Em Português nos entendemos?!

No serviço de apoio ao cliente da empresa onde trabalho caiu um pedido com o seguinte título:

Label no container do Login



Abrindo-o, revelou-se todo o mistério...

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Qualquer semelhança entre este linguarejar e a língua que - dizem -, se fala neste país, só pode ser mera coincidência.

A cidade dos aviõezinhos

A Invicta, volta e meia, fica agitada. Não estou a falar das cíclicas festas a comemorar as vitórias do FCP, nem do famoso São João. Há, de vez em quando, "matérias" que geram polémicas com formatos muito próprios, muito viscerais.

Nós aqui, da cidade capital, olhamos para as questiúnculas com origem na cidade das tripas e, geralmente, rimo-nos das personagens envolvidas (há umas certas semelhanças entre o Porto e a aldeia de irredutíveis gauleses, mormente quando desatam todos à pancada). Ou é um ex-major aos berros, ou é um ex-médico a chorar pedindo para o deixarem ir para casa, ou é um novo presidente da câmara a tentar salvar a pele de uma claque desportiva ainda menos recomendável do que as outras, ou é isto ou aquilo mas, naquela terra - e arredores -, parece que andam sempre todos descontentes uns com os outros e, depois, com os de cá de baixo. Entenda-se por "os de cá de baixo", os que cá estão e os que para cá vierem.

Desta vez, a nova polémica a trazer mais vivacidade àquela cadência choradinha com que os nossos irmãos portuenses falam é a dos aviõezinhos (ou "abionzinhos", que nós não alinhamos em discriminações de pronúncia). A malta do Porto está indignadíssima com a infernal capital por esta lhe ir "tirar" a organização da corrida da Red Bull. Como sempre, nada como ler os comentários às notícias na internet para nos apercebermos dos limites de estupidez a que o ser humano consegue chegar: pedem-se cortes de estrada, revoltas e revoluções, independência, restauração do Condado Portucalense (depois, começam as brigas por causa da definição de fronteiras), união com a Galiza, integração em Espanha, o diabo a quatro... E, a gente, aqui, ri-se...

Parece que a Red Bull tinha um contrato com a CMP e o contrato acabou. A CML adiantou-se e tentou trazer o evento para Lisboa. O Governo, estupidamente, meteu-se ao barulho. Ou seja, o município lisboeta fez o que lhe competia na defesa dos interesses de Lisboa, o do Porto, pelos vistos, não o fez e o Governo meteu-se onde não devia, o que, agora, dá azo a que aquela gente lá de cima ande a imaginar, como de costume, conspirações maquiavélicas para tirar o brilho à Invicta.

Mas isto seria demasiadamente simples. O problema do Porto não reside na linha do Tejo mas sim em si mesmo. O Porto é uma cidade com um ego exacerbado e, como acontece quase sempre a personagens com semelhante defeito, perde demasiado tempo a falar de si mesmo e muito pouco a fazer pela vida. Esta situação dos aviões é o melhor dos exemplos: a reacção perante a deslocalização da prova não foi de confronto saudável, nem de dinamismo institucional. A concorrência não agrada ao Porto. Ele quer a prova porque é sua e ponto final. Chegou lá primeiro e o resto que se lixe. É como aqueles homens que acham que por terem sido o primeiro namorado de uma rapariga, ela tem de lhes ser fiel para toda a vida. Só que a Red Bull quer é dinheiro e está-se pouco importando para o Porto ou Lisboa ou a Cascalheira. No Porto não percebem isso e reagem como crianças mimadas a quem tivessem tirado um brinquedo.

A associação de comerciantes do Porto vai mais longe na birra por causa dos aviões, incitando a um boicote aos patrocinadores do evento. Que nem mais um pingo de Red Bull escoe pelas gargantas da juventude portuense! Que nem mais um SMS seja enviado pela TMN! Que nem mais um carro role com gasosa da Galp! Fim aos patifes que roubam a cidade! Morte aos "bámpiiros" da capital que comem tudo.

Só fica por explicar é porque raio é que as tão faladas "forças vivas" do Norte (essa mítica região onde as cidades são todas rivais umas das outras), como de costume, são incapazes de assegurar a prevalência dos seus interesses sobre os de Lisboa. Fica por explicar como é que, no meio de tanto super-empresário, associação comercial e industrial, milionário e família rica de longos pergaminhos, ninguém consegue desencantar formas de dinamizar o Porto, seja com provas desportivas, eventos culturais de massas, estabelecimento de empresas e artistas ou qualquer outra coisa. Ninguém consegue explicar como é que uma vilazinha ao lado de Lisboa consegue ser competitiva com esta (falo de Oeiras) e a (ainda) segunda cidade do país só consegue olhar para a placa de saída...

Realmente, é fácil, é muito fácil pedir boicotes porque estes exigem aquilo em que a "cidade do trabalho" é melhor: não fazer uma porra! Depois, diz-se que é tudo porque os outros são maus como as cobras. Será que até um concerto musical tem de ser organizado no Porto por empresas de Lisboa? Os U2 vão tocar duas vezes em Coimbra, O George Michael foi lá, os Dire Straits tocaram no Algarve mas, no Porto, ninguém pára? Como explicar isto? É culpa do Governo?

A questão dos aviõezinhos prova o quão atual se mantém a famosa cena do Herman José e do seu Engº reunido numa cave secreta com mais três palermas que passam o tempo a irritarem-se uns com os outros enquanto planeiam ofuscar o brilho da Expo 98 com o seu Tripanário (que nunca mais está construído). O humor pode ser uma grande lição... Haja vontade de a aprender!

Racismo x Adaptação

Alguns ainda se lembrarão da mais ou menos recente polémica que envolveu a Microsoft através da sua filial polaca, tudo porque esta resolveu, numa publicidade, substituir a cabeça de um homem mulato pela de um homem branco. Racismo! Gritaram logo os habituais setores exaltados da sociedade. Perdão! Disse apressadamente a empresa americana.

Quem conseguir aliar o bom senso ao mínimo conhecimento do mundo, saberá que a "identificação" é algo de essencial na publicidade. O público-alvo tem de se identificar com as coisas que vê. É por isso que, sendo a publicidade feita na China muito mais barata do que a que se faz por cá, os detergentes para a louça não têm chineses sorridentes mas sim brancos. É por isso que se contratam caras conhecidas da TV para comerciais - porque as pessoas as conhecem e se "identificam" com elas...

Ora, na Polónia não há pretos. E, mesmo que houvesse, não seriam mais do que uma parcela insignificante das várias dezenas de milhões de habitantes que o país tem, logo, um anúncio com um mulato lá metido, não tem nada a ver com o público-alvo.

Por cá, apesar de os não-brancos não chegarem a, parece, 2% da população, já vai havendo o hábito de exagerar a proporção incluindo sempre alguém mais escuro (nunca preto ou indiano) de forma a contentar os espíritos politicamente corretos.

Mas, na Polónia não o fizeram e, vai daí, caiu o Carmo e a Trindade. Curiosamente, tivemos acesso a outro caso semelhante, ainda mais recente, e que envolveu a série de desenhos animados "Simpsons". Estes, como sabem, são orgulhosamente (ups...) amarelos mas passaram por uma cura de escurecimento para a publicidade relativa ao lançamento da série em terras africanas, mais propriamente, em Angola.

E agora? Mudaram a cor aos Simpsons (só para a publicidade), vestiram-nos com outras roupas, mudaram-lhes os penteados... Raios, até alteraram a paisagem no quadro pendurado na parede! Mas, atenção, agora já não é um caso de racismo... é, apenas, adaptação ao público-alvo...

Sorrisos amarelos

"Os sorrisos do destino" é a nova longa-metragem de Fernando Lopes. A apresentação da fita - vista e revista vezes sem conta ao fim de algumas idas ao cinema -, é competente no seu papel de deixar o espetador com vontade de ir ver o filme. E eu fui.

Fui, mas não gostei. E digo já que, atendendo a que é um filme português, convém afastar o quanto antes a hipótese de o meu desgosto se dever àquela peçonha intelectualóide que costuma cobrir a maior parte dos filme cá da terra: o filme de que falo não é um filme "para a cabeça". É, apenas, um filme "sem cabeça"...

Fernando Lopes, responsável por uma das minhas poucas fugas de sala com o seu "98 octanas", fez um filme com uma história débil, servido por personagens repletas de chavões e tão profundas quanto uma poça, assente em péssimos diálogos (com um ou outro momento engraçado) e uma falta de verosimilhança que nem a mais condescendente ironia poderia justificar.

Um casal vive em crise. Ambos vivem num belo apartamento. Ele escreve coisas num caderninho, num estúdio de fotografia e ela parece que anda ligada à literatura e à rádio. Ele, como fica bem em qualquer homem de meia-idade que se preze, é apreciador de Jazz e de whiskey e tem um fraco por boleros (passamos o filme a ouvir canções em Castelhano - o que é óptimo para as dobragens). Ela, como mulher culta, prefere a música clássica. Ele só come e cozinha pratos italianos e gosta bastante de expressões em língua estrangeira. Ela, resolve ocupar o seu tempo com um caso amoroso com um escritor angolano, cabrito, que vive numa obra de arquitectura moderna no Alentejo. Já se vê que ser escritor angolano, em Portugal, dá imenso dinheiro... Ele - o escritor -, apesar de ser um tipo jovem, culto, com boa pinta e viver no Alentejo, fala com a mais genuína pronúncia dos muceques de Luanda e conversa com a sua criada numa ininteligível língua africana. Ele - novamente o escritor -, tem um cão ao qual chamou "Wotan" porque é fan absoluto de Wagner e até gosta de cantar áreas em alemão ao seu cão. Ele - agora, o marido encornado -, tem um colega de trabalho para quem Fernando Lopes reservou a duvidosa graça de ter sempre uma palavrão ao canto da boca (aliás, parece que o realizador - ou quem lhe escreveu os diálogos -, acha que soltar bujardos é a melhor forma de fazer as personagens parecerem genuínas). Ele e Ela - o casal -, têm um filho que anda sempre de fato e gravata e patins em linha e tem uma namorada cuja personagem só perde em desinteresse para a do seu "mor" porque ninguém consegue perceber que raio anda este casal a fazer na história... E, parece que é tudo em questão de personagens. Ele - o marido -, e Ele - o amante, tornam-se amigos enquanto petiscam e bebem vinho e, no fim, não se percebe em que é que tudo aquilo fica. Da mesma forma que não se percebe como é que continuamos a gastar dinheiro a subsidiar merdas destas!

No cômputo geral, dou os meus parabéns ao cão, um belo Labrador amarelo, que parece ser a única coisa verdadeiramente genuína que atravessa a fita.

Eu sabia!

Eu sabia que o Lou Reed me fazia lembrar de alguém - ou algo...

O povo, mas só às vezes...

Se há país com o qual sempre simpatizei foi a Suíça. Talvez tenha sido daquelas grandes tabletes de chocolate que antigamente se vendiam, embrulhadas em papel com pequenas fotografias do país e que ainda hoje associo a uma idade de conforto familiar.

Quando pude, lá me fiz ao caminho para ir conhecer o país das montanhas e dos comboios. Foram duas semanas caras mas que me encheram a alma com "bilhetes postais" dos mais belos que já vi (e vi muito!).

Uma das coisas que me chamaram a atenção em território helvético foi a quantidade de cartazes que vi relativos a referendos. Aparentemente, aquela gente passa a vida a ser chamada a dar a sua opinião em consultas de iniciativa popular. Na altura, estava em curso a campanha relativa à abertura dos supermercados ao Domingo. Nunca me esqueci do cartaz do "não", com uma criança em frente a uma TV onde aparecia escrito "shit happens!". Se eu já apreciava a ideia que tinha da Suíça enquanto país organizado e respeitador das diferenças internas, a forma como o Estado entrega o poder aos seus cidadãos permitindo-lhes influenciar diretamente as leis deixou-me "apaixonado" pela democracia alpina. Ali, sim, o povo é, efetivamente, quem mais ordena!

Ora, agora mesmo, o povo suíço foi chamado às urnas para dizer sim (ou não) à proibição da construção de minaretes em território da Confederação. E o povo, democraticamente, votou pela proibição, passando a mesma a constar da Constituição nacional.

Repare-se que o referendo não foi sobre a permanência de muçulmanos na Suíça, nem para proibir a sua liberdade religiosa, nem para limitar os seus direitos cívicos ou qualquer outra coisa que os diminuisse enquanto cidadãos. Não, o referendo limitou-se a uma questão estética: a existência de torres (autênticos "foguetões" na maior parte dos casos - eu já viajei pela Turquia), espalhados pela absolutamente magnífica paisagem suíça, desvirtuando-a esteticamente e assumindo-se como pontas de lança de uma cultura que, sendo tolerada, não é a natural do país.

É escusado dizer que a decisão soberana do povo de um país que não tem de receber lições de democracia de ninguém imediatamente foi atacada pelo tipo de gente "bem pensante" que de há décadas a esta parte se tem encarregado de semear pelo velho continente essa coisa a que vulgarmente se chama de "multiculturalismo", que nunca foi pedido pelas populações nativas e que lhes é imposto ativamente pelas forças políticas de extrema-esquerda perante a passividade envergonhada da direita e o laxismo da esquerda democrática.

Uma das formas mais correntes de assegurar o silêncio do "contra" é a colagem aos radicalismos de direita, nomeadamente com a invocação do Holocausto perpetrado pelos nazis (ao mesmo tempo que se continua a ignorar os hediondos crimes comunistas, nomeadamente os de cariz xenófobo). Alcançando-se uma espécie de auto-censura que leva os cidadãos a terem vergonha de expressarem as suas opiniões publicamente (com exceção das mesas de café), assegura-se a predominância das ideias "libertárias" e, consequentemente, o estatuto indiscutível do multiculturalismo e de tudo o que o segue.


No caso do referendo suíço sobre os minaretes, a habitual tática de lançar gritos de xenofobia e racismo (o parzinho do costume) vai de encontro a uma maciça parede feita da prática democrática suíça e do absoluto respeito que aquela gente tem pelas diferenças culturais, linguísticas e religiosas dos seus habitantes, respeito esse na génese da própria confederação, feita de cantões livres que voluntariamente se associaram. É por isso que a Confederação Helvética tem quatro línguas oficiais (embora apenas três sejam correntes), que os cantões têm leis próprias e isso não converte a Suíça num caldeirão sempre pronto a explodir à menor tensão. A Suíça é um paradoxo que só se explica pelo verdadeiro direito à democracia.

Mas a esquerda radical tem um problema com a democracia, i.e., a esquerda a sério acha que a democracia é bonita desde que seja bem controlada, desde que só possa ser exercida ocasionalmente e sempre sob a tutela partidária. "O povo é quem mais ordena" é uma expressão bonita que tem o apelo de todos os motes panfletários e revolucionários mas que vai pouco mais além dos assuntos que os comités centrais decidam atirar para a rua. Quando o povo decide que quer mesmo ordenar sobre tudo, a esquerda, qual gato assustado, fica com os pelos todos eriçados e grita: intolerância!

Sim, porque o mesmo povo para quem a esquerda exige o direito ao referendo em matérias tão complexas quanto os tratados diplomáticos internacionais, alianças militares, organização interna do aparelho de Estado, etc. (coisas que exigem um grau de conhecimento e esclarecimento que escapa à esmagadora maioria da população), esse mesmo povo - dizia -, quando pretende ser consultado sobre coisas tão mais simples quanto a política de imigração, o multiculturalismo ou - como se viu na Suíça -, a proibição da invasão de elementos estéticos alienígenas, já é visto pela esquerda como uma perigosa massa radical à qual não se pode dar a voz, sob peso de fazer a civilização recuar séculos. O povo é quem mais ordena, mas só nos assuntos em que a esquerda quiser.

Felizmente, na democracia Suíça o povo pode ordenar sobre aquilo que muito bem entender e só tem medo disso quem tiver medo da própria democracia. Sabemos que a esquerda radical, onde quer que tenha tido o poder, imediatamente se encarregou de acabar com a democracia e fê-lo recorrendo ao genocídio, à deslocação de populações, à perseguição religiosa e étnica... Enfim, recorrendo a todos os expedientes que gosta de imaginar nos seus adversários.

A esquerda radical tem medo do povo, enquanto não o puder controlar. A esquerda democrática, tem medo de perder votos. A direita tem medo de ficar mal-vista e a direita radical, quando tem tempo de antena, passa mais tempo a defender-se do que a explicar as suas ideias. O mundo em que vivemos é este e é apenas uma amostra do que nos espera: um mundo de gente amordaçada pelo preconceito, auto-censurada, vítima de minorias, impedida de exigir respeito pelas suas tradições, história... até paisagem!

Os muçulmanos suíços continuam livres. Mais livres do que nos seus países de origem (mais ou menos remota), com a liberdade que lhes assegura uma sociedade democrática, livre e próspera. Podem ir à mesquita quando quiserem, podem comemorar o Ramadão, podem educar os seus filhos na fé do Islão, podem usar lenço, podem usar túnica mas não podem plantar minaretes. E então, qual é o mal?

Todos somos iguais mas alguns são mais iguais...

O título deste post é uma ironia tirada do livro "Triunfo dos porcos", de George Orwell, agora reeditado sob o nome mais correcto de "Quinta dos animais" ("Animal farm") e vem a propósito de um conjunto de intervenções que hoje foram feitas, na Assembleia da República, relativas à violência contra as mulheres (ver notícia no Público).

O tema é melindroso, como parecem ser cada vez mais assuntos que toquem setores da sociedade que se digam discriminados. Desde sempre que as mulheres foram alvo de machismo agressivo, nomeadamente na forma física e isso ainda é uma constante em todas as sociedades (por mais que os estúpidos do costume queiram achar que é característica nossa, o habitual poço de pecados do mundo). Mas, se é verdade que os problemas devem ser discutidos, também não o é menos que nunca se deve perder o norte nas discussões e é essencial manter a linha dos princípios bem presente. Discuta-se a prática mas não se omitam os princípios gerais. Ora, no caso da violência contra as mulheres (que não se limita a violência "doméstica") o que parece estar a acontecer é a criação de uma espécie de condição de exceção (sim, o acordo ortográfico...) que visa garantir que as agressões a mulheres estejam sujeitas a algum tipo de agravamento penal e a solução dos casos seja tida como prioritária perante outros tipos de agressão.

Conforme exigiu a deputada do CDS-PP, Teresa Caeiro, pretende-se "tolerância zero" para com os maus-tratos a mulheres. Mas, aqui, cabe perguntar: e os outros? Qual o grau de tolerância que a sociedade deve ter para os maus-tratos de outro tipo? Devemos nós aceitar que uma brutal agressão a um homem seja considerada menos grave ou não-prioritária perante uma agressão a uma mulher? Devemos considerar justificável a ideia de "classes" de cidadãos, com base no sexo, na raça, na religião?... Porque, a tentação que existe nos grupos que se dizem vítimas de algo é, sempre, reivindicarem um estatuto especial para si, alegando que tal condição é necessária para desencorajar eventuais problemas. Só que isto é exigir tratamento desigual, preferencial, e é uma escandalosa violação de um princípio basilar de uma sociedade democrática, consagrado em todas as contituições modernas: o da igualdade dos cidadãos.

A vingarem estas ideias de "tolerância zero" para com agressões (de que tipo for) ao grupo A ou B, estamos a criar uma sociedade ainda mais desigual e viciosa onde estas "preferências" produzidas pelo politicamente-correto tenderão a transbordar para as pequenas coisas do dia-a-dia com as naturais consequências sociais.

Valerá aqui a pena recordar o clima de medo no emprego, conseguido nas sociedades anglo-saxónicas com regras e mais regras contra o assédio sexual, a ponto de um simples elogio a um penteado poder ser utilizado como forma de conseguir vantagens através da mera sugestão de uma queixa por assédio?

Quando elementos de um determinado grupo social sentem que a lei está do seu lado (pressupondo que não estará do lado dos outros) e que, no caso de eventuais problemas, têm o crédito de pertencerem a uma "espécie protegida", esses elementos ganham um capital de prevaricação que só uma condição moral acima da média pode evitar usar em proveito próprio. Veja-se a chantagem que constantemente é feita sobre a sociedade e o uso abusivo de acusações de racismo e xenofobia, sempre que qualquer conflito envolve estrangeiros.

Os chamados "crimes de ódio" (tradição literal do Inglês) podem hoje ser qualquer coisa desde que se queira fazer notar algum tipo de diferença entre as duas partes e quase sempre há uma delas que, à partida, só é condenável e outra que só é vitimável.

Uma sociedade paternalista ("elas" nem notam que aquilo que pretendem é, realmente, a institucionalização da ideia de "sexo fraco") é uma sociedade formalmente desigual e podre, que faz de parcelas dos seus cidadãos reféns da lei e dos seus semelhantes pelo simples facto de terem nascido com o sexo ou a raça "errados"... Dir-me-ão que qualquer vítima de preconceito sabe o que isto é. É verdade, mas a diferença está no reconhecimento legal da diferença enquanto vantagem de uns e desvantagem de outros. Um caso gritante é o da entrega da custódia em casos de divórcio. Suponho que não haja base legal para a aviltante discriminação de que os homens são alvo nos tribunais mas isso não faz deste fenómeno algo de tolerável. Da mesma maneira que a violência contra as mulheres não se torna menos grave por não existirem leis de exceção.

Agressão é agressão, violação é violação, violência é violência, independentemente de quem a pratica e de quem a sofre. A lei não pode ter em conta qual o sexo de cada uma das partes, ou a cor da pele, ou as tendências sexuais... A justiça não pode afastar um pouco a venda para ver quem está à sua frente. Exige-se que continue cega sob pena de deixar de ser justa e marcar o fim do Estado de Direito, aquele pelo qual, ironicamente, tanto lutaram os que, cada vez mais, se vêem encurralados numa espécie de gueto para gente potencialmente perigosa...

Animais no jardim

Parece que o urso levou o cão a passear ao jardim, ali para a zona do Campo Mártires da Pátria.

Eram simpáticos, os dois. Sossegados e o cão não sujou nada.

Cumprimentei-os, ficando a aguardar voltar a vê-los por ali...

Abrir os olhos de vez

Há obras que - sejam elas filmes, livros ou, até, músicas -, têm o condão mágico de nos abrir os olhos e de nos fazer ver cenários que desconhecíamos ou perante os quais gostávamos de virar a cabeça.

O documentário cuja capa aqui se mostra é, precisamente, um trabalho que se enquadra na categoria de coisas que deveriam ser de estudo obrigatório por todos os cidadãos. Tal como as vacinas que tomamos a contragosto, também determinadas obras nos deviam ser impostas como forma de nos vacinar contra muitas ideias feitas que por aí andam e cujos defensores e promotores alegremente se passeiam por entre nós, quantas vezes com estatuto de vedetas fashion. De que falo eu? Falo de "The Soviet Story", um documentário da autoria do lituano Edvīns Šnore e patrocinado pelo Parlamento Europeu, que versa sobre a União Soviética e a sua colaboração activa com a Alemanha Nazi.

"The Soviet Story" é mais do que um murro no estômago, é um grito desesperado de apelo à verdade histórica e ao rasgar desse véu romântico com que a nossa sociedade gosta de cobrir os "feitos" do Comunismo. A história que Šnore nos conta, constantemente assente em imagens reais das décadas de 30 e 40 é a da cooperação entre nazis e comunistas para a invasão da Polónia, da forma como as antenas russas guiaram os bombardeiros alemães; do empréstimo de uma base naval no Báltico para que os nazis lançassem a invasão da Noruega; da entrega de judeus às SS por parte do NKVD; dos encontros prazenteiros e jantares de gala entre oficiais alemães e soviéticos; da ocupação e reutilização dos campos de concentração nazis por parte da máquina repressiva comunista; das bárbaras experiências médicas feitas em prisioneiros políticos; das semelhanças ideológicas entre nazis (nacional-socialistas) e comunistas (socialistas); dos paralelismos gráficos, artísticos e políticos entre as duas ditaduras; da formação que os assassinos nazis tiveram junto de assassinos soviéticos; dos massacres perpretrados pelo NKVD; do genocídio da população ucraniana a mando de Estaline e de tantos outros factos monstruosos que continuam a serem ignorados ou apelidados de merros "erros".

"The Soviet Story" não é uma coisa fácil de ver: exige vontade de nos confrontarmos com a realidade cruel e de nos prepararmos para mudar a nossa maneira de estar relativamente a muita coisa, nomeadamente à constante política de dois pesos e duas medidas no tratamento dos dois extremos do espectro político. É o conhecimento da História enquanto acto de libertação e de derrube de preconceitos, é o ganhar da sabedoria que nos distancia e permite ser frios na análise do mundo em que vivemos.

Repito: um trabalho como este devia ser transmitido nas televisões públicas de todos os países democráticos; devia ser mostrado a toda a população estudantil e, finalmente, devia servir de base a uma definitiva discussão sobre o lachismo com que a Democracia encara a existência de formações políticas baseadas em teorias que produziram as alucinantes espirais de violência e desumanidade que foram (e são) os regimes comunistas um pouco por todo o mundo. Voltarei a este assunto mais tarde mas é absolutamente notável como é que se gasta tanto tempo com pequenos furúnculos incompetentes como o PNR e se passa completamente ao lado do facto de 8% dos eleitores portugueses votarem num partido (PCP) cujos dirigentes apelidavam a União Soviética de "Sol na Terra", o mesmo sol que queimou cerca de vinte milhões de vidas (só na URSS)...

Vejam o documentário e assumam as suas consequências.

P.S. - dizem que o filme está aqui

Por falar em jornalistas e tugas...

Por falar em jornalistas e tugas: esta é a página de internet do Jornal "A Bola", na manhã seguinte a Portugal se apurar para o Mundial 2010.

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