Se há país com o qual sempre simpatizei foi a Suíça. Talvez tenha sido daquelas grandes tabletes de chocolate que antigamente se vendiam, embrulhadas em papel com pequenas fotografias do país e que ainda hoje associo a uma idade de conforto familiar. Quando pude, lá me fiz ao caminho para ir conhecer o país das montanhas e dos comboios. Foram duas semanas caras mas que me encheram a alma com "bilhetes postais" dos mais belos que já vi (e vi muito!).
Uma das coisas que me chamaram a atenção em território helvético foi a quantidade de cartazes que vi relativos a referendos. Aparentemente, aquela gente passa a vida a ser chamada a dar a sua opinião em consultas de iniciativa popular. Na altura, estava em curso a campanha relativa à abertura dos supermercados ao Domingo. Nunca me esqueci do cartaz do "não", com uma criança em frente a uma TV onde aparecia escrito "shit happens!". Se eu já apreciava a ideia que tinha da Suíça enquanto país organizado e respeitador das diferenças internas, a forma como o Estado entrega o poder aos seus cidadãos permitindo-lhes influenciar diretamente as leis deixou-me "apaixonado" pela democracia alpina. Ali, sim, o povo é, efetivamente, quem mais ordena!
Ora, agora mesmo, o povo suíço foi chamado às urnas para dizer sim (ou não) à proibição da construção de minaretes em território da Confederação. E o povo, democraticamente, votou pela proibição, passando a mesma a constar da Constituição nacional.
Repare-se que o referendo não foi sobre a permanência de muçulmanos na Suíça, nem para proibir a sua liberdade religiosa, nem para limitar os seus direitos cívicos ou qualquer outra coisa que os diminuisse enquanto cidadãos. Não, o referendo limitou-se a uma questão estética: a existência de torres (autênticos "foguetões" na maior parte dos casos - eu já viajei pela Turquia), espalhados pela absolutamente magnífica paisagem suíça, desvirtuando-a esteticamente e assumindo-se como pontas de lança de uma cultura que, sendo tolerada, não é a natural do país.
É escusado dizer que a decisão soberana do povo de um país que não tem de receber lições de democracia de ninguém imediatamente foi atacada pelo tipo de gente "bem pensante" que de há décadas a esta parte se tem encarregado de semear pelo velho continente essa coisa a que vulgarmente se chama de "multiculturalismo", que nunca foi pedido pelas populações nativas e que lhes é imposto ativamente pelas forças políticas de extrema-esquerda perante a passividade envergonhada da direita e o laxismo da esquerda democrática.
Uma das formas mais correntes de assegurar o silêncio do "contra" é a colagem aos radicalismos de direita, nomeadamente com a invocação do Holocausto perpetrado pelos nazis (ao mesmo tempo que se continua a ignorar os hediondos crimes comunistas, nomeadamente os de cariz xenófobo). Alcançando-se uma espécie de auto-censura que leva os cidadãos a terem vergonha de expressarem as suas opiniões publicamente (com exceção das mesas de café), assegura-se a predominância das ideias "libertárias" e, consequentemente, o estatuto indiscutível do multiculturalismo e de tudo o que o segue.

No caso do referendo suíço sobre os minaretes, a habitual tática de lançar gritos de xenofobia e racismo (o parzinho do costume) vai de encontro a uma maciça parede feita da prática democrática suíça e do absoluto respeito que aquela gente tem pelas diferenças culturais, linguísticas e religiosas dos seus habitantes, respeito esse na génese da própria confederação, feita de cantões livres que voluntariamente se associaram. É por isso que a Confederação Helvética tem quatro línguas oficiais (embora apenas três sejam correntes), que os cantões têm leis próprias e isso não converte a Suíça num caldeirão sempre pronto a explodir à menor tensão. A Suíça é um paradoxo que só se explica pelo verdadeiro direito à democracia.
Mas a esquerda radical tem um problema com a democracia, i.e., a esquerda a sério acha que a democracia é bonita desde que seja bem controlada, desde que só possa ser exercida ocasionalmente e sempre sob a tutela partidária. "O povo é quem mais ordena" é uma expressão bonita que tem o apelo de todos os motes panfletários e revolucionários mas que vai pouco mais além dos assuntos que os comités centrais decidam atirar para a rua. Quando o povo decide que quer mesmo ordenar sobre tudo, a esquerda, qual gato assustado, fica com os pelos todos eriçados e grita: intolerância!
Sim, porque o mesmo povo para quem a esquerda exige o direito ao referendo em matérias tão complexas quanto os tratados diplomáticos internacionais, alianças militares, organização interna do aparelho de Estado, etc. (coisas que exigem um grau de conhecimento e esclarecimento que escapa à esmagadora maioria da população), esse mesmo povo - dizia -, quando pretende ser consultado sobre coisas tão mais simples quanto a política de imigração, o multiculturalismo ou - como se viu na Suíça -, a proibição da invasão de elementos estéticos alienígenas, já é visto pela esquerda como uma perigosa massa radical à qual não se pode dar a voz, sob peso de fazer a civilização recuar séculos. O povo é quem mais ordena, mas só nos assuntos em que a esquerda quiser.
Felizmente, na democracia Suíça o povo pode ordenar sobre aquilo que muito bem entender e só tem medo disso quem tiver medo da própria democracia. Sabemos que a esquerda radical, onde quer que tenha tido o poder, imediatamente se encarregou de acabar com a democracia e fê-lo recorrendo ao genocídio, à deslocação de populações, à perseguição religiosa e étnica... Enfim, recorrendo a todos os expedientes que gosta de imaginar nos seus adversários.
A esquerda radical tem medo do povo, enquanto não o puder controlar. A esquerda democrática, tem medo de perder votos. A direita tem medo de ficar mal-vista e a direita radical, quando tem tempo de antena, passa mais tempo a defender-se do que a explicar as suas ideias. O mundo em que vivemos é este e é apenas uma amostra do que nos espera: um mundo de gente amordaçada pelo preconceito, auto-censurada, vítima de minorias, impedida de exigir respeito pelas suas tradições, história... até paisagem!
Os muçulmanos suíços continuam livres. Mais livres do que nos seus países de origem (mais ou menos remota), com a liberdade que lhes assegura uma sociedade democrática, livre e próspera. Podem ir à mesquita quando quiserem, podem comemorar o Ramadão, podem educar os seus filhos na fé do Islão, podem usar lenço, podem usar túnica mas não podem plantar minaretes. E então, qual é o mal?








