
Ainda no post anterior eu batia no jornal Público (e, por extensão, na comunicação social) e eis que acordo hoje sob novo ataque do sensacionalismo jornalístico, desta feita na sua versão TSF. Longe vão os tempos em que a "rádio de palavras" era uma fonte credível. A estação da Av. de Ceuta é hoje apenas mais um veículo de disparates e manipulação da opinião pública. Senão, atente-se na seguinte notícia: "Comunidade muçulmana rejeita distribuição de preservativos nas escolas"...
"Comunidade muçulmana": só o termo já me põe em sentido, jogando imediatamente com os sempre presentes fantasmas da invasão cultural e religiosa, do fanatismo religioso, da intolerância de costumes. O pelo eriça-se-me imaginando-os como um todo com um fim comum: destruir a minha cultura e tomar de assalto a liberdade que a Europa e a civilização ocidental me dão. Na rádio, prosseguem os pormenores: o sheik (tempos modernos... antigamente dizia-se xeque) da mesquita de Lisboa disse aos microfones da rádio que a colocação de máquinas de preservativos nas escolas é um incentivo à prática de relações sexuais antes do casamento, o que o Islão condena.
Ah, tranquiliza-se a minha consciência: afinal de contas, foi só o xeque e o homem é um líder religioso, logo, não pode por de parte a cartilha ideológica da religão que professa. Portanto, não há um qualquer movimento de massas por parte dos muçulmanos, tentando impedir que os nossos adolescentes tenham acesso às salvadoras borrachinhas nas casas-de-banho dos liceus. Fico mais descansado. Afinal de contas, a tal "comunidade muçulmana" resume-se à opinião de um sacerdote.
O noticiário prossegue e passamos a saber a opinião do "líder da comunidade judaica". Mais uma comunidade... E, ainda por cima, uma que, supostamente, estaria à beira da extinção. Erro meu: se há alguns anos eles eram apontados como umas meras 600 almas, o milagre deu-se e passaram a ser 5000. Andamos nós a temer a explosão demográfica por parte dos seguidores de Mafoma e, no fim de contas, são os judeus que se multiplicam que nem coelhos. Ou talvez não...
Bom, para os Judeus (segundo o seu líder - mas quem é que elege estes tipos?!), não há problema algum e o assunto é pacífico. Jeová não tem nada a ver com este assunto...
Mas, para as suas Testemunhas, já tem alguma coisa. É que, segundo o líder (oh porra, mais um!) das Testemunhas de Jeová, sexo antes do casamento não pode ser (mais uma das suas ridículas proibições)! Ainda assim, as Testemunhas têm confiança nos seus jovens porque "eles sabem o que hão-de fazer" o que, presume-se, quer dizer que não "o" farão... e, portanto, mesmo que as máquinas sejam arrombadas no dia seguinte à sua instalação (cenário mais do que provável), mesmo que alguns espertalhões semeiem camisinhas de vénus pelos liceus deste país, as jovens Testemunhas dirão: sexo, não! Devem ser eles que ainda por aí a fazer balões com os preservativos...
Você que está a ler isto, talvez tenha reparado numa curiosidade: as Testemunhas de Jeová, apesar de serem cerca de 150.000 (assustador, certo?), não constituem uma comunidade... O que será uma comunidade, pergunto-me? Aparentemente, para alcançar essa designação, é preciso não se ser cristão.
E ficou-se por aqui a curiosidade da TSF. Muçulmanos, Judeus e Testemunhas de Jeová tiveram todos direito a pronunciarem-se sobre um determinado assunto que, como envolve sexo, só pode ter a ver com religião...
No meio desta confrangedora estupidez, um luminoso raio de discriminação impediu que fossemos atacados pelas opiniões da IURD, Igreja Maná e demais charlatães que andam para aí a catar o dinheiro aos pobres de espírito. Mas, a verdade é que eles teriam mais direito a fazê-lo do que as "comunidades" muçulmana e judaica já que, desgraçadamente, até contam nos seus rebanhos, mais ovelhas tresmalhadas da razão. Por uma questão de preconceito e de definição legal, podem abrir o bico mas os microfones não estarão lá...
Como seria de esperar, o desejo dos jornalistas foi realizado e imediatamente se estabeleceu a confusão entre pessoas e comunidade, entre opinião e dogma, dando azo às habituais catadupas de comentários boçais online, quase todos baseados no não-conhecimento do "outro", nos lugares-comuns, na imbecilidade...
Se os "líderes" das comunidades pensassem um pouco, passariam a olhar com enorme desconfiança qualquer indivíduo que lhes botasse um microfone junto à cara já que o aproveitamente das suas legítimas opiniões para promoção da desinformação é gritante. A pior coisa que os muçulmanos podem fazer é dar nas vistas e andar por aí a opinar. Como se vê numa consulta à internet, o cidadão comum não tem preparação intelectual para discernir religião de cidadania, tradição de imposição e para, equilibradamente, comparar ideias e maneiras de estar. Para as minorias, falar é a melhor maneira de ficarem mal-vistos.
Finalmente, e indo além da manipulação jornalística, há que perguntar, de forma muito fria, o seguinte: a opinião de "grupos" religiosos que, todos juntos, apenas encheriam um subúrbio de Lisboa, tem alguma importância para o país?






