Um dia para quem?

Hoje é 18 de Abril, o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. Para quem está habituado a ouvir falar de dias para tudo e mais alguma coisa, é forçoso salientar que, neste dia, há coisas verdadeiramente interessantes. Para quem tenha o gosto pelo património, há um banquete de visitas a fazer, muitas vezes a locais que não estão abertos ao público. É um dia que devia ser uma semana, digo eu. Mas, sobretudo, é uma data que devia ser móvel (como querem fazer aos feriados religiosos) de forma a que calhasse sempre a um fim-de-semana. Convenhamos, a quem beneficia um dia festivo que calha (como hoje) num dia de trabalho? Qual é o impacto efectivo de todas as actividades programadas? É coisa para crianças em visita escolar, velhos e turistas ocasionais. Os outros? Que trabalhem ou metam férias!

Para quem leia isto e não esteja a fazer nada, aproveite para dar um salto a 18deabril.sapo.pt e escolha uma coisa que lhe interesse. Aos outros, fica a inveja de não poderem usufruir de todo o trabalho preparado pelas diversas entidades (e que não deve ter custado pouco).

Diferenças de atitude

Abre a nova época tauromáquica no Campo Pequeno, em Lisboa. Pela primeira vez, resolvo ir à tourada ("aos toiros"). Enquanto contorno a praça, reparo em dois camiões de transporte de cavalos ali estacionados. Ambos pertencem a cavaleiros que vão actuar à noite. O camião da esquerda é do espanhol Pablo Hermoso. É um camião todo pintado, com uma grande imagem de um belo andaluz branco, na traseira e, nos lados, uma gigantesca assinatura do toureiro. Os vidros estão protegidos com ferros à maneira tradicional dos que protegem as casas no sul de Espanha. É uma coisa feita para o espectáculo, para impressionar quem a vê.
À direita, está o veículo do nosso Luís Rouxinol. A diferença é abismal. Aquilo que no toureiro vizinho é imponência e vontade de se mostrar, no nosso é saloíce e displiscência. O camião está pintado de cinzento. Na traseira tem uma curriqueira imagem do cavaleiro. Nos lados, o nome da personagem está escrito numas letras incaracterísticas e, pasme-se!, há anúncios do fabrico e venda de matraquilhos!

A velha expressão "uma imagem vale mil palavras" aplica-se bem a este caso. É a diferença entre saber-se vender, saber projectar uma imagem, e o deixa andar lusitano para quem a embalagem nunca tem qualquer valor.

Depois, digam que a culpa é do Governo...

P.S. - Na arena, o "nosso" portou-se melhor, como seria de esperar.

A nossa história

"O último conjurado", de Isabel Ricardo, é um daqueles romances de aventuras, no estilo "capa e espada", que tanto fez as delícias de quem tenha qualquer coisinha mais do que trinta anos. Género que se reinventa em cada história, teve o seu clímax nas páginas do francês Alexandre Dumas (os mosqueteiros) e do italiano Emilio Salgari (o ciclo dos corsários). Mas todas essas histórias são estrangeiras e têm as cores de outras bandeiras que não a nossa.

"O último conjurado" versa sobre a revolta de 1 de Dezembro de 1640 e a consequente recuperação da independência nacional. É, portanto, uma história que, mantendo todos os ingredientes do estilo (o mistério, as lutas, o humor, o heroísmo, a traição...), compõe um quadro em tudo familiar. É a nossa História que desfila nas páginas de Ricardo.

Este é o segundo lançamento da obra. O original já data de há uns bons anos e foi então que o li. Desconheço qual foi a sorte da obra que, não sendo uma obra-prima é, concerteza, de agradabilíssima leitura, mas apraz-me ver que o livro está aí de novo e bem visível na FNAC. É de esperar algum êxito. Oxalá assim seja para que se possa contribuir com mais uma gota para acabar com esse imenso deserto que é a ligação que o nosso povo tem com a sua própria identidade.

Somos educados com base na cultura e história anglo-saxónicas e julgo não me enganar se disser que muito adolescente deve conhecer melhor a História dos EUA ou de Inglaterra do que a de Portugal. É triste mas é, em muito, o fruto de não sermos capazes de ter uma indústria audiovisual minimamente capaz.

Leia ou ofereça "O último conjurado" porque vale a pena. A História não vive só nos manuais e nos ensaios mas também na alegria das estocadas dadas aos maus da fita. :)

Quer ouro sobre azul? Complemente "O último conjurado" com "A independência de Portugal", de Rafael Valladares. Para saber mais, carregue aqui!
O meu tempo é redondo
Cinza besta gorda, robusta, rotunda
Cheia de um silêncio onde ecoa um espesso enfado

Eu não me movo, cedo
Encosta-se o tempo a mim
E deslizo até à próxima posição da inércia
E assim, de imobilidade em imobilidade
Acho o sinuoso caminho do não ser
Não ser tido, achado ou vivo

Nós e eles

Eu sei que ontem deve ter havido uns milhões de lampiões a tirarem a barriguinha de misérias gozando com a falta de jeito dos rivais do Lumiar (ou Telheiras, ou Campo Grande, seja lá o que for o sítio onde está o estádio da lagarteira). Vingaram-se de tratamento semelhante aquando da eliminação perante o Gatafe (ou Getafe - quero lá saber...). Até aqui, fica tudo por conta da palermice clubística (porque todos deviam apoiar-se mutuamente nos conflitos internacionais). O que me chateou mais na derrota caseira do Sporting frente ao Glasgow Rangers foi a convicção com que todos estávamos (mais uma vez?) de que a "nossa" equipa era superior à outra. É que, quem tenha ouvido o relato da TSF no jogo na Escócia, só pode ter ficado com a impressão de que o Sporting era avassaladoramente superior aos homens das saias. Os jornalistas presentes dedicavam-se a uma fanfarronada tal que a eliminação dos verdes só pode ter sido uma espécie de castigo de Deus. Que os escoceses não jogavam nada, que eram toscos, que quando o Sporting acelerava quase marcava, que o jogo estava controlado, que os adeptos do Glasgow só diziam "que grande equipa!", blá, blá, blá. No fim, sabe-se, o resultado foi um nulo. Cá, foi uma derrota.

O que faria se "eles" não fossem tão toscos e "nós" tão bons...
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Uma nota de esperança: há mais mulheres bonitas do que homens ricos.

A ponte do Menezes

O Governo anunciou recentemente a construção de uma nova ponte sobre o Tejo, na área de Lisboa. Ponte esta que deverá ligar a zona lisboeta de Chelas à cidade do Barreiro. Como foi uma decisão governamental, à Oposição só restavam duas hipóteses: 1) dizer que era contra a ponte; 2) dizer que a ponte devia ser feita noutro lado. Foi esta segunda hipótese a escolhida por Luís Filipe Menezes, o actual líder do PSD (auto-intitulado líder da oposição) e ainda Presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia. Pegando numa ideia que não é sua (do mal, o menos), LFM resolveu vir a terreiro defender a construção de uma ponte ligando Algés à Trafaria, afirmando que, esta sim, era verdadeiramente importante para as populações.

Como já escrevi, a ideia não é de LFM, ele apenas a apadrinha por necessitar de obter tempo de antena. Qualquer que fosse a decisão governamental, ele teria de defender uma coisa diversa. Calhou-lhe esta.

Mas se até este ponto se compreende, pela perversa lógica da política, a atitude de LFM, já mais difícil será justificar a proposta em si mesma. Repito: uma ponte entre Algés e a Trafaria. "Onde e Onde?", perguntará o leitor que não conhece Lisboa.
Eu explico: Algés é, literalmente, a primeira localidade após Lisboa (colada a esta), em direcção ao mar e, a Trafaria, é a terra que fica defronte, do outro lado do rio. Se houvesse uma espécie de porta para o Tejo, estaria assente nestas duas localidades.
(Para os portuenses, seria como uma ponte a ligar a Foz à Afurada)
Algés está, também, a poucas centenas de metros do mais famoso monumento nacional: a Torre de Belém. Igualmente tem uma praia, ainda usada por muita gente e que se pretende despoluída para que reganhe o "prestígio" que em tempos já teve.

Portanto, o que o nosso Pipinho defende é que se plante um mastodonte de betão, a cruzar o rio no local onde este se faz mar, escarrapachado nas ventas de quem contemple a Torre de Belém (que, ainda por cima, se observa sempre na direcção do mar!), destruindo a paisagem, desqualificando um ponto turístico essencial, aviltando o enquadramento de uma zona histórica. O que LFM quer (já agora, veja-se a diferença de qualidade urbanística entre Gaia e o Porto) é eclipsar a monumentalidade da vista sobre/de Lisboa em direcção à foz, colocando-lhe uma grotesca barreira, uma espécie de monumento ao grunho responsável pela destruição da paisagem urbana (e não só) no nosso país.
Para a malta do betão, esta hipótese era óptima. A zona do Barreiro já está destruída mas a costa entre a Trafaria e a Costa de Caparica ainda apresenta alguns pontos "sossegados". Demasiadamente sossegados e a precisar urgentemente de muito prédio e estrada, de preferência bem em cima das praias que (ainda) existem. Sabe-se que o mar quer comer aquela zona da costa, sabe-se que a arriba fóssil é para preservar, sabe-se que aquela zona devia ser uma espécie de escapatória para o fim-de-semana... Mas sabe-se ainda mais que o monstro da construção civil não descansa e, além disso, até dá umas boas gorjetas aos partidos (nomeadamente ao PSD - com direito a condenação em tribunal, até).



Luís Filipe Meneses, que durante muito tempo foi mais conhecido pela sua patética participação num congresso do PSD realizado no Coliseu dos Recreios onde, devido à sua tirada sobre os "sulistas e elitistas", pos o recinto a apupá-lo, tendo obrigado à suspensão dos trabalhos; LFM, o mesmo que acabou por sair do Coliseu chorando e dizendo para as câmaras de TV "eu só quero ir para casa..." (onde estão os vídeos das lágrimas no YouTube?!), essa personagem, cujas ideias para o país chegam a roçar o arripiante, que se cola ao louco independentista que governa a Madeira, que se afirma regionalista, defensor da entrega da educação aos privados e outros disparates do mesmo tipo (parece que também há uma coisa com os cemitérios), esse Menezes é o mesmo homem que se pretende afirmar como alternativa ao actual Governo.


(já agora: como é que ficou aquela coisa do seu blog pessoal que, afinal, era escrito por um assessor que até fazia copy+paste de textos de outros?...)

Já muita gente o disse: com uma oposição assim, Sócrates não tem de se preocupar. Eu simpatizo com o Sócrates. Não é perfeito, claro, mas, ainda assim, apoio-o e isso é confortável porque, se eu não estivesse nessa situação, o meu espírito sofreria verdadeiras torturas tentanto encontrar alguém em quem votar nas próximas eleições. Quando o "líder da oposição" defende uma ideia como a que está na base deste texto, Sócrates até podia ser o Diabo que eu votaria à mesma nele. Há coisas que são tão absurdas que quem as defenda só pode ser igualmente detentor de uma mente absurda.

LFM é do Norte, esse mesmo que passa a vida a queixar-se da falta de investimentos (só isto já daria pano para mangas). Mas, curiosamente, e sendo ainda autarca na Almada do Porto, Menezes não é contra o investimento milionário na nova ponte. Apenas lhe faz cócegas a localização. Isto mostra bem como são diferentes as exigências do caciquismo e as da política a nível nacional. A maioria dos políticos não é de Lisboa e são bastos os exemplos de nortenhos em funções do mais alto nível. Mas, sempre que chegados ao poder, o seu discurso altera-se e a acção adapta-se. As portas do poder, quando cruzadas, fazem os políticos ver as coisas de outra forma, decididamente. Até ao momento em que voltam à sua terra e que necessitam, novamente, de marcar posição. Aí, põem as penas na cabeça, vestem a melhor tanga e ei-los de novo no seu melhor jeito "tribal".

Este último parágrafo foi um àparte, uma espécie de desabafo. Independentemente de onde LFM possa ser, o que me interessa é que o homem dá, a um ritmo quase diário, provas de que não é capaz daquilo a que se pretende e que é: governar o país. Por mim, se esta iluminária chegasse ao poder e fosse para a frente com a questão da ponte, eu chegaria à conclusão de que isto tinha batido no fundo. O que vale é que o mundo é grande...


Mas tenhamos alguma compaixão pelo LFM, não sejamos duros demais com ele ou ainda vamos ter de o ver a chorar novamente. Se bem que fosse uma óptima ideia ele "ir para casa", também há que dizer que as suas estapafúrdias ideias nos podem divertir (desde que tenhamos a certeza de que ninguém lhes liga). Num espírito de desinteressada ajuda, ficam aqui algumas curtas e modestas sugestões para LFM e os seus assessores:

1) Transformar a Torre dos Clérigos numa torre de telecomunicações (com parabólicas e tudo)
2) Fazer um parque aquático na Lagoa das Sete Cidades
3) Construir um estádio no vale glaciar da Serra de Estrela
4) Fazer um hotel no Mosteiro da Batalha
5) "Modernizar" o centro histórico de Guimarães
6) Secar a Ria de Aveiro (esse desperdício de espaço...)
7) Plantar eucaliptos nas planícies alentejanas

Não são as melhores sugestões? Que querem? Não é qualquer um que consegue ter ideias do calibre das de LFM. Tenham dó!...

Curtas (10)

N'"A Brasileira", no Campo Pequeno, peço um copo de vinho ao almoço. Servem-mo num copo bastante sujo, com porcarias agarradas. O rapaz que me atende pede desculpa, serve-me outro copo e explica: "sabe, às vezes é dos nossos dedos".

Fiquei mais descansado.

Curtas (9)

No blog do Cláudio Ramos, por entre inúmeros auto-elogios, também há lugar a fortes palavrões.
Surpreendeu-me... nunca pensei que, na boca do rapaz, a versão vernácula de "pirilau" fosse um insulto.

A miúda dos sapatos vermelhos

Sempre houve uma coisa em mim que detestou modas e unanimidades. Se algo se tornava consensual, eu imediatamente começava a olhar para a coisa de soslaio. Há algo de estranho quando toda a gente está de acordo...
Recentemente, o panorama musical nacional viu ser editado um álbum de nome "Golden era", de uma cantora que responde pelo nome de Rita Redshoes. Já se vê que não é o nome da pequena até porque ela é bem portuguesa. Mas, como se insere nesta triste (e longa) moda de cantar em Inglês para Português ouvir (só os Moonspell é que conseguem ter uma carreira internacional?), a Rita Pereira resolveu arranjar um nome artístico "internacionalizante". Seja, então.

Como toda a gente anda a falar da moça, tecendo-lhe os maiores elogios, eu, cumprindo o meu feitio, não o vou fazer. Exactamente, eu não vou falar da obra mas sim da artista. E isto porque a pequena é um xuxuzinho que dá vontade de levar para casa. :)
Vi-a na FNAC...

(onde foi tocar algumas canções do seu óptimo disco)

...e imediatamente fiquei preso naqueles olhos grandes, risonhos, quase de criança que vê à frente uma recompensa. Primeiro em roupa à civil, durante os testes de som, com o cabelo apanhado num jovial rabo-de-cavalo e, depois,

(já durante o bem interessante concerto)

num vestido escuro, de lã - o que lhe motivou um desabafo por causa do calor ("tira! tira!" pensaram alguns...), com o cabelo solto e os sapatos vermelhos que lhe dão o nome artístico. O quadro era bonito de ver e serviu para ajudar a cativar...

(ainda mais)

...o público presente na FNAC do Chiado e que já devia conhecer o álbum em apresentação. Foi bom de ver...

(a artista!, que, da obra, eu não falo)

...e abriu o apetite para mais.

Rita Redshoes, antes de se lançar a solo, foi cantora de uma banda de nome Atomic Bees e mantém uma colaboração de anos com David Fonseca, tendo inclusivamente dividido uma bonita canção com ele. Há quem lhe chame uma protegida do leiriense...

(eu, se pudesse, tomava conta dela)

...o que pode ser mais um ponto a favor do ex-vocalista dos Silence4.


Bom, se não fosse a já minha declarada embirrância com os consensos...

(que me impede de dizer o quão boa é a música da Rita Redshoes)

...e o facto de eu a ter olhado mais do que ouvido, seria capaz de espraiar-me aqui em elogios ao disco, aos telediscos, à voz dela, às letras, ao vestido, aos sapatos, ao penteado, enfim, a todas aquelas coisas que compõem este projecto assente nuns saltos altos muitíssimo elegantes...

Venham mais Ritas, Marias, Albertas e Manelas que nós cá estaremos para olhar para elas. (fina rima, hem?)


NOTA: a foto da Rita Redshoes que aqui se vê foi despudoradamente roubada do blog da Rita Carmo (ritacarmo.blogspot.com)