBCP).


"They're out ta get me, They won't catch me"

(pelo menos, por agora)
planeta agostini: aleluia!

Cantam os anjos no céu, tocam os sinos nas igrejas, rejubila a minha alma pela ventura de, finalmente, ter conseguido acabar a colecção de romances de Alexandre Dumas editada pela Planeta Agostini. Mais de um ano depois de o último volume (da reedição da colecção !!!) ter sido lançado, meses depois de começar com reclamações constantes com dezenas de emails enviados (nos quais acabou por ser necessário recorrer a coisas próximas do insulto), a PA forneceu-me o livrinho que faltava. Mas a coisa andou torta até ao último momento...

Tal como eu esperava e dei conta num texto anterior, a funcionária da PA que ficou de me avisar da chegada do livro anotou realmente mal o meu email e, em vez de X.Y entendeu X Ponte Y. Exactamente, no pacote deixado na portaria do edifício do Campo Pequeno lá estava escrito "Ponte" entre o meu nome e o apelido. Não há palavras...

Depois de receber o pacote (verificando que era o livro correcto) já nem me preocupei com pormenores como a qualidade de impressão, páginas em falta ou fosse lá o que fosse. Acobardei-me e guardei o precioso item na mala. Já cá cantava e a novela tinha acabado.

Fica a lição: produtos da Planeta Agostini, nunca mais!
planeta agostini: ainda não foi desta

Em Junho coloquei aqui um texto contando a minha aventura com a Planeta Agostini no sentido de conseguir acabar uma colecção de livros de Alexandre Dumas (veja aqui). Em Julho, escrevi mais um texto sobre a continuação do caso e eis que, agora, em Outubro, me vejo forçado a continuar a história...

No dia 3 de Outubro, após dezenas de mensagens enviadas, sou informado pelo apoio ao cliente de que o livro que me faltava já tinha chegado. Aparentemente, teria sido necessário ir buscá-lo a Espanha. Como eu fazia questão de ir buscar o livro às instalações da PA, como forma de me assegurar de que o volume chegado era o correcto - para além da PA não cobrar, à cabeça, mais um livro ao homem do quiosque -, fui, então, às instalações que ficam perto do Campo Pequeno (Lisboa). Isto foi no dia 8.

Ao chegar e dizer ao que vinha, a recepcionista manifestou algum espanto. Não tinha nada em meu nome... Consultou emails e percebeu a situação. O livro, o tão aguardado livro tinha ido para as instalações da PA mas... em Alcochete.

Aproveitei para dizer que com aquela empresa nada funcionava direito mas contive-me de expressar o que me ia, realmente, na alma.

A recepcionista propôs mandar vir o livro, de Alcochete para Lisboa e avisar-me de tal quando a encomenda chegasse. É justo, pensei eu. Pediu-me um contacto e dei-lhe o meu email que é na forma X.Y@gmail.com - Vi, claramente, a rapariga escrever xPONT?y@gmail.com (onde o ? é a minha dúvida sobre se teria sido PONTO ou PONTE...).
Chamei-lhe a atenção para o facto, que estava a escrever por extenso o ponto mas olhou para mim como se não estivesse a ver bem do que é que eu falava...

Portanto, neste momento, não sei se a PA me vai conseguir avisar da chegada do livro porque suspeito que nem o meu email conseguiram anotar bem.

E, quando o livro que devia ter vindo para Lisboa mas foi para Alcochete chegar, ao fim de muitos meses, ainda é preciso que seja, realmente, o que me falta e não mais um engano (o quarto, parece-me) da Planeta Agostini.
E, se o livro for o correcto, é necessário que venha em Português.
E, se o livro vier em Português, é preciso que esteja em boas condições.

Ou seja, tenho cá a impressão de que isto ainda vai durar...
Para já, ao fim de cinco dias, a encomenda ainda não aatravessou, sequer, o rio. Ou, se calhar, atravessou mas, lá está, o email não está bem...

Não há palavras!