António Lobo Antunes, durante a cerimónia de entrega à sua pessoa do prémio do Clube Literário do Porto, disse achar "indecentemente caros" os livros em Portugal. É uma opinião e há que respeitá-la, até porque vem de alguém que está no meio, ainda que do lado da criação e não do da publicação. Mas, não deixa de parecer estranho um certo alheamento do escritor relativamente à lógica de mercado que, naturalmente, preside ao estabelecimento dos preços. Dizer assim, de forma desbragada, que os preços em Portugal são indecentemente elevados é uma afirmação estemporânea que, à boa maneira portuguesa, evita a razão em prol do choque. Lobo Antunes foi mais longe e comparou Portugal com países como a Alemanha, Holanda e Noruega, alegando que, apesar do maior poder de compra dos seus habitantes, os livros lá eram mais baratos. Não vou aqui contestar estas duas afirmações: acredito que os livros tenham preços mais reduzidos e tenho a certeza de que o nível de vida nesses países é superior ao nosso. O que eu ponho em causa é que não se tente perceber as razões de semelhante "fenómeno" e se remeta o assunto para o departamento das bizarrias nacionais. Acredito haver razões muito simples que justifiquem os preços dos livros e digo simples porque se baseiam no bom-senso, escusando-me de conhecer os meandros das casas editoras e das teias urdidas pelos homens do negócio. Basta, portanto, ter em conta alguns - poucos -, factos:1) O tamanho do mercado
Portugal tem 10 milhões de habitantes e, apesar dessa quimera chamada "Língua Portuguesa", o nosso mercado possível não vai além deste pedaço de Europa e dos PALOPS (mais Timor). Isto, porque o Brasil tem edições próprias. Ora, se por cá o poder de compra não é famoso, imagine-se o de africanos e timorenses. Não serão, certamente, os mercados "internacionais" que trarão rendimento às obras impressas em Portugal. Portanto, quando do prelo sai um livro, já se sabe que ele se limita a ser vendido unicamente em Portugal. Se o mercado é pequeno, os custos de produção têm menos hipótese de se esbaterem, logo, o preço final aumenta. O mercado de língua alemã abarca pelo menos dois países chegando quase aos 90 milhões de pessoas. Se para além desta multiplicação por nove ainda tivermos em conta factores culturais que possam levar a um maior consumo de livros na Alemanha e na Áustria, facilmente poderemos compreender que os preços possam ser menores. A própria Holanda tem um mercado maior do que o nosso. E a Noruega, se, de facto tem menos de metade da nossa população, não deixa de ser o país apontado como tendo o maior desenvolvimento humano do planeta. Compensará com o interesse o que lhe falta em massa de gente.
2) Despesas de tradução
Qualquer obra estrangeira tem de ser traduzida para Português. Como os hábitos, as normas, as birras e os orgulhos impedem uma verdadeira unificação da língua (nem que fosse a um nível "formal"/literário), o "espaço português" e o Brasil não partilham traduções (nem mesmo edições em Português!) pelo que, mais uma vez, o custo de uma tradução feita em Portugal tem de ser suportado na totalidade pelos consumidores portugueses. Pessoalmente, devo dizer que já deixei de comprar traduções de obras anglófonas e, vingando o desígnio do Governo de transformar em bilingues todas as criancinhas, é fácil perceber que, nalgumas (poucas) dezenas de anos, o mercado das traduções de originais "ingleses" irá desaparecer. Nessa altura, muitos livros ficarão mais baratos mas serão lidos em Inglês... Não deixo de invejar os povos anglófonos que, com uma excepção aqui ou ali, partilham efectivamente (e apesar das diferenças) uma mesma língua, a ponto de, pondo de parte orgulhos parvos, se venderem edições inglesas escritas à americana.
3) Tipos de edição
Compare-se, para uma mesma obra, uma edição inglesa e uma portuguesa. Haverá grande probabilidade de a edição britânica ter o formato de livro de bolso, ser feita com papel aparentemente de pior qualidade e ter uma capa atraente. Por seu lado, a edição portuguesa terá um formato maior (fica melhor na estante), será feita com papel "finório" e terá uma capa apenas minimamente atraente. É certo que os ingleses costumam lançar edições de bolso (paperback) e "de mesa" (hardcover) mas não deixam de oferecer ao consumidor a escolha e é no segmento "de bolso" que os preços mais caem. Todos estes pormenores ajudam a determinar o preço de um livro. Se o formato é mais pequeno, gasta-se menos papel e tinta, se o papel é mais "fraco" - ainda caberia discutir se assim é, de facto -, fica mais barato e, finalmente, se a capa é mais atraente, haverá mais gente a ser "puxada" para o objecto aumentando, assim, as vendas.
Não há, portanto, que procurar explicações complicadas ou fatalmente diminuidoras da autoestima nacional para algo que pode ser explicado com o recurso ao bom-senso. Mas, se quiséssemos basear a explicação do "fenómeno" em factores meramente "comportamentais" (pelo lado do desinteresse do consumidor e da ganância do editor/vendedor) também teríamos de adiar os juízos categóricos até termos feito uma exaustiva comparação de preços com outras actividades e produtos onde, aparentemente, os preços são equivalentes aos dos livros mas o consumo é feito "sem queixas". Serão 15 euros um exagero por um livro quando um bilhete de cinema já se aproxima dos 6? Quando qualquer menu do MacDonalds ultrapassa os 5? Quando um bilhete para um concerto começa nos 25? Quando uma entrada para um jogo de futebol implica um gasto mínimo de 20 euros? Quando umas calças reles custam 15?
Nunca li nada de António Lobo Antunes. Confesso que ocasionais entrevistas me desmotivaram de o fazer. Mas não deixarei de, na devida altura, comprar uma obra sua para lhe apreciar o estilo que, espero, seja melhor do que o raciocínio demasiadamente "popular" que se lhe notou neste assunto dos preços...




