
Em primeiro lugar foi o autoritarismo de uma professora que, sem saber impor disciplina, resolveu arrancar das mãos de uma aluna o telemóvel que esta usava (erradamente).
Em segundo lugar foi a indisciplina, falta de educação (e revolta) de uma aluna a quem foi tirado um objecto seu e que resolveu agir pela mesma medida no meio da sala de aula, envolvendo-se numa ridícula cena de "Dá cá o telemóvel, já!!!" com a professora.
Em terceiro lugar foi a boçalidade e cobardia dos colegas da rapariga que, em vez de colocarem água na fervura, ficaram a apreciar (e incentivar) o espectáculo.
Em quarto lugar foi a traição de um colega que filmou e colocou na internet tudo o que se passou naquela sala da escola Carolina Michaelis, no Porto.
Em quinto lugar foi o asqueroso aproveitamento político feito pela oposição ao Governo, pretendendo fazer deste caso pontual (na forma) uma questão política quando não passava de simples gestão da disciplina num estabelecimento de ensino.
Em sexto lugar foi o corporativismo dos sindicatos que, como não podia deixar de ser, resolveram associar o caso à "luta" dos professores em torno dessa coisa eterna que é o "estatuto da carreira docente" que, desde a minha mais tenra idade, sempre foi um eufemismo para "melhores salários".
Em sétimo lugar foi a visão de fim da civilização partilhada por essa massa de gente anónima e burra para quem tudo quanto seja problema gerado pelo progresso é consequência do 25 de Abril e do facto de alguém não saber dar umas boas bofetadas a não sei quem.
Em oitavo lugar foi o habitual circo montado pela comunicação social, esse monstro sedento de conflitos e desgraças, cada vez mais um vampiro que suga as vítimas até à última gota de polémica para, de seguida, as deixar cair no esquecimento, depois de as ter exposto ao ridículo e à vergonha públicas.
Em nono lugar foi a inépcia do Ministério da Educação que, prontamente, devia ter movido os mecanismos legais para proteger a imagem e o bom nome quer da professora, quer da rapariga, minimizando a exibição do vídeo e de imagens associadas.
Em décimo, chega a vez dos xicos espertos que resolveram ganhar dinheiro com a situação. É evidente que a comunicação social não faz outra coisa do que ver pingar os euros com a divulgação (tendenciosa) de certas notícias mas tudo se torna mais chocante quando uma empresa resolve por à venda na internet um toque de telemóvel com o som da discussão entre a professora e a aluna.
"Dá cá o telemóvel, já!!!" pode ser o som que você se arrisca a ouvir quando a pessoa que está ao seu lado receber um telefonema. E faz-se a pergunta: a professora está à beira de uma depressão, a aluna está marcada para os tempos mais próximos e, como se isso não bastasse, aparece alguém a fazer lucro com a divulgação da triste cena, sem que seja pedida qualquer autorização às "vítimas", sem que haja o mínimo respeito pelos direitos de personalidade e mesmo pela dignidade de duas criaturas que nunca pediram para serem filmadas e postas na internet. Se isto fosse na América, a empresa em questão já estava com um processo de milhões de dólares em cima. Como é por cá, ninguém se mexe. A professora porque está doente, a aluna porque quer é esquecer o sarilho em que se meteu e a sociedade porque acha muito giro andar por aí a perpetuar num toque de telemóvel uma cena de indisciplina escolar.
Cena que, diga-se de passagem, não é em nada diferente de outras que sempre se passaram nas escolas. Sendo eu um exemplo de pacifismo estudantil, não consigo esquecer-me de imensas situações que oscilaram entre o engraçado e o miserável passadas nas salas de aulas da Escola Secundária D. Pedro V, em Lisboa, estabelecimento que não apresentava qualquer problema geral quer de indisciplina, quer social (isto nos anos 80). Uma das que me ocorre já é a do "roubo" do livro de ponto e recusa na sua entrega enquanto a professora não retirasse a falta a um qualquer aluno. Mas na altura não havia telemóveis com câmara de filmar, nem internet, nem Youtube...