O escândalo está instalado entre as pessoas "de coração": três dias depois do terramoto no Haiti um navio de cruzeiro da Royal Carabbean atracou numa estância balnear no norte da ilha e fez uma escala de pouco menos de 24h. Segundo o jornal Público, um passageiro "habitual" terá dito qualquer coisa como...Já era difícil alguém sentar-se a fazer um piquenique sabendo que haitianos estavam ali ao pé a passar fome. Não consigo imaginar como pode alguém agora engolir um hambúrguer naquela praia
Saltando sobre a estranha (mas invejável) condição de passageiro "habitual", o que me deixa perplexo é este básico e falso moralismo que leva as pessoas a encararem como algo de condenável o facto de as estruturas "vivas" continuarem precisamente assim e não se remeterem a um luto estéril que só teria como consequência agravar a já penosa situação do país acrescentando à fome, doença e miséria generalizadas, o desemprego dos sobreviventes.
Os moralistas chocam-se com a frieza dos negócios e com o aparente desdém com que os privilegiados que podem andar a fazer cruzeiros pelas Caraíbas encaram a situação no Haiti. Só que cada barco que atraca para que uns milhares de "barrigudos" rebolem para o cais para se irem empaturrar de hamburgueres (lamenta-se que seja esse o horizonte gastronómico do passageiro "habitual"), comprar missangas e tirar fotografias a uma qualquer beleza natural, representa a garantia de que centenas ou milhares de haitianos não terão de passar fome e ir pedinchar às ONG's e exércitos estrangeiros umas embalagens de qualquer coisa que os impeça de se tornarem em versões mais ou menos reais do mais conhecido produto nacional: os mortos-vivos.
Os falsos moralismos são assim: apanham-se facilmente na rede de demagogia que tecem.





