Graças a deus pelo humor

Nunca tinha ido ao Mário Viegas. Refiro-me ao Teatro, aquele que fica na “cave” do Teatro Municipal de São Luiz, em pleno Chiado. Após muitos anos, chegou, finalmente, a vez de ir ver actuar a companhia residente, responsável pela manutenção em cartaz há mais de uma década desse êxito que é “Toda a obra de Shakespeare em 90 minutos”. Curiosamente, não foi esta a peça que fui ver mas sim a mais recente da casa, de seu nome "A Bíblia: Toda a Palavra de Deus (Sintetizada)".
Durante cerca de três horas, o público que enchia a pequena sala (o meu bilhete foi o último a ser vendido), foi brindado com uma dose absolutamente cavalar de humor, onde as maxilas de quem lá estava poucos momentos tiverem para descansar. Ao fim de poucos minutos, uma dor já me tomava conta da cara, tornando, por vezes, o soltar das gargalhadas uma coisa difícil. Mas muito mais difícil ainda seria deixar de rir com as interpretações do trio em palco e com o texto que interpretavam.
Para quem não saiba, a peça em questão pretende dar-nos a conhecer uma versão cómica de TODA a Bíblia - o que não é coisa pouca. E fá-lo recorrendo às piadas, à farsa, ao travesti, à música, à interacção com o público, gerando momentos após momentos onde só há uma coisa a fazer: rir!
Em boa verdade digo que nunca me tinha rido tanto e que os vinte euros que paguei pela entrada foram merecidos até ao último cêntimo (ia escrever tostão...).

Desconheço se esta companhia teatral está abrangida pela “perversa” política de subsídios à cultura. Não me parece que tenha necessidade da ajuda estatal, a avaliar pela afluência de público. Mas, apetece dizer que este tipo de espectáculos, precisamente estes, mereciam, acima de todos, serem premiados e incentivados pelos poderes públicos, quanto mais não fosse pela sua capacidade para levar uma imensa alegria a todos os que os frequentam. Ir ao Teatro faz bem ao espírito. Ir ver a Companhia Teatral do Chiado faz bem à saúde! :)

Quer divertir-se? Quer divertir-se mesmo muito? Meta-se a caminho da Baixa e vá ver A "A Bíblia: Toda a Palavra de Deus (Sintetizada)".

Assim não!

Não sou um consumidor do tipo “exigente”, i.e., que espera serviços absolutamente impecáveis em troca do que paga. A concepção “moderna” de exigência chateia-me até porque, também eu, enquanto executante, não sou isento de mácula e tendo a ter com os outros a mesma paciência que espero que tenham comigo quando eu falho. Ainda assim, casos há em que apetece dar um murro na mesa tamanha é a desconsideração que por vezes se enfrenta. Neste Domingo (2007/12/16), no cinema Monumental, a bilheteira tardou a abrir. Nada do outro mundo diria eu: qualquer pessoa pode ter um contratempo e se a moça responsável pela venda de bilhetes não conseguiu chegar a tempo, paciência: o mundo não acaba por isso. Já da parte dos responsáveis pelas salas, será de perguntar se não seria de ter alguém capaz de, numa situação semelhante, dar uma mãozinha na venda dos bilhetes, sobretudo quando está uma sessão a começar e há várias pessoas à espera! Nunca lhes deve ter passado pela cabeça que a bilheteira (no caso, a vendedora de bilhetes) possa não chegar a horas...
Bom, mas isto não foi o pior. Como escrevi antes, sou tolerante com as falhas. Mas não com as faltas de respeito. É que, apesar do atraso na abertura da bilheteira, apesar de ser a primeira sessão do dia, apesar de – entre as sessões -, haver intervalos, apesar de haver várias pessoas a comprar bilhete para ver um filme, este começou a ser exibido exactamente à mesma hora, levando a que os primeiros a entrarem na sala (entre os quais, eu) perdessem nada mais, nada menos do que cinco a oito minutos do filme!!! (sim, porque, para variar mesmo, até nem houve a habitual exibição de 12 minutos de publicidade...).
Que explicação pode haver para isto? Nenhuma, parece-me...

Um consumidor exigente teria pedido o livro de reclamações e, aqui, “exigente” não seria sinónimo de picuinhas ou embirante mas tão-só de responsável. Porque reclamar é um acto de responsabilidade civil, por vezes, algo que pode fazer a diferença na melhoria dos serviços que nos prestam.

Pequei por não o fazer. Primeiro, porque queria ver um filme (e só após entrar na sala é que pude ver que me tinham roubado uma parte dele) e, depois da fita, porque estava ainda combalido pela falta de piada do “A história de uma abelha”, da responsabilidade de Seinfeld, um cómico americano universalmente idolatrado mas pelo qual eu, estranhamente (?), nunca consegui sentir qualquer simpatia ou achar qualquer piada. Coisas...

Males que vêm por bem

Tinha um bilhete comprado para ver os franceses Nouvelle Vague na Aula Magna, em Lisboa. À última da hora, um compromisso de trabalho "atirou-me" para o Norte, mais precisamente para Braga. Duas semanas depos de lá ter estado em férias, eis que visito novamente a cidade dos arcebispos. Esperei mais de 30 anos para lá ir mas, agora, parece que vou ser cliente habitual...

Bom, deu-se a feliz coincidência de os NV tocarem na cidade-berço (bonito nome para a belíssima Guimarães) e de eu até ter ficado hospedado nesta mesma cidade no dia do espectáculo. Por vezes (é raro, bem sei) as coisas acabam por correr como queremos. E, neste caso, tudo saiu certo.

A sala vimaranense São Mamede é um belo local, recentemente renovado (parece que tinha reaberto na noite anterior), confortável, bem decorada (até as casas de banho têm design...) e com uma acústica mais do que razoável. O único senão foi mesmo a localização do meu lugar: a segunda fila do segundo balcão. À frente há uns ferros de protecção que atrapalham um pouco a vista mas, sobretudo, é o facto (natural) de as pessoas que estão à frente se curvarem para melhor verem o palco que pode tornar um óptimo espectáculo em algo que, pura e simplesmente, não se vê. A quem lá for, aconselho vivamente a não se sentar antes da terceira ou quarta filas.
Apesar de tudo, consegui ver razoavelmente o palco (apenas "perdendo" a parte mais à minha esquerda).

Quanto ao concerto, foi excelente! Só conhecia o primeiro álbum dos Nouvelle Vague (um dos últimos CD's que comprei - ao tempo...) e, a partir daí, tinha ficado com a lembrança da sonoridade mas não o conhecimento dos novos temas.
A banda tocou muito bem, o público reagiu optimamente, houve momentos engraçados, outros a raiar o sublime e, no fim, toda a gente terá saído contente e com a sensação de ter assistido a um daqueles momentos que teimarão em não se perder nas memórias breves.

A repetir? Sem qualquer dúvida: em Lisboa, Guimarães, ou qualquer outro lugar.

Há males que vêm por bem e ter perdido a gravação do álbum ao vivo na Aula Magna apenas serviu para conhecer uma sala tão distante da Cidade Universitária quanto está o encanto de Guimarães da confusão e pretenciosismo da capital.

Ainda picam!

Ontem, o Pavilhão Atlântico encheu-se para ver os Scorpions, a banda alemã (agora com um baixista polaco e um baterista americano... coisas da globalização), velha de mais de 30 anos mas ainda para as curvas. Foi a quarta vez que os vi e, tal como das outras vezes, fiquei a pensar quantas das pessoas presentes estariam ali por causa das baladas (que temos de aceitar serem a imagem de marca da banda) e quantas estariam por isso e tudo o resto. É que, no caso dos primeiros, um concerto dos Scorpions pode, rapidamente, virar uma desilusão. As baladas (entre as quais, esse "ícone" que é "Still loving you") foram a maneira (involuntária a princípio, assumida posteriormente?) que os Scorpions encontraram de passar na rádio, de vencer o preconceito contra o Hard Rock e dessa forma chegar a um público maior. Mas a banda de Hannover não esquece (e nunca o tentou fazer) que é um portento do rock. Ainda assim, num acto de louvável honestidade (que contrasta com a atitude "arrogante" de outros artistas) os Scorpions tentam agradar a todos e lá debitam as baladas que lhes deram a merecida fama fora dos muros da música pesada. Mas, no resto do concerto... aí, é sempre a abrir! E é nessa altura que os fans mais antigos se lembram de como eram grandes os anos 80 no que diz respeito ao Hardn'n'Heavy. O quarteto de álbuns composto por "Blackout", "Love at first sting", "Animal magnetism" e "Lovedrive", que culminou no disco ao vivo "World wide live" (sim... e o "Gold ballads") é um marco em qualquer história que se faça da música popular europeia na sua vertente um pouco mais dura.

O espectáculo de ontem foi o costume: competente e feito para agradar a todos os que lá estavam. Klaus Meine distribuiu baquetes às dezenas (!) pela fila da frente (não se esforçava por ir mais além), os guitarristas atiravam palhetas como quem semeia pequenas recordações no público e este, naturalmente, gostava de ouvir os "muito obrigado" ou "como estão?" frequentes. No fim, fica uma noite bem passada, com momentos românticos (ó enjôo - aqueles casais que se agarram mal as baladas começam para imediatamente se largarem quando elas acabam), ritmos pesados (Dynamite!!!) e muita energia.

Como único senão, o "intervalo" a meio para um secante solo de bateria. Antes, o baixista tinha dado um ar da sua graça com uma pequena interpretação de "Enter sandman" (Metallica). São os elementos mais novos mas, sobretudo, mais jovens, ainda com físico para não precisarem de descansar a meio do espectáculo. Compreende-se mas não deixa de ser uma seca.

Humilhação sexual

Antes de colocar este texto no ar pensei bastante sobre ele. Não que tivesse dúvidas quanto à oportunidade do mesmo mas mais pela forma como o deveria apresentar. Optei por fazê-lo de uma forma fria, quiçá chocante, mas concerteza mais eficaz.

A foto que se vê ao lado foi retirada do site Ghetto Gaggers e ilustra um pequeno vídeo de pornografia inter-racial onde uma mulher mantém relações sexuais com um homem. Até aqui nada há de novo no gigantesco mundo da pornografia e serei o último a criticar a existência e propagação de conteúdos sexuais online. O que me moveu a escrever foi o olhar da rapariga, o vazio que se sente nele, o abandono de um corpo à humilhação pública (porque estas coisas são feitas para serem vistas pelo maior número de pessoas) a troco de alguns trocos que vão servir sabe-se lá para quê... droga? alimentação? luxos? Pouco me importa, sinceramente.

Ao contrário do que é comum nos conteúdos para maiores de 18, aqui não há uma beldade sorridente e de ar lascivo fazendo o seu trabalho de forma desinibida. Não, aqui há apenas um ser humano sendo humilhado em nome da excitação sexual que tal acto provoca em quem o vê. Todo o vídeo serve unicamente para isso: mostrar alguém a ser usado como um pedaço de carne anónimo, uma coisa que se usa e deita fora, uma queca sem qualquer valor.

No fim, a rapariga é brindada (por um segundo homem) com a clássica ejaculação para a cara e é precisamente neste momento que melhor nos apercebemos da ausência no seu olhar. Distante... apagado... mesmo quando olha para nós (ou através de nós).

Já vi muito na internet, já vi coisas capazes de revolver o estômago ao cidadão médio mas a cara desta mulher meteu-me pena, mesmo tendo quase a certeza de que ninguém a obrigou a entrar ali, mesmo sabendo que ela é livre de se deixar humilhar.

Ainda assim...

Se quiser ver o vídeo carregue no link seguinte (mas fica avisado de que vai ver pornografia...): Ver o vídeo

Dar ao couro pelos outros

Passei o que seria um feriado (se não fosse num Sábado) a trabalhar no Banco Alimentar. Por esta altura costumam fazer uma campanha de recolha de alimentos e, deste vez, resolvi trabalhar pelo lugarzinho no céu, oferecendo-me como voluntário para trabalho de armazém.

Lá compareci na Av. de Ceuta, às 11:00, pronto para dar o meu melhor por quem ainda pode vir a assaltar-me (eh... que frase reaccionária). À chegada, foi-me dado um formulário por uma senhora com um ar um pouco enjoado. Preenchi-o e entreguei-o a outra senhora com um ar um pouco menos enjoado. Deixadas as coisas no contentor que servia de bengaleiro, lá me fiz ao trabalho. O armazém de recolha e triagem estava cheio de gente, sobretudo adolescentes e imediatamente percebi que se não tivesse lá posto os pés ninguém ia sentir a minha falta. Fiquei um pouco desanimado mas entretive-me com a primeira tarefa do dia: abrir sacos de plástico. Terminada essa tarefa e chegados os alimentos, passou-se à triagem dos mesmos. A mim coube-me inicialmente a mesa do arroz. Umas miúdas tiravam da passadeira embalagens de arroz, juntavam-nas aos grupos de seis e eu e uma mulher arrumávamo-las numa grade. Deu para por à prova o corpinho.

Chegada a hora do almoço, lá me fui alimentar: uma espécie de puré de bacalhau (saboroso) com um pouco de alface. Para beber, um sumo. Como sobremesa, limitei-me a um café e a um biscoito. Outros se deleitavam a fazer colecção de bolos...

À tarde, fui tirar coisas da passadeira e passá-las para uma mesa. Trabalho maquinal, em grande velocidade, extremamente cansativo mas que me deu gozo (hoje, estou todo partido, como paga pela minha "solidariedade"). Tudo quanto fosse embalagem de feijão, grão e coisas quejandas, secas, era para ser embalado na minha mesa. Depois do lanche, fiquei com o encaixotamento e já não com a triagem (o que deu para descansar um pouco..).

Às 20:00, cansado e farto, abalei. Não tive paciência para aguardar pelo jantar.

Gostei? Não me fez mal nenhum e de certeza que ajudei bastante. Não fiz nenhuma diferença mas trabalhei concerteza muitíssimo mais do que muito do pessoal que por lá andava encostado às paredes. Não tivesse ficado todo partido (alguma vez terei trabalhado tanto?) e teria voltado hoje.

Para o ano que vem, talvez volte. E voltarão um pouquinho mais crescidos muitos dos miúdos que por lá vi, escoteiros ou não e que não deixam de nos fazer pensar que nem todos os adolescentes são necessariamente uns imbecis egoístas. Ainda bem que assim é.

Finalmente, uma pequena nota: não foi possível passar ao lado da ironia que foi, no 1º de Dezembro, ter levado com uma dose cavalar de música cantada em castelhano passada pelo disc jockey de serviço - Enrique Iglesias, Azucar Moreno, Manu Chao, Heroes del Silencio, Ricky Martin, Alejandro Sanz, Gipsy Kings e outros...

O 1º de Dezembro

Para os mais distraídos, amanhã, Sábado, dia 1 de Dezembro é feriado nacional. Não será coisa que se note muito tendo em conta a infeliz coincidência de calhar a um fim-de-semana a comemoração deste dia de boa memória. Também não se pode contar com a comunicação social ou mesmo com os poderes instituídos para avivar as consciências ou educar os ignorantes. Convenhamos, ninguém quer saber para nada do 1º de Dezembro. Mas é pena...

Em 1 de Dezembro do ano da graça de 1640 houve uma revolta em Lisboa com um objectivo muito claro: terminar com a sujeição da coroa portuguesa à dinastia filipina com sede em Madrid. Para isso, seria preciso substituir Filipe III (IV de Espanha) pelo Duque de Bragança, João de seu nome que, curiosamente, era casado com uma espanhola.
Diz-se que o futuro D. João IV não estava muito inclinado a deixar o seu palácio de Vila Viçosa (visita a não perder) e a aventurar-se na "conquista" do trono português. Diz-se também que foi a sua mulher que o convenceu alegando que mais valia ser rainha por um dia do que duquesa toda a vida. Onde acaba a lenda e começa a realidade?

A data da Restauração da Independência - que deu nome à Praça dos Restauradores e à Rua 1º de Dezembro (ambas em Lisboa) -, foi alvo, ao longo dos tempos, de apropriação por parte dos sectores mais conservadores e nacionalistas da nossa sociedade, tendo com isso sido inculcadas no imaginário popular diversas ideias que não correspondem à realidade mas que foram sendo passadas como forma de fortalecer um patriotismo sempre débil no nosso povo e ainda mais nas classes dirigentes. Salazar e o Estado Novo souberam tirar bom partido da data, a 1ª República também e ainda me lembro de uma célebre manifestação quando eu era criança, organizada pela jornalista Vera Lagoa, então directora do semanário "O Diabo", periódico semi-oficial da direita nacional. Estabelecida a democracia, a data começou a perder fulgor resumindo-se hoje ao feriado, e a uma ou duas sessões solenes frequentadas por velhotes serôdios. Para o regime actual, empenhadíssimo na construção europeia e na integração comercial com Espanha, a comemoração do 1º de Dezembro é um fardo que a história nos deixou, um sinal feio que tentamos esconder puxando a manga da camisa.

Mas, independentemente das cores que os tempos actuais queiram dar à História, ela existe e deve ser conhecida. A Restauração é um período fascinante do nosso passado colectivo, algo que vai muito mais além do que o dia que se comemora. A guerra com Espanha, intermitente e de baixa intensidade (ao contrário do que se costuma contar) , durou 28 anos e traduziu-se numa série de vitórias portuguesas possíveis pelo brio dos nossos militares, pela força que tem quem luta por uma causa justa, pela conjugação de interesses políticos internacionais, pela decadência do Império Espanhol e das suas finanças (com a involuntária colaboração dos traidores portugueses a viverem em Espanha, autênticas sanguessugas do erário público castelhano), e por um constante e muitas vezes humilhante jogo de cintura que o nosso país teve de utilizar.

Espanha sempre pensou que a qualquer momento poderia reconduzir ao rebanho a ovelha tresmalhada e foi-se ocupando de outras rezes rebeldes (a Catalunha, os Países Baixos), afundando-se em guerras intermináveis e custosas em vidas e dinheiro, sempre mais enfraquecida pelo conflito com Portugal, Inglaterra, França, Holanda...
A Portugal coube aproveitar as rivalidades, ir recuperando e cimentando posições, umas vezes pela força das armas, outras pela via diplomática, outras aindas pagando para recuperar o que tinha sido seu (um pouco conhecido negócio com os Holandeses, a propósito do Brasil) e ir esperando os momentos em que Filipe IV de Espanha e a sua alma danada, Olivares, se viravam (sem êxito) contra o nosso território.

A versão "oficial" dos acontecimentos diz-nos que houve 40 conjurados, todos grandes patriotas, que se reuniam perto do Rossio, para preparar o plano de ataque ao poder. Não eram 40, nem eram grandes patriotas. Eram herdeiros da mesma nobreza que em 1580 se tinha vendido a Filipe II de Espanha, originando a sua célebre frase "Portugal é meu por direito: herdei-o, conquistei-o, comprei-o". O que se passou foi que, ao juntarem-se as duas coroas, os nobres portugueses passaram a ter obrigações para com a Coroa Espanhola (esqueçamos o pormenor formal da separação dos negócios dos reinos) e os conflitos que esta mantinha com todas as nações. Ao fim de 60 anos, a nobreza estava cansada e não se sentia recompensada. Foi, portanto, o interesse que fez com que os poderosos se mexessem e não a glória do Reino.

Quanto ao Duque de Bragança, sempre se tinha sentido mais inclinado para a música do que para a política e era conhecida e famosa a sua colecção de livros e instrumentos musicais que se perdeu aquando do terramoto de 1755. Também era compositor e há quem defenda a tese de que o tema Adeste Fideles (que é uma das peças musicais fundamentais em qualquer celebração natalícia à face da terra) é da sua autoria. Você sabia disso? Provavelmente, não.

E o povo? Que pensava o povo de tudo isto? É costume dizer-se que o povo queria um soberano português, que odiava o "traidor" Miguel de Vasconcelos (o defenestrado) que respondia perante a Duquesa de Mântua, delegada da coroa. Mas... seria isto verdade?
De uma forma geral, sim. O povo era mais "patriota" do que aqueles que detinham algum poder (os nobres, os financeiros judeus, os burgueses) mas mesmo aqui a História reserva-nos algumas surpresas como seja saber que a população de São Paulo (Brasil) ofereceu vassalagem à coroa espanhola para garantir a continuação do comércio com a América espanhola...


Ler História é ser constantemente agredido com a verdade. No caso, tive oportunidade de, recentemente, ler um excelente livro escrito pelo historiador espanhol Rafael Valladares, obra justa, honesta, que analisa com frieza o enquadramento histórico da Restauração, não cedendo a patriotismos de nenhum lado da fronteira e possibilitando-nos o contacto com uma realidade muito diferente da versão gloriosa que nos foi ensinada quando ainda se ensinava o que era o 1º de Dezembro.

Em 1640, pos-se fim à catástrofe que foram os 60 anos de dominação estrangeira. Não nos devemos esquecer que a perda da independência nacional só foi possível graças às loucuras de D. Sebastião, à posterior incapacidade para aguentar o barco por parte de D. Henrique, ao colaboracionismo dos poderosos e ao baixar dos braços por parte de quem se opunha à situação.
Portugal, enquanto país, pouco ou nada ganhou com a união das coroas. É certo que no Brasil, os bandeirantes aproveitaram a situação para empurrar para ocidente as fronteiras da colónia, fazendo tábua rasa de Tordesilhas mas, no resto do mundo, o Império Português foi estraçalhado por Ingleses e Holandeses. E já que se fala de desastres, convém lembrar que na Invencível Armada, essa louca aventura de Filipe I, pereceram milhares de compatriotas nossos e afundaram-se muitos dos nossos melhores navios. Não tinhamos nada contra a Inglaterra mas éramos obrigados a alinhar na campanha e pagámos bem caro por isso.

A História é uma lição e, como se costuma dizer, é uma "velha senhora que se repete sem cessar". O período pós-Alcácer-Quibir, a dominação filipina, a Restauração, são enormes avisos do que pode custar a um povo o não saber ser senhor de si mesmo e traçar o seu próprio caminho. Ninguém nos guia se quisermos ser cegos.

Alguém está - ainda -, interessado em perceber isto?
lá nos safámos...

Certo, a imagem que acompanha este texto é um bocado para o chulento (embora não desprovida de uma certa beleza simples) mas preferi-a a colocar aqui a cara de qualquer um dos jogadores na nossa Selecção Nacional (e muito menos alguém da equipa técnica). Eu "ispilico" (lembram-se do Chinesinho Limpopó?): eu queria ir ver a Selecção jogar a Leiria e, depois, ao Porto. Os dois jogos serviam como pretexto para uma semaninha de férias e um belo passeio pelo centro-norte da santa terrinha. Como quis comprar os dois bilhetes de uma só vez (manias) já só consegui para o jogo no Dragão. Há males que vêm por bem e isso permitiu-me alterar (com enorme vantagem) a minha rota. Fiquei sem conhecer (detalhadamente) Leiria mas poupei-me a uma chuchadeira de jogo. Vi-o sentado num café na Guarda, tentando aquecer as mãos geladas com um galão. Ganhámos, apesar de tudo e não me senti prejudicado.
O mal, bom, o mal foi o jogo no Porto. É que ir da Guarda ao Porto não é, propriamente, um passeio simples. Sobretudo quando se anda a cirandar e se dá conta de que a partida começa uma hora e tal mais cedo do que se julga. É prego a fundo numa autoestrada monte-acima, monte-abaixo, pelo meio do nevoeiro, sob chuva, com paisagens que, às vezes, "metem respeito", chegar ao Porto, andar às voltas, arranjar um lugar para deixar o carro, descobrir onde passa o Metro (aquele que parece um dos nossos eléctricos para Belém), esperar na bicha para os bilhetes, esperar que passe um comboio onde consigamos um espacinho muito apertadinho onde caibamos, chegar ao estádio, andar a correr feito parvo à procura do quiosque da Federação para levantar os bilhetes comprados na internet (não... não os dão na bilheteira - é estúpido, certo?), ir a correr para o estádio e chegar ao assento quando o hino já estava a ser cantado para, no fim, assistir a mais uma merdelosa exibição dos nossos "bravos" que dão tudo pelo seu país, que adoram o público, que amam a bandeira e sei lá que mais patacoadas que nos querem impingir... Bom, no fim da partida eu nem consegui comemorar. Aliás, muita gente sorria e não ia além disso. Não se esperava outra coisa desta equipa (que ainda podia ter ficado em primeiro lugar no grupo - se tivesse ganho) e a verdade é que a mediocridade foi o tom constante na "equipa de todos nós".

Scolari mostrou-se "irritado" com o facto de se apontar à equipa as péssimas exibições mas não tem razão. Compreende-se que o faça como defesa do seu trabalho mas isso não nos pode fazer calar. A Selecção está uma lástima! Pela primeira vez não senti absolutamente nada ao ver o meu "clube" apurar-se para uma competição. É certo que já começo a ganhar calo dado o bom desempenho da Selecção na era Madaíl mas, ainda assim, eu queria mais do que o apuramento - queria a excitação da vitória, a alegria de gritar golo, o orgulho na nossa superioridade dentro de campo. Não tive nada disso. Nem eu, nem milhões. Será que estamos todos errados?

Espero agora que alguém faça o favor de dar um abraço de despedida a Scolari. O Campeonato da Europa vem aí e já chega de más figuras.

Da Vinci na Invicta

Voltado de umas curtas férias (esqueci-me de deixar aqui um aviso para vos fazer inveja), apetece-me partilhar a última coisinha agradável que me aconteceu: a visita à exposição "Leonardo da Vinci - O Génio" que está no Palácio de Cristal (ou Pavilhão Rosa Mota), na cidade do Porto.

Debruça-se a exposição sobre a faceta inventiva deste génio toscano do Séc. XV, com inúmeras maquetes de máquinas e, também, vários aparelhos à escala 1:1, sendo ainda possível interagir com um reduzido número dos ditos.

Já muitas vezes disse aqui mal do MillenniumBCP a propósito de campanhas publicitárias palermas mas, desta vez, elogio o banco nacional: não só patrocina a mostra como também oferece a entrada (carota: EUR 4,5) a quem possua qualquer uma das milhentas versões de cartões de crédito que o grupo disponibiliza. Convenhamos que é paga pouca pelo que me tiram mensalmente mas não deixa de ser simpático.

A exposição não é uma maravilha: vários dos aparelhos com os quais se pode interagir deixam-nos sem perceber exactamente o que fazer (se é que se pode fazer alguma coisa com eles) mas é suficientemente interessante para despertar em muitos a curiosidade em relação a esse super-homem que foi daVinci. Para aqueles que já tiveram oportunidade de admirar algumas das suas obras ou ler sobre a sua vida, o interesse residirá unicamente na possibilidade de ver materializadas algumas das descobertas mecânicas daquele.

Não posso dizer que valha a pena alguém fazer-se à estrada expressamente para ver a exposição de que aqui se fala mas, se estiver de passagem pelo Porto ou viver nos "arredores", então, não hesite e vá ao Palácio de Cristal. Se tiver crianças, elas ainda podem entreter-se num ateliê de desenho no fim do circuito.

Que agradável seria que esta exposição também viesse à cidade das sete colinas...

Os fantasminhas

A imagem que acompanha este texto é de, nada mais, nada menos, que uma folha de papel higiénico. Não se trata de um daqueles casos em que já não há nada mais sobre que falar e nos viramos para questões escatológicas, sempre fáceis de abordar, mas sim de um genuíno espanto ao verificar a existência das simpáticas criaturinhas na superfície das folhas às quais tenho vindo a limpar o meu [a cada um o seu adjectivo] traseiro.

É verdade. Eu nunca tinha reparado nos fantasminhas sorridentes de todas as vezes que me limpei. Pode-se argumentar que nessas situações, o aspecto do papel pouco importa e é a sua suavidade que se torna crucial para uma operação agradável. Mas agora penso de outra forma. E, pelos vistos, na Renova também. Eu não sei se estes fantasmas são da família do outro, do que andava pelas lixeiras vestido de latex, se sofrem de uma qualquer perversão de carácter, se ignoram, pura e simplesmente, o que os espera quando os desenrolamos (ah doidos, todos ali ao molho!)... não sei nem me importa. No entanto, a partir de agora, cada vez que obrar vou olhar para eles de outra forma, tendo pena pelo trabalho de merda que têm mas, ao mesmo tempo, sorrindo-lhes de volta antes de lhes esfregar a cara no meu dito cujo.