
Pode. E Gondomar, também. E a zona das Antas, igualmente. E qualquer outro local que um cacique resolva fazer seu feudo, pode, em qualquer altura, aspirar à independência. Miranda do Douro ainda mais e até tem uma língua própria (*).
A irresponsável manchete do Público (jornal cada vez mais sensacionalista) vem dar visibilidade a um não-assunto, conferindo-lhe uma credibilidade que advém da exposição mediática. Em Portugal, vive-se de factos políticos, situações geradas pela comunicação social para criar e alimentar polémicas onde elas não existem, provocando um cansaço na opinião pública, completamente soterrada sob milhentas irregularidades, diatribes, discussões que, fatalmente, acabam em nada, nunca se resolvendo as questões, nunca se apurando responsabilidades, nunca colocando um fim com sentido nos assuntos. A imprensa levanta lebres mas nunca as caça sendo que a única coisa que fica é uma sensação geral de que algo (porque não, tudo?) está mal e não há forma de melhorar. Promove-se a desconfiança, o derrotismo, a revolta interior...
A relação de amor-ódio entre a imprensa e Alberto João Jardim é tão mais intensa quanto a necessidade que ambos têm um do outro. Jardim necessita de estar constantemente nas bocas do mundo como forma de exercer pressão sobre o poder político central. As TV's e os jornais são o seu palco, o púlpito de onde ele promove a sua imagem irredentista. Aqueles, por sua vez, utilizam AJJ e os seus dislates para ter conteúdos... Jardim não se recusa a aparecer na comunicação social, por mais que esta, supostamente, o ataque e a imprensa não falha uma só oportunidade para dar ao presidente do governo regional o tempo de antena de que ele necessita. Porque, entendamo-nos, Jardim só existe na medida em que é visível. E qualquer que seja a "mensagem" que ele tenha para passar só pode ganhar adeptos com a divulgação feita pela imprensa nacional. A RTP-M tem pouca expressão ou nenhuma e os televisores madeirenses ocupam-se hoje com os canais da TV por cabo e das emissoras nacionais. Séries e novelas roubam a Jardim a preciosa exposição pública, portanto, há que ganhar os noticiários nacionais. E estes caem na ratoeira.
Tenho sérias dúvidas sobre o interesse que o homem comum possa sentir pelos disparates de AJJ. Vivemos numa sociedade de cidadãos ausentes, onde a pulsão consumista se impõe aos valores éticos, onde a noção de Pátria e bem comum ou está ausente ou é vista como uma herança de outros tempos que urge sacudir dos nossos ombros. Isto é uma vantagem para Jardim. Ele sabe que uma das maneiras de se vencer uma guerra é pelo cansaço e o português cansa-se rapidamente. As pessoas estão fartas de ouvir Jardim, riem-se mas, no fundo, preferiam que ele desaparecesse, acham-no um tipo incomodativo que só sabe exigir. Jardim agradece porque é essa a sua intenção: moer o país até ao ponto em que mais vale deixá-lo levar a bicicleta do que continuar ouvindo-o. Um pouco à imagem da actual geração de pais que, para que o filho se cale e pare com a birra, lhe dão tudo, também a sociedade portuguesa começa a não ter paciência para este homem. E isto é perigoso porque se a demissão do papel educativo por parte dos pais está na origem de futuros seres adultos cheios de defeitos e com claro défice de civismo, também a falha do poder central e das autoridades nacionais em domar Jardim virá a estar na origem de um sério problema de soberania.
Os partidos nacionais têm dificuldade em lidar com o ocupante da Quinta da Vigia. O PSD, desde logo, porque Alberto João é um êxito garantido da cor laranja para quaisquer eleições que se realizem no arquipélago, assegurando desde o 25 de Abril, o pleno de vitórias aos social-democratas; o PS, porque lhe falta gente com estatuto e garra para enfrentar Jardim no terreno e porque, dos seus "senadores", muitos estarão comprometidos com alguns dos princípios defendidos por aquele. Afinal de contas, não foi Mário Soares que declarou em tempos que se o Alentejo, um dia, quisesse tornar-se independente, teria todo o direito a isso? Quando a nossa maior figura política se exprime nestes termos, haverá pouco a esperar do Largo do Rato. Já os outros partidos políticos, não têm expressão local que lhes confira peso para influenciar as agendas nem vontade política para comprarem guerras com o furibundo Jardim. Este, verdade seja dita, demonstra uma apreciável capacidade para, aproveitando a displiscência alheia, se impor pela via "caceteira", ignorando todas as regras da contenção verbal, diplomacia política e respeito institucional.
O falhanço (por ausência de tentativa, até) em trazer AJJ para registos moderados na luta política atravessa horizontalmente as instituições da República. Desde a denúncia (sem efeitos práticos) de despesas e procedimentos administrativos de legalidade duvidosa ou eticamente reprováveis, até à subserviência de figuras de Estado como o Presidente da República, existe uma espécie de assobiar para o lado que, muitas vezes, se torna difícil de entender se tem as suas raizes em pura cobardia política (e física?), incompetência ou... cumplicidade.

Alberto João Jardim tem como única utilidade, para o conjunto da nação, servir de pior exemplo do que poderia ser uma espécie de balcanização do país caso algum dia a Regionalização triunfasse. A Esquerda democrática, a quem as políticas regionalizantes são caras, não pode, não quer ou não consegue reconhecer que, paradoxalmente, a governação de Jardim representa a derrota das suas ideias de cedência de poder do Estado para com entidades políticas intermédias (entre as autarquias e o Governo da República). Derrota, porque facilmente se percebe que Jardins haverá muitos, nascidos e por nascer em personagens mais ou menos denunciadas e que sonham poder crescer acima do seu clube desportivo, município ou grupo empresarial, utilizando como estratégia de afirmação o espectáculo do confronto com o sempre diabolizado "poder central".
Se o poder autárquico radica numa antiga e saudável tradição que remonta aos forais medievais, as autonomias e as regiões são algo morderno e contra-natura, entidades excessivamente "poderosas" que despertam, fatalmente, apetites políticos de demarcação do todo nacional. Os municípios, pelo seu tamanho e inevitável proximidade cultural e geográfica com os vizinhos, não têm capacidade para reivindicar "particularidades" que lhes permitam alimentar fantasiosas ideias de "diferença" e fazer destas estandarte unificador do eleitorado sob sua influência.
Portugal, pelo seu processo de formação - e posterior evolução -, sempre se assumiu como uma entidade homogénea onde mesmo a corrente migratória pós-independência das colónias africanas não conseguiu abrir brecha de monta. Racial, religiosa e linguisticamente, somos um bloco que terá a força que lhe quisermos (ou não) dar. O território que hoje habitamos é o que viu surgir os nossos antepassados (continente) ou aquele que colonizámos a partir do nada (ilhas). Não estamos, portanto, a ocupar nada que não tenha sido, de raiz, nosso.
Neste contexto de um povo uno habitando o seu território natural, quisquer pretensões bairristas, regionalistas, ou separatistas só poderiam merecer do todo da sociedade um perfeito desprezo, assente na consciente noção da inexistência de descontínuos culturais que permitam que as naturais diferenças entre territórios diversos e consequentes adaptações das populações aos mesmos surjam como elementos de rutura política.
este post continua mais tarde...
(*) O Mirandês é mais conhecido, lá fora, como Asturiano ou Asturo-Leonês.