
Nisto é que somos bons
Ao contrário daqueles que se deixam enredar nas malhas do politicamente correto ("olhó" Acordo!...), eu continuo a achar que ser cego ou feio ou gordo ou velho ou coxo ou anão ou marreco ou perneta ou vesgo ou sei lá que mais não é bom. Por mais campanhas "positivas" que queiram lançar, a mim ninguém me convence de que ter uma anomalia física ou estética faz de nós pessoas melhores ou mais felizes. Esqueçam, não vale a pena. Compreendo que quem as tenha necessite de, como estratégia psicológica de sobrevivência, se autoconvencer de que é "positivamente" especial mas eu não tenho nada a ver com isso.
Portanto, eu tenho pena das pessoas que não podem ouvir música (é que eu sempre posso tapar os ouvidos quando me dão com a Kizomba e o Hip-Hop); tenho dó de quem não consegue ver as muitas coisas belas que existem no mundo (eu ainda posso fechar os olhos quando confrontado com algo que não me agrade); sinto piedade pelos que precisam de alguém que os leve à sanita (porque eu sou livre de fazer merda quando, onde e como me apetecer); tenho compaixão pelos que vivem torcidos sobre si mesmos (porque eu nasci e escolhi ter a coluna direita)...
Ser deficiente é uma desgraça!
Mas, mesmo na infelicidade, é possível estabelecer a diferença entre ser-se um pobre coitado e ser-se alguém. Quando a natureza ou a sorte nos são madrastas podemos atirar a toalha para o chão ou lutar com raiva contra o infortúnio. Os atletas paralímpicos fazem-no: treinam, esforçam-se, sofrem para não se resignarem, para não se renderem às suas falhas físicas. E merecem apoio, respeito e até carinho pelo que fazem. Num povo de gentinha lamechas que mais não faz do que se queixar de tudo e esperar que um salvador caia do céu para lhe tratar das coisas mais básicas, ver gente que tem, de facto, razões para se queixar de muito, fazer das tripas coração para se erguer acima da mediocridade é algo que faz bem e, sobretudo, que tem o sabor de uma lição de vida, um exemplo a seguir.
Mas, se é verdade que os paralímpicos são um exemplo, também não é menos verdade que a atenção que lhes tem sido dada nos últimos anos é exagerada relativamente à representatividade do desporto para deficientes junto da população em geral. Convenhamos: a seleção nacional de Hóquei em Patins tem mais tradição e peso junto do público do que os melhores atletas de Boccia (não sabe o que é? - é sintomático...) e, no entanto, tem-se visto cada vez mais relegada para notas de rodapé na imprensa. Porquê? Porque os paralímpicos preenchem uma falha no imaginário da população, massacrada pelo negativismo "criminoso" da comunicação social: os paralímpicos ganham medalhas, muitas medalhas! Supostamente, a coisa é de tal forma que, agora, até se lançou uma campanha cujo mote é "Nisto é que somos bons". Esta expressão, exagerada, provocatória e, acima de tudo, estúpida, vem na linha, precisamente, da destruição paulatina que se está a fazer do orgulho (autoestima, como se diz agora) nacional. Nada corre bem, tudo dá para o torto, os bons não se esforçam, os outros países são sempre melhores mas!... mas, os paralímpicos, esses sim, são os maiores!
Quando um conjunto de deficientes é apresentado a um povo como sendo o seu melhor, algo está efectivamente podre na sociedade.
Só que os desportistas deficientes não precisam de carregar mais esta cruz. As dificuldades que têm na vida já são suficientes para ainda lhes quererem por sobre os ombros a responsabilidade de resgatar o orgulho ferido de uma nação que persiste em se autoflagelar.
Deixem-nos em paz! Deixem os desportistas deficientes correrem, rolarem, nadarem livremente e sem pressões, como quem faz algo por gosto e não por obrigação! E, já agora, façam o mesmo a todos os outros, os "normais": deixem os Ronaldos e os Quaresmas divertirem-se em campo, deixem as Naídes e os Nelsones saltarem pela alegria do voo, deixem os Zés, os Manéis, as Marias competirem pela paixão do desporto e acabem com esta maldita pressão que ameaça tornar todos os desportistas em falhados e todos nós em frustrados porque, pelo que se tem visto, a euforia da espetativa só nos tem trazido desilusões atrás de desilusões!









