
Quando o antigo diretor da Cinemateca morreu (João Bénard da Costa), vi-lhe ser atribuída uma frase de que nunca mais me esqueci: "As pessoas não vão ao cinema para se divertirem!". É uma frase lapidar, categórica, taxativa, com toda a força que têm os juízos incontestáveis e as máximas bíblicas. "As pessoas não vão ao cinema para se divertirem!". Fiquei na dúvida sobre se o falecido cinéfilo pretenderia dizer que as pessoas que efetivamente vão ao cinema, na realidade, não sabem o que lá estão a fazer ou se o fazem por uma qualquer espécie de masoquismo. Isto porque, atendendo à enorme diversidade de material cinematográfico que passa nas nossas salas, é bem possível que uma grande parte das películas tenha, como declarado objetivo, divertir os espetadores. Sendo esses, muito provavelmente, os filmes mais populares, concluo que, ou Bénard da Costa estava enganado ou aquela gente toda anda alienada. A "inteligentzia" local defenderá energicamente a segunda hipótese, com todo o fervor e agressividade com que geralmente trata as subespécies sociais que divergem dos seus gostos mas a dúvida impõe-se no meu espírito: porque irão as pessoas ao cinema?
De acordo com aqueles que assumem saberem pensar, o cinema não é um divertimento mas sim um meio de confrontar o ser humano com as grandes questões da humanidade: a incessante busca pela compreensão do sentido da vida, o drama, a tragédia, o horror... Só isso - a necessidade de se fazer açoitar com a exposição das misérias humanas -, poderá fazer valer a pena uma ida ao cinema e a compra de um bilhete. Ora, se não se importam, eu prefiro ter essas coisas todas de graça... Mas, isto sou eu e uns quantos milhões que, cansados de no dia-a-dia levarem e sentirem na pele os aspetos menos prazenteiros da sociedade, gostam de se enterrarem nas cadeiras do cinema com a displiscência de quem apenas pede "agora, divirtam-me".
Sim, eu vou ao cinema para me divertir. E se esse herético estado de alma é conseguido através da contemplação lasciva das partes pudibundas de uma qualquer ninfa de Leste ou de uma erupção sanguínea no pescoço de algum infeliz que passou no lado errado da cidade ou, ainda, da tortuosa torrente verbal de um inadaptado cidadão urbano, isso é cá comigo e não me sinto na mínima obrigação de justificar as minhas vontades e apetites perante uma espécie de autonomeados juízes do gosto e da razão.
O problema é que, para alguns, a única forma de estar na vida é uma espécie de talibanismo cultural feito do achincalhamento da diversidade e do enaltecimento de correntes minoritárias tidas como as únicas e puras demonstrações do intelecto, do génio e da capacidade de realização. Tal como os radicais afegãos, também aquilo a que a vox populi convencionou chamar (erradamente) os "pseudo-intelectuais", utiliza processos que radicam na assumida intolerância para com formas de estar que fujam ao estabelecido como aceitável e recomendável. A menorização dos adeptos de estilos diferentes, a construção de "ídolos" inatacáveis, o estabelecimento de "sábios" que encarnam um papel quase sacerdotal de interpretação dos símbolos, o assalto ao poder através da colocação em lugares-chave de gente de confiança que assegure a distribuição "correta" de subsídios, tudo isso evoca pela enésima vez os exemplos elitistas (no pior sentido da palavra) que, nos mais diversos setores, as sociedades sempre produziram.
António Pedro Vasconcelos cometeu recentemente um pecado capital: realizou um filme "mainstream". O significado do americanismo é o de uma película cuja única intenção é divertir o espetador, fazê-lo passar uma hora e meia despreocupadamente, rindo-se aqui e ali das peripécias das personagens, tudo numa "boa onda". Como quem faz um disparate tem tendência para fazer logo dois ou três (e o pobre Vasconcelos é um pecador de longa data), o realizador ainda se deu ao trabalho de, numa
entrevista ao suplemento cultural Ípsilon (jornal Público), defender a sua dama recorrendo a argumentos como a necessidade da existência de uma corrente de cinema "comum" como base de uma indústria nacional do audiovisual. E fê-lo vertendo uma catadupa de referências enciclopédicas próprias de quem faz do Cinema a sua profissão e paixão. Os puristas da arte não gostaram e desdobraram-se em ataques quase invariavelmente agressivos com o objetivo de provar que o pobre do António Pedro não passa de um infeliz com pretensões populistas que não percebe nada de cinema e do seu papel fundamental no agitar das consciências. O público - inculto e inpreparado -, acorreu às salas para dar ao moderno cinema português mais um êxito de bilheteira o que, à escala nacional, significa que as receitas nem sequer dão para pagar as despesas, quanto mais lucro. Não há problema porque o Estado (ou seja, todos nós) aguenta com o prejuizo. Mas este - o prejuizo -, é um devorador de recursos. Num país onde os fundos são escassos e tendem a ser mal aplicados, a guerra pelo subsídio é mais do que uma necessidade: é um modo de vida. Vasconcelos e os que seguem a sua maneira de pensar estão em desvantagem: lutam contra o preconceito instalado nas estruturas do poder (geralmente dominadas pelos "autores") e, numa segunda frente, contra o resultado da atividade "artística" destes junto do público e que se reflete numa desconfiança generalizada face aos produtos nacionais.
Há que dar valor a Vasconcelos e a vários outros que, com mais ou menos qualidade, tentam afirmar-se num mercado demasiadamente restrito cujos vícios não são da sua culpa.

Os detratores do cinema "popular" refugiam-se no habitual maniqueísmo de quem sente a necessidade de jogar à defesa: eles, os bons, os autores, os puros, contra os outros, os populistas, os vendidos, os "americanos", os sem qualidade. Nesta cegueira, e com a autoridade que lhes dá o controlo dos fundos e da crítica, rejeitam liminarmente a hipótese de uma espécie de classe média cultural cujos interesses sejam capazes de abarcar um largo espectro de interesses e tendências nas quais, umas vezes, o seu trabalho cabe e, muitas outras, não. Não há meio termo quando toca a classificar a produção cultural: tudo quanto pretenda atingir o grande público é mau. Os melhores músicos são sempre os menos conhecidos. Os melhores trabalhos são sempre os iniciais (depois, toda a gente se torna comercial). Os melhores livros são os menos lidos. Os melhores filmes são os que menos espetadores têm. Os melhores pintores são os que ninguém compra. As melhores praias são aquelas onde ninguém vai. Os melhores restaurantes são os mais escondidos. Tudo tem de ser visto à luz de quem prefere o lusco-fusco do exclusivismo, dos "eleitos", dos pequenos meios propiciadores de "guias" iluminados. O público é a ralé, a massa anónima, chata, que acha que tem o direito de exigir melhor aplicação dos fundos que ela gera, que crê na fantasiosa ideia de que o povo tem direito a uma opinião e de que o bom gosto pode ser coisa de muitos. Uma piolheira, diria D. Carlos.
Nós, a maltosa que teima em não se enquadrar nos confortáveis estereótipos contruídos pelos representantes da intelectualidade, que abandona as salas quando o "mestre" Oliveira põe a mulher a cantar ou larga a câmara num infindável grande plano enquanto vai beber um café mas que, apesar de tudo, gosta de cinema europeu e quer ver filmes portugueses; que se irrita com o miserabilismo decadente de um Pedro Costa ou a alucinação (felizmente terminada) de um João César Monteiro mas que não perde a oportunidade de ver filmes independentes e gosta de visões alternativas do mundo; nós que nos deixamos levar com um sorriso pelas mamas da Soraia Chaves ou as piadas do Markl mas que devoramos Saramago e apreciamos poesia; nós que consumimos MacDonald's, detestamos caviar mas gostamos de um requintado tinto... nós, os "outros", os que não existem, somos tantos que se torna insuportável aturar o desprezo parolo, vaidoso e pretencioso de uns quantos que se acham no supremo direito de ditar o que é pensar, o que é o gosto, o que é a arte e fazem-no quase sempre através do rebaixamento do próximo, da multidão de próximos que os rodeia mas à qual negam olimpicamente a simples existência enquanto decisores culturais.
Lá onde estiver, a bénardiana alminha deve rogar as mais infernais pragas ao "traidor" Vasconcelos. Traidor sim, que atenta contra as máximas da arte, que julga poder fintar com os seus tiques popularuchos os ante, pró, neo, proto e mais não sei quantas qualidades de realismos que a França e a Itália nos deram e que o monstro gosta de invocar em impossível defesa das suas películas de cinema de supermercado.
Pobre Vasconcelos que quer fazer fitas e acaba a comentar as que os outros fazem em programas desportivos na televisão... De tão vulgar que a criatura é até tem gosto em pertencer ao mais ordinarote dos clubes nacionais (porque é o mais popular). Se ao menos fosse do Sporting, ainda se lhe podia perdoar a devoção à bola mas não, tinha de ser lampião. Do homem nada se aproveita: as fitas, o clube, o apelido de má memória. Até a pronúncia provinciana o patife insiste em manter. E aquela coisa de ser tão alto, só pode ser mania das grandezas...
Venha o próximo filme. Os cães ladram mas não mordem (desde que lhes dêem um osso).