Birrinhas de jarreteira

Quando era pequeno andei nos Lobitos. Para quem não saiba, é a primeira categoria de escuteiro. Saí dos Lobitos porque tinha ultrapassado a idade limite e não continuei porque já estava um bocado farto daquilo e de algumas personagens minhas colegas na "alcateia" da Igreja de São Sebastião, em Lisboa. Mas, enquanto lá andei, gostei. Afinal de contas, passávamos o tempo a jogar à apanhada no pátio, esperando pelo começo das reuniões e, nestas, tudo acabava por, à sua maneira, ser também uma brincadeira. Também nos fardávamos e usávamos uma boina o que, pelo seu ar marcial, compensava as ridículas meias com jarreteiras que enfeitavam as nossas perninhas, sempre ao léu, fizesse chuva ou sol, frio ou calor.
Ao Domingo, quando nos fardávamos, tinhamos de ir enfeitar o altar da Igreja com a nossa cândida presença e gramar a missa de uma ponta à outra.
Poucas vezes tive actividades ao ar livre mas, ainda assim, diverti-me q.b.

Dito isto, ou seja, que andei nos escuteiros e que gostei da coisa, acrescento que, caso o destino fizesse de mim pai, igualmente poria um filho na mesma organização, com a ressalva de que o encaminharia para uns escuteiros "não-religiosos". E isto não por julgar que a Igreja influencia os escutas (está bem, está...) mas para poupar a criança às enormes secas dominicais que apanhei.

Foi, portanto, com espanto que soube da "campanha" movida pelos escuteiros contra a loja de electrodomésticos MediaMarkt por causa de uma bem divertida campanha publicitária onde um grupo de representantes de um imaginário país (de Leste) passeia a sua parvoíce por um estabelecimento da marca. A ideia é que, por serem parvos, não conhecem os bons preços do MediaMarkt. Do grupo de "cidadões" (é uma piada, não é um erro ortográfico...) faz parte um militar, um escuteiro, uma "miss" de beleza e, nalguns casos, um quarto elemento que representa um político :)
Bom, todos eles são parvos e fazem figuras tristes. Todos eles são, de uma qualquer forma, cómicos.

A campanha, que abrange os diversos meios de comunicação social, tem, para mim, a sua parte mais engraçada no anúncio radiofónico onde o hino da Parvónia é cantado e "traduzido" em voz off, numa perfeita imitação das coberturas de actos oficiais. Mas não foi isto que deu brado.

O que deu "raia" foi que os escuteiros (ou quem neles manda) resolveu sentir-se ofendido pela representação do seu colega "parvo" e pela caracterização que é feita da espécie escutista. E eis que, num gesto de indignação, as "organizações" se levantaram e chegaram inclusivamente a ameaçar o MediaMarkt com o recurso aos tribunais caso a campanha prosseguisse. Porque isto e porque aquilo...
O MediaMarkt acabou por anunciar a retirada do escuteiro da campanha (que ainda está no ar, diga-se...).

Eu acho mal que o escuteiro tenha sido expulso da comitiva da Parvónia. Se calhar, acharam que, até para Parvo, era um mau exemplo. (ah, ah, ah)

Bom, que dizer de tudo isto? Desde logo, que é um bocado assustador que uma organização (seja ela qual for) demonstre tamanha falta de calo para o humor (arrojado, é certo) e, que com ameaças, consiga vergar uma empresa que, mal ou bem, não está a fazer pior do que muitas outras.
Depois, isto faz-me lembrar o célebre caso das caricaturas de Maomé. Ainda há poucos dias as autoridades dinamarquesas anunciaram a prisão de um grupo de indivíduos que se preparava para assassinar o autor dos desenhos. Se pensarmos bem, o islamismo é qualquer coisa de imensamente mais importante do que o CNE. Ora, se os escuteiros têm o direito de usar de ameaças para dar largas à sua indignação, por uma questão de proporção, os muçulmanos terão a sua razão no que fazem, não é? Não, não é. Mas até parece que sim.

Se olharmos para a publicidade do MediaMarkt, poderemos ver que ela é "ofensiva" para: cidadãos de leste, militares, escuteiros, e mulheres concorrentes a concursos de beleza. No entanto, só os escuteiros se incomodaram... Só os escuteiros sentiram dentro de si o apelo da virgem ofendida. É mau, muito mau mesmo, que estes vendedores de calendários optem por uma forma de estar tão rígida, tão bafienta.

Os escuteiros, independentemente das qualidades que possam possuir, tiveram na sua origem princípios que serão desconhecidos até da maior parte deles. Também eu fui doutrinado pensando que Badden-Powel havia criado a organização por amor à juventude e a um mundo melhor. A verdade é que o militar britânico fê-lo como resposta a organizações semelhantes (i.e., para-militares) que se formavam na Alemanha e que ameaçavam conferir uma preparação ao inimigo que colocaria a juventude inglesa (e, consequentemente, o país) em desvantagem. Como se vê, algo de bem diferente do que se pensa...

O MediaMarkt portou-se mal porque abriu um precedente ao ceder à chantagem dos escuteiros. Doravante, o que impede outros grupos de fazerem o mesmo? Seria muito bom ver o caso ir a tribunal e assistir a uma sentença a desfavor dos "ofendidos". É certo que, por cá, nunca se sabe o que o juiz de serviço poderá fazer mas, ainda assim, haveria que confiar na hipótese de ser alguém de bom-senso.

Vem-me à lembrança, quando era adolescente, o caso ocorrido com o actor João Grosso que (julgo), ainda foi parar a tribunal por cantar, num programa televisivo juvenil, o hino nacional com a letra alterada. Ainda há duas semanas, no S. Luiz, na peça "Evil machines" (de Terry Jones, dos Monty Python), uma parte do hino britânico era cantada (com letra alterada, claro), por um aspirador. Nada que choque os ingleses (que até nem respeitam NADA as instituições). É a diferença entre saber estar e fazer birrinhas de quem anda de meias com jarreteira...

Uma foto da "província"

Estava a ler um texto no Portugal Diário acerca das declarações de um responsável governamental sobre o "provincianismo" dos meios de comunicação social portuenses (ideia com a qual concordo) e lembrei-me da minha última passagem pela "província". Fica aqui uma foto (uma de entre muitas) da Invicta, tirada a partir da esplanada do Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia.
Coisa "mai" linda!...

As outras estão aqui


P.S. - antes que os exaltados do costume comecem a enviar comentários insultuosos, vejam lá se reparam que "província" está entre aspas... estão a ver, estão? E o "provincianismo" que daqui se fala tem a ver com a insistência em temas regionais por oposição aos assuntos de carácter nacional, percebem? Não quer dizer que vocês sejam tolinhos ou menos do que os outros, está bem? Pronto...

Alugue um amigo

Assim, à primeira vista, o título poderá parecer esquisito. Um amigo não se aluga. Um amigo é algo que contamos ter de graça. E isto é verdade. Mas, há amigos que só podem vir ter connosco se alguém cuidar deles primeiro. É o caso dos animais pertença da empresa americana Flexpetz que parece ter descoberto (ou não) mais um ovo de Colombo: o aluguer de animais. Se você gosta de cães mas não tem vida para ter um em casa, então, pode ser dono de um "quatro patas" em regime de "time sharing". Exactamente!

A Flexpetz recolheu da rua um conjunto de cães, tratou-os, treinou-os e, agora, disponibiliza-os para que quem queira possa ser co-dono dos bichos. Paga-se uma mensalidade e, com isso, ganha-se o direito de passar um certo tempo com um cão. É prático, convenhamos. É apenas preciso "marcar consulta" com o animal e, à hora marcada, lá estará ele à nossa espera.

E, imagine que vai em viagem para um sítio onde existe uma filial da Flexpetz? Bom, os seus direitos são igualmente válidos no local. Apetece-lhe brincar com um cão? Vá buscar um às instalações da empresa no sítio onde está. :)

A praga

A imagem à esquerda é o "gráfico" de acessos a este blog, provenientes da santa terrinha. Como se pode ver, o país parece atacado de uma espécie de sarampo, com especial incidência na zona litoral. A boca e os olhos estão particularmente afectados pelo problema, ao passo que as costas e a nuca se encontram relativamente incólumes. Não sei o que é que os transmontanos têm contra mim mas bem podiam passar por aqui mais vezes. Já na zona dos pés, nota-se uma pequena micose, ali para o Algarve central. Nada que assuste, portanto. Um dia destes deixo aqui a minha opinião sobre férias lá em baixo e nem o melhor fungicida me safa...

A Madeira e os Açores não aparecem porque o Google faz o duvidoso favor de não contabilizar os acessos de lá. Ou, pelo menos, se o faz, esconde-os muito bem...

Uma óptima dor de dentes

Nunca tinha ido ao Chapitô e devo dizer que o nome do local sempre me fez pensar naquele pessoal dos malabares, artistas de rua aos quais nunca achei grande piada e que, vá-se lá saber porquê, parecem andar sempre atrelados às iniciativas do Bloco de Esquerda. Preconceito? Talvez.

Há coisa de uma semana li estar em cena no teatro do Chapitô uma comédia cuja ideia central andava à volta de problemas dentários sofridos pelo nosso bem conhecido Conde Drácula. Achei graça e resolvi ir ver a coisa. Não me arrependi. Para começar, fiquei a conhecer um belíssimo espaço, partilhado por vários restaurantes e bares, bem decorado, com um clima cosmopolita e, ao mesmo tempo, intimista, uma soberba vista para o rio (mesmo à noite) e um clima geral de descontracção q.b. Fiquei rendido mal cheguei. Constantemente, a cidade de Lisboa desvenda pequenos recantos que ignoramos na monótona azáfama do dia-a-dia.

Enquanto esperava a entrada para o teatro, um casal de "mortos-vivos" dedicava-se a performances que entretinham o público.

Relativamente à peça, só posso dizer que é um prodígio de sincronização entre os actores, um belo trio pleno de expressão corporal, numa peça que vive de um cenário quase inexistente, apenas composto por meia dúzia de objectos que se transformam em tudo o que seja necessário para ilustrar as cenas. Um malão tanto serve de casa de banho num comboio como de caixão para Drácula e as transformações de personagens e cenário são assumidamente "descaradas" dando ainda mais graça a tudo.

Decididamente, parece-me que quem queira rir tem uma boa oferta de teatro em Lisboa.

Uma andorinha no chão

O outrora prometedor Manuel Monteiro anunciou que o seu actual partido tinha atingido o mínimo de 5000 militantes exigidos por lei para não ser obrigado a fechar portas. Ainda bem. O que já não está tão bem é a preocupação do Manel com a polemicazinha respeitante à suposta existência de militantes do PND com ideias de extrema-direita. Anunciou Monteiro que já tinham corrido com os elementos indesejáveis, se bem que ele não pudesse garantir a extinção da espécie. A "solução final" poderá não ser assim tão final mas, pelo menos, permitiu alguma limpeza. É uma atitude corajosa por parte do PND. Não nos esqueçamos de que o partido estava em vias de desaparecer por falta de militantes. Das duas uma: ou os "extremistas" não eram assim tantos (lá se vai a ideia do perigo para a democracia) ou então o PND tem o dom de fazer brotar das pedras novos militantes capazes de repor o imenso sangue perdido. Seja como for, o PND é, agora, um partido limpo de racismo e xenofobia (a constante ligação dos dois termos é por demais irritante), e Manuel Monteiro até deu como exemplo da sua pureza de princípios o facto do PND ser apoiado pela "comunidade cigana". Assim de repente, parece-me que o desesperado ex-líder do CDS trocou o diabo pelo demónio...

Desconheço quais são as vantagens da ligação à "comunidade cigana" mas espíritos mais indelicados poderiam sempre especular que o PND passaria a ter acesso preferencial aos melhores produtos falsificados que se vendem nas boas feiras deste país. Do DVD pirata à coca feita com gesso, da roupa de prestígio fabricada na Buraca ao ouro falso, da mula doente à pistola, há um sem fim de coisas de fina qualidade que os novos apoiantes de Manuel Monteiro lhe podem dar. Podem, por exemplo, para grande vantagem da contabilidade do partido, ensinar o PND a viver com muito pouco dinheiro. Como se sabe, os ciganos são mestres em fazer render os parcos trocos que a sua difícil vida lhes proporciona, conseguindo transformá-los em colecções de fios de ouro, carros de alta cilindrada e casamentos sumptuosos. Não são todos, é certo. A maioria prefere ignorar as artes mágicas e apostar no conhecimento das leis, nomeadamente das que dizem respeito a todo e qualquer tipo de subsídio, seja ele o guterrista rendimento mínimo garantido ("rendimento de inserção social", na versão "liberal") ou o apoio à criação de burros (de preferência em bairros sociais). Num país de subsídio-dependentes, a "comunidade" apresenta-se como mestre na matéria.
O Nelinho também poderá contar com o peculiar sentido de honra existente entre os ciganos, para quem um amigo é até à morte. O problema são as mil e uma razões que podem antecipá-la... Mas poderá concerteza o PND contar com o apoio das caçadeiras "da raça nobre", caso as soqueiras e as matracas dos perigosíssimos direitistas expurgados algum dia queiram vingar a afronta de os obrigarem a pertencerem todos ao infeliz PNR.

Às tantas, Monteiro até fez uma grande jogada: substituiu o "não gosto de pretos", pelo "não gosto de ninguém que não seja da minha família", jogou fora o "se andares com um indiano já não és minha filha" e puxou o "se te vejo com um gadjó mato-te a ele e a ti". A diferença poderá parecer subtil a muitos mas, na realidade, não é.

O PND ganha um espírito mais aguerrido nesta sua nova vocação multi-étnica (é uma ironia). A direita monteirista quer-se moderna, aberta às realidades do mundo, mesmo quando elas implicam a troca de cobardias cuja única diferença está na cor da pele. Entre ser-se espancado por um grupo de brancos pró-nazis ou esfaqueado por um bando de ciganos raivosos vai a distância de perceber a diferença entre pontuais anomalias sociais ao nível do indivíduo (o primeiro caso) e uma aberração cultural velha de séculos (o segundo). Apesar de tudo, os radicais de direita respeitam a sociedade em que vivem e é por a quererem que julgam vê-la doente. Ao outros, àqueles cujos espartilhos culturais obrigam a viver numa espécie de sociedade tribal onde a honra ainda se lava com sangue, a endogamia é uma obrigação feminina, os casamentos são combinados, a rivalidade territorial é recorrente e o "racismo e a xenofobia" correm nas veias, a esses, resta continuarem a confiar nos complexos de culpa de personagens como Manuel Monteiro para irem perpetuando a farsa da vitimização.

Manuel Monteiro parece ter o hábito de escolher más companhias: depois de Portas (lembram-se das rivalidades entre os dois grandes amigos, nos tempos do CDS-PP?), surge a suspeita das ligações à extrema-direita, exorcizada com um vade-retro abençoado por alguma da pior gente que por esta terra (e muitas outras) anda.

Já se vê que este texto irá suscitar as reacções que se esperam: insultos e acusações de racismo, ofensas pessoais e a habitual panóplia de muletas ideológicas (ou nem isso) tão próprias das boas almas. Mas esse é o preço de se ter uma opinião.

Justiça se faça aos radicais de direita: apesar de tudo, quando a violência nasce no seu seio, bem ou mal, há um fundo ideológico na qual assenta e aquela pode ser combatida de forma muito mais fácil e limpa do que a violência que se baseia em tradições canalhas para as quais já não pode haver espaço na nossa sociedade. Aparentemente, Manuel Monteiro não percebe isso e, feito tolo passarinho, anda por aí a anunciar as suas novas ligações a uma gente que pura e simplesmente se está borrifando para tudo quanto Manuel Monteiro possa defender.

Como se isto não fosse já de si mau, ainda há que reparar no ridículo de invocar o apoio de uma "comunidade" inteira, como se existisse qualquer tipo de organização entre os ciganos que não fosse a ditada pela tradição ao nível familiar. Tem esta comunidade qualquer tipo de representação eleita? Acreditará Monteiro na figura do "rei dos ciganos"? Quem lhe prometeu o apoio? Falava em nome dos outros? Com que direito? Mau demais.

A andorinha de Monteiro parece ter, decididamente, pousado no chão...

Dali em Évora

Está patente em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida (até 4 de Maio de 2008), uma exposição intitulada "Dali, o Divino Ilustrador". Por um ridículo euro (€ 1) podemos apreciar dezenas de trabalhos do grande pintor catalão, todos feitos para ilustrar o clássico "A divina comédia", do florentino Dante Alighieri.

E se a exposição que esteve no Porto foi um bom pretexto para muita gente se ir deleitar com a beleza da Invicta, porque não aproveitar mais esta amostra do talento do já ido Salvador para dar um pulo até à cidade alentejana, Património da Humanidade? Foi o que eu fiz, com um propositado desvio da rota para Lisboa. E se pouco abonatória é a pressa de uma visita-relâmpago, também não é menos verdade que o curto tempo na cidade do Alto-Alentejo me deixou uma enormíssima vontade de lá voltar, com toda a calma que o celeiro de Portugal pede...

Até breve, Évora! Com ou sem Dali...
que pena!

Nos dias 1 e 2 deste mês, a Nova Orquestra Sinfónica de Lisboa e o Coro da Nova Orquestra Sinfónica de Lisboa, sob a direcção do maestro Albertino Monteiro, interpretaram na Aula Magna da Universidade Clássica de Lisboa, essa maravilha da música que é a cantata Carmina Burana, do alemão Carl Orff.

Desconheço como foi a afluência de público na noite de Sexta-Feira mas, no Sábado, a situação foi bastante triste com os músicos a perfazerem um terço das pessoas presentes no espaço. A zona dos bilhetes mais baratos estava razoavelmente preenchida mas, no resto do recinto, eram as cadeiras vazias que marcavam o tom.

Uma orquestra e largas dezenas de coristas a darem o seu melhor para tão pouca gente (ainda por cima, o espaço junto aos intérpretes era, precisamente, aquele onde havia menos público) é um exercício de disciplina a realçar.

Porque havia tão pouca gente? Era o facto de a orquestra ser nacional? Seria porque já tinha havido um concerto no dia anterior? Seria porque, ainda este mês, irá haver uma outra apresentação da obra (desta feita, no Coliseu, e pela mão de estrangeiros)?
Desconheço as razões mas sei que me senti triste pelo que via. Felizmente, o que ouvia fazia esquecer qualquer coisa. Tirando o exagero do som dos pratos no "O fortuna" e a falta de voz de Carlos Guilherme para o único tema que lhe cabeu, todo o concerto se pautou por uma grande qualidade (é certo que sou um leigo mas...).

Carmina Burana é daquelas peças que me acompanha desde a adolescência. Chega-se a ela através do "O fortuna", ouvido no velho anúncio da Old Spice ou nas aberturas dos concertos de Ozzy Osbourne e, depois, descobre-se o resto da obra. Maravilhas como "In trutina" e "Ave formosissima" fazem-nos querer voltar sempre mais uma vez à música de Carl Orff.

Dia 27, no Coliseu, lá estarei, para a repetição de um concerto anterior (ano passado?), com a primeira parte preenchida pela 9ª de Beethoven. A não perder.

Saldos

Chamem-lhe vaidade ou aprumo mas todos gostamos de nos ver (ou imaginar) com uns trapinhos que nos façam parecer melhor. E há peças de roupa que saltam à vista de quem passa na rua e nos fazem parar para, pelo menos, matar a curiosidade acerca do preço da coisa. Foi o que me aconteceu com uma gabardina à venda nas lojas Purificacion Garcia, em Lisboa. Ia na rua e, de repente, o meu olhar foi agarrado por um tecido fora do normal, um corte diferente, uma elegância que imediatamente quis que fosse minha. Cheguei-me à montra e vi que a dita gabardina estava com um desconto de 50%. O preço, mesmo com redução, era puxadote, mas há roupa e roupa e aquela era decididamente diferente. Arrepiei caminho e fui magicando na coisa, lutando a consciência entre a poupança e o consumismo. Venceu o segundo. No dia seguinte (segundo dia em exposição da peça de roupa) dirigi-me à loja da Av. da Liberdade, decidido a experimentar a gabardina... Falei com a lojista e esta informou-me de que a dita cuja era exemplar único. Grande galo! Agradeci e fiz-me logo ao caminho rumo ao Saldanha Residence onde a marca tem outra loja. Chegado lá, de novo vejo a gabardina na montra. Entro, procuro uma peça igual e, perante ausência de "gémea", falo com a empregada. E não é que, mais uma vez, a gabardina é exemplar único? A coisa já me cheirava a esturro. Peço informações e dizem-me que é um tamanho "M", que não podem tirar da montra, que só daí a duas semanas quando a decoração mudar, que posso fazer uma reserva (reserva de uma coisa que nem posso provar?, perguntei), etc.

Saí da loja com a nítida sensação de que estava a ser alvo de um "esquema" para atrair clientes à loja. Mostra-se uma peça de roupa belíssima, com um grande desconto mas, depois, não se pode comprar a dita porque é exemplar único e porque está na montra!

Ora porra! Algo me diz que, acabados os saldos, vão aparecer muitas gabardinas...

Comida grega

Há locais nos quais nos sentimos bem, há sitios onde gostamos de ir, há pequenos hábitos que nos sabem bem ganhar.
No centro comercial Atrium, no Saldanha (Lisboa), há um daqueles restaurantes "utilitários", do tipo prato-no-tabuleiro-e-agora-procura-uma-mesa-livre, que se encaixa, precisamente, na frase inicial deste texto. Chama-se o dito "Aries" e serve comida grega (ou tida como tal). À nossa disposição temos várias coisas que, para quem conheça a cozinha da zona oriental do Mediterrâneo, se confundem com as tradições culinárias de Turcos, Palestinianos, Israelitas... Gregos. Há as carnes no espeto vertical, cortadas para o prato em farrapinhos, há a "mussaka", há o molho de iogurte, há as azeitonas... e há várias outras coisas como a bifeteka (um hamburger com um sabor próprio), o frango à grega, os folhados com espinafre, o queijo fetta, as espetadas...

Tudo saboroso e servido de modo a deixar-nos sem ponta de fome.

Aliás, lembro-me de uma vez em que, confrontado com as insistentes perguntas de "quer disto, quer daquilo?", interrompi a simpática dona do estabelecimento dizendo qualquer coisa do tipo: "Estou esfomeado. Haja segundo a sua consciência...". O resultado foi uma pratalhada de comida a cujo fim cheguei mais por respeito pela senhora do que por apetite. :)

O Aries, dadas as suas características, não é um local para um encontro romântico, não serve para cerimónias, não é sofisticado. É uma casa que serve para comer. Comer bem e barato. Sim, porque o menu, que inclui quatro tipos de "salada/legumes", queijo ralado, azeitonas, molho, batatas, arroz, feijão preto, molho picante, e um "prato" principal (frango, hamburger, espetada, mussaka, etc.), uma bebida e - ainda -, um café, custa apenas €4,95. Sim, leu bem: quatro euros e noventa e cinco cêntimos.

O que é bom deve ser divulgado. No meio de tanta mediocridade, sabe bem encontrar um local onde somos bem atendidos (os donos têm sempre um sorriso delicado para nós), onde somos bem servidos e onde, ainda por cima, pagamos pouco!


Atenção! - a foto que acompanha este texto NÃO serve de exemplo aos pratos servidos no restaurante