
Toda a nossa vida é gerida pela noção de que há um tempo para cada coisa, uma idade para descobrir, uma idade para trabalhar, uma idade para saborear... São horários, tabelas mais ou menos rígidas que o meio cultural que nos envolve estabelece de uma forma quase imperceptível, com a naturalidade imposta pela tradição e o passar dos anos. Não os procuramos necessariamente contrariar mas, muitas vezes, o nosso tempo parece ter uma cadência diferente, ora se acelera na ansiedade de chegarmos mais cedo - julgando poder dessa forma desfrutar de algo por um período maior (e inocentemente ignorando a corrosiva acidez do enfado), ora nos deixamos ficar onde estamos, cedendo mais ou menos involuntariamente a nossa vez na fila.
O primeiro beijo, a primeira cerveja, o primeiro grande desgosto… tempos que podem variar dramaticamente para cada um de nós no vai e vem das emoções.
Em 1988, uma banda para mim desconhecida de nome Queensrÿche, lançava um álbum ao qual deu o nome de “Operation: Mindcrime”. Para mim, a banda nasceu nesse dia e algumas incursões no seu repertório anterior apenas poderiam acrescentar um condescendente prefixo ao verbo. Da vida anterior da banda nada me interessa; da posterior, pouco me agrada. Mas aquele curto registo discográfico, aquela quase ópera, vale por uma vida, dá o nome a uma estrela, prenche uma carreira.
Vinte anos depois, e após o lançamento de um álbum de versões de outros artistas (aceitação da decadência?) os Queensrÿche lançam-se à estrada com um espectáculo longo e ambicioso: a execução integral (e teatralizada) de “Operation: Mindcrime” e da sua apagada (e desnecessária) sequela. A banda vem assim engrossar as fileiras daqueles artistas que, no desespero de não conseguirem manter-se à tona, se agarram à bóia de obras passadas (Fish, Roger Waters, Rodger Hodgson são bons exemplos disso).
Mas como a vida tem ritmos diferentes para cada um de nós, aquele que é um tempo de sobrevivência para o grupo norte-americano, é-o de primeiro encontro para o público português. Os Queensrÿche não vieram cá quando as luzes da ribalta os banhavam e mesmo a comunicação social se rendia ao seu trabalho (na “versão” mais suave de Empire) mas emendam a mão passadas duas décadas. Longa demais esta espera: o cabelo comprido de muitos já lá vai (em tantos casos, já não há cabelo para deixar crescer, sequer), a ganga azul foi traída pelo negro, a adolescência deu a vez aos trintas e até as cinzentas bancadas do ido Pavilhão de Cascais são agora substituídas pelas puídas mas infinitamente mais confortáveis cadeiras da formal Aula Magna; os matacões do culturismo perderam o trabalho para as empresas de segurança e, à saída, em vez do revoltante espectáculo da então “polícia de choque” fazendo alas, teremos o conforto dos carros e transportes públicos logo ali (nem a quase cómica aventura do sobrelotado combóio Cascais-Lisboa se repete).
1988 é um ano distante mas nem por isso parti com menos vontade para o concerto da primeira noite de Junho (uma data, à partida, fácil de recordar). Ao longo dos anos muitas foram as vezes em que dei por mim a ouvir a obra-prima dos Queensrÿche e que certamente merece estar no panteão dos melhores trabalhos que o Heavy-Metal já viu.
A banda de Geoff Tate não desiludiu e compensou os fans com uma excelente interpretação da sua obra maior, com poucas - e não necessariamente enriquecedoras -, alterações (o tom quase romântico de Emtpy Room, por exemplo), no que foi um concerto cheio de competência técnica onde a dificuldade de Tate atingir algumas das notas mais altas não chegou para colocar nódoa.
A segunda parte do espectáculo foi preenchida com o infinitamente inferior "Operation: Mindcrime 2", obra
porventura desnecessária, ao bom estilo das sequelas hollywoodescas que teimam em tentar prolongar o
filão original. Talvez por isso se tenha verificado uma maior intervenção dos "actores" que, por entre os
músicos, encenavam a história por detrás da música. No cimo do palco, num écran, eram projectadas imagens para complementar o resto.
Terminada a interpretação dos dois álbuns, o encore chegou com três temas de Empire (Jet City Woman, Empire e, claro... Silent Lucidity.
Dois deslizes de Tate, com um “gracias” e um “uno mas?” quase estragaram o quadro mas as soberbas interpretações dos temas pisaram as marcas da estúpida ignorância do vocalista da banda.
Em suma, foi um concerto brilhante.
Recorrendo a palavras de outros estilos musicais, se “dez anos é muito tempo”, vinte é mais do que um quarto da nossa vida mas, como diz ainda outra canção, “recordar é viver” e reviver os anos 80 e a sua fantástica produção musical é cada vez mais algo de essencial, se não por uma questão de saudosismo, pelo menos que seja para termos a consciência de que algo de muito bom se perdeu pelo caminho…