
De vez em quando é trazida à baila a velha expressão hitleriana "Fortaleza Europa", sempre fora do contexto que lhe deu origem, quase sempre utilizada como forma de encurralar adversários "políticos" numa espécie de beco ideológico de má-fama, de onde só se sai com forte penitência humanista e actos de contrição ditados pela esquerda mais ou menos radical.
A "Fortaleza Europa" do ditador alemão era um conceito ditado pela lógica de guerra e que tinha a sua expressão física nas fortificações construídas para impedir uma invasão dos territórios europeus conquistados pelos Nazis. Era algo de contra-natura porque, sendo europeia, era, ao mesmo tempo, um obstáculo a outros europeus e porque tinha origem numa sequência de eventos de destruição (a 2GM), cuja natureza revoltante atribuia um cunho funesto à ideia de "defesa do continente". Esta defesa era a de um regime homicida perante a reacção das forças que lutavam pela liberdade, logo, a "Fortaleza Europa", era apenas mais uma manifestação de agressão à própria Europa.
Quando se compara a lógica de defesa militar do III Reich com eventuais políticas "anti-imigração" por parte da União Europeia ou dos seus estados membros, está-se, não só a incorrer numa desonestidade ideológica como também numa injustiça em termos morais ao vermos que vários dos países que mais sofreram sob a bota Nazi são, agora, atirados para um saco no fundo do qual estão os seus verdugos de há sessenta anos. É uma companhia indesejável, convenhamos.
Ao contrário das fortificações alemãs que protegiam a vitória da violência sobre a paz, da opressão sobre a liberdade, da máquina de guerra sobre o Homem, os conceitos anti-imigração (e quantos o serão, efectivamente, puros e duros?) não pretendem a substituição da democracia, nem a implantação de novas realidades políticas contrárias à vontade da maioria da população. Muito pelo contrário, assentam na
vox populi e têm como fim a manutenção daquilo que se considera uma "qualidade de vida" europeia, entendo-se tal como um conceito lato que abarca a economia, a cultura e a etnicidade.
Mas isto dava pano para mangas e não é agora que me apetece estar (no antigo "Dia da Raça"), a entrar por esses caminhos. Se aqui trouxe esta ideia da "Fortaleza Europa" - por oposição à política de portas abertas -, é porque, recentemente, reparei nalgumas incongruências que existem na definição do que é a Europa. Ninguém põe em causa as fronteiras geográficas do nosso continente, que continuam a acabar lá nos Urais e no estreito do Bósforo mas, no que toca às políticas, a coisa já é bastante variável. Tão variável que, ao mesmo tempo que a União Europeia recusa (e bem) a entrada da Turquia no clube de Bruxelas, a UEFA estende as fronteiras da Europa até às portas da Mongólia, com a inclusão do Cazaquistão no grupo de países que disputam as competições europeias de futebol. Por sua vez, a Eurovisão chegou a estender a mão a um país tão europeu quanto Marrocos...
 A concepção da Europa, segundo a UEFA |  A concepção da Europa, segundo a Eurovisão |
Convenhamos que é natural que os Turcos se sintam confundidos: são europeus para dar pontapés na bola e para cantar mas, quando chega aos subsídios europeus, já são asiáticos?
Qual deverá ser, então, o critério a seguir para considerar um país como sendo europeu? Assim de repente, existem dois que são habitualmente referidos:
1) Ter parte do seu território na Europa
Isto faria da Turquia, por força da Trácia, um país europeu. Mas, a ser assim, a Espanha também poderia invocar a qualidade de país africano (Canárias e territórios em Marrocos), a França e o Reino Unido seriam países Euro-Américo-Asiáticos (pelo menos) e até a Dinamarca poderia (ainda) dizer-se Americana, à custa da Gronelândia. E a lista de países europeus pluri-continentais não ficaria por aqui...
2) Ter uma matriz-cultural judaico-cristã
A Igreja queria que este factor fosse oficialmente aceite como fazendo parte da europeidade. Embora o Papa nunca tenha sequer aventado a hipótese de esta característica servir de critério de exclusão, a verdade é que, a tê-la em conta, a Albânia, O Kosovo e a Bósnia imediatamente passariam a ser vistos de soslaio. Que dizer da Turquia, então...
De tão rápida e incompleta "análise" já se vê que a justificação do "acesso" à Europa é difícil utilizando apenas um dos critérios acima mencionados. Poder-se-á dizer que nenhum país europeu quer ser africano ou americano - mesmo que possua territórios nesses continentes -, mas que o contrário já seria espectável. E isso é verdade. Mas o princípio está lá e a Rússia é considerada um país essencialmente europeu, apesar de a maior parte da sua gigantesca massa territorial se encontrar no continente asiático. Porque não a Turquia, então? Porque a Rússia acaba por satisfazer os dois critérios (território e cultura), porque a sua parte europeia é enorme, porque a sua capital está na Europa e porque há muito que faz parte da Europa política. No caso da Turquia, nada disto se verifica.
Porquê baralhar, então, o que poderia ser relativamente simples? O bom-senso seria suficiente para entender que a Turquia não é um país europeu, ainda que possa ter um pé na Europa. Mas, como se percebe, bom-senso é coisa rara, e as modestas contribuições da UEFA e Eurovisão para a confusão dão bem a noção do estado das coisas...
P.S.: chamar "ditador" a Adolf Hitler não está propriamente certo já que ele foi eleito pelo voto democrático, algo que o distingue (bem como a todo o fenómeno nazi) dos habituais ditadores. Digamos que o uso do termo foi uma concessão ao politicamente-correcto...