Conversa de informático (2)

"(...) um sistema de ticketing para fazer o tracking dos issues (...)"
Jardim da biblioteca municipal, no Palácio Galveias (Lisboa)

Perguntas essenciais

As mulheres vegetarianas, quando amamentam, dão leite de soja?

Pobre Vasconcelos...


Quando o antigo diretor da Cinemateca morreu (João Bénard da Costa), vi-lhe ser atribuída uma frase de que nunca mais me esqueci: "As pessoas não vão ao cinema para se divertirem!". É uma frase lapidar, categórica, taxativa, com toda a força que têm os juízos incontestáveis e as máximas bíblicas. "As pessoas não vão ao cinema para se divertirem!". Fiquei na dúvida sobre se o falecido cinéfilo pretenderia dizer que as pessoas que efetivamente vão ao cinema, na realidade, não sabem o que lá estão a fazer ou se o fazem por uma qualquer espécie de masoquismo. Isto porque, atendendo à enorme diversidade de material cinematográfico que passa nas nossas salas, é bem possível que uma grande parte das películas tenha, como declarado objetivo, divertir os espetadores. Sendo esses, muito provavelmente, os filmes mais populares, concluo que, ou Bénard da Costa estava enganado ou aquela gente toda anda alienada. A "inteligentzia" local defenderá energicamente a segunda hipótese, com todo o fervor e agressividade com que geralmente trata as subespécies sociais que divergem dos seus gostos mas a dúvida impõe-se no meu espírito: porque irão as pessoas ao cinema?

De acordo com aqueles que assumem saberem pensar, o cinema não é um divertimento mas sim um meio de confrontar o ser humano com as grandes questões da humanidade: a incessante busca pela compreensão do sentido da vida, o drama, a tragédia, o horror... Só isso - a necessidade de se fazer açoitar com a exposição das misérias humanas -, poderá fazer valer a pena uma ida ao cinema e a compra de um bilhete. Ora, se não se importam, eu prefiro ter essas coisas todas de graça... Mas, isto sou eu e uns quantos milhões que, cansados de no dia-a-dia levarem e sentirem na pele os aspetos menos prazenteiros da sociedade, gostam de se enterrarem nas cadeiras do cinema com a displiscência de quem apenas pede "agora, divirtam-me".

Sim, eu vou ao cinema para me divertir. E se esse herético estado de alma é conseguido através da contemplação lasciva das partes pudibundas de uma qualquer ninfa de Leste ou de uma erupção sanguínea no pescoço de algum infeliz que passou no lado errado da cidade ou, ainda, da tortuosa torrente verbal de um inadaptado cidadão urbano, isso é cá comigo e não me sinto na mínima obrigação de justificar as minhas vontades e apetites perante uma espécie de autonomeados juízes do gosto e da razão.

O problema é que, para alguns, a única forma de estar na vida é uma espécie de talibanismo cultural feito do achincalhamento da diversidade e do enaltecimento de correntes minoritárias tidas como as únicas e puras demonstrações do intelecto, do génio e da capacidade de realização. Tal como os radicais afegãos, também aquilo a que a vox populi convencionou chamar (erradamente) os "pseudo-intelectuais", utiliza processos que radicam na assumida intolerância para com formas de estar que fujam ao estabelecido como aceitável e recomendável. A menorização dos adeptos de estilos diferentes, a construção de "ídolos" inatacáveis, o estabelecimento de "sábios" que encarnam um papel quase sacerdotal de interpretação dos símbolos, o assalto ao poder através da colocação em lugares-chave de gente de confiança que assegure a distribuição "correta" de subsídios, tudo isso evoca pela enésima vez os exemplos elitistas (no pior sentido da palavra) que, nos mais diversos setores, as sociedades sempre produziram.

António Pedro Vasconcelos cometeu recentemente um pecado capital: realizou um filme "mainstream". O significado do americanismo é o de uma película cuja única intenção é divertir o espetador, fazê-lo passar uma hora e meia despreocupadamente, rindo-se aqui e ali das peripécias das personagens, tudo numa "boa onda". Como quem faz um disparate tem tendência para fazer logo dois ou três (e o pobre Vasconcelos é um pecador de longa data), o realizador ainda se deu ao trabalho de, numa entrevista ao suplemento cultural Ípsilon (jornal Público), defender a sua dama recorrendo a argumentos como a necessidade da existência de uma corrente de cinema "comum" como base de uma indústria nacional do audiovisual. E fê-lo vertendo uma catadupa de referências enciclopédicas próprias de quem faz do Cinema a sua profissão e paixão. Os puristas da arte não gostaram e desdobraram-se em ataques quase invariavelmente agressivos com o objetivo de provar que o pobre do António Pedro não passa de um infeliz com pretensões populistas que não percebe nada de cinema e do seu papel fundamental no agitar das consciências. O público - inculto e inpreparado -, acorreu às salas para dar ao moderno cinema português mais um êxito de bilheteira o que, à escala nacional, significa que as receitas nem sequer dão para pagar as despesas, quanto mais lucro. Não há problema porque o Estado (ou seja, todos nós) aguenta com o prejuizo. Mas este - o prejuizo -, é um devorador de recursos. Num país onde os fundos são escassos e tendem a ser mal aplicados, a guerra pelo subsídio é mais do que uma necessidade: é um modo de vida. Vasconcelos e os que seguem a sua maneira de pensar estão em desvantagem: lutam contra o preconceito instalado nas estruturas do poder (geralmente dominadas pelos "autores") e, numa segunda frente, contra o resultado da atividade "artística" destes junto do público e que se reflete numa desconfiança generalizada face aos produtos nacionais.

Há que dar valor a Vasconcelos e a vários outros que, com mais ou menos qualidade, tentam afirmar-se num mercado demasiadamente restrito cujos vícios não são da sua culpa.

Os detratores do cinema "popular" refugiam-se no habitual maniqueísmo de quem sente a necessidade de jogar à defesa: eles, os bons, os autores, os puros, contra os outros, os populistas, os vendidos, os "americanos", os sem qualidade. Nesta cegueira, e com a autoridade que lhes dá o controlo dos fundos e da crítica, rejeitam liminarmente a hipótese de uma espécie de classe média cultural cujos interesses sejam capazes de abarcar um largo espectro de interesses e tendências nas quais, umas vezes, o seu trabalho cabe e, muitas outras, não. Não há meio termo quando toca a classificar a produção cultural: tudo quanto pretenda atingir o grande público é mau. Os melhores músicos são sempre os menos conhecidos. Os melhores trabalhos são sempre os iniciais (depois, toda a gente se torna comercial). Os melhores livros são os menos lidos. Os melhores filmes são os que menos espetadores têm. Os melhores pintores são os que ninguém compra. As melhores praias são aquelas onde ninguém vai. Os melhores restaurantes são os mais escondidos. Tudo tem de ser visto à luz de quem prefere o lusco-fusco do exclusivismo, dos "eleitos", dos pequenos meios propiciadores de "guias" iluminados. O público é a ralé, a massa anónima, chata, que acha que tem o direito de exigir melhor aplicação dos fundos que ela gera, que crê na fantasiosa ideia de que o povo tem direito a uma opinião e de que o bom gosto pode ser coisa de muitos. Uma piolheira, diria D. Carlos.

Nós, a maltosa que teima em não se enquadrar nos confortáveis estereótipos contruídos pelos representantes da intelectualidade, que abandona as salas quando o "mestre" Oliveira põe a mulher a cantar ou larga a câmara num infindável grande plano enquanto vai beber um café mas que, apesar de tudo, gosta de cinema europeu e quer ver filmes portugueses; que se irrita com o miserabilismo decadente de um Pedro Costa ou a alucinação (felizmente terminada) de um João César Monteiro mas que não perde a oportunidade de ver filmes independentes e gosta de visões alternativas do mundo; nós que nos deixamos levar com um sorriso pelas mamas da Soraia Chaves ou as piadas do Markl mas que devoramos Saramago e apreciamos poesia; nós que consumimos MacDonald's, detestamos caviar mas gostamos de um requintado tinto... nós, os "outros", os que não existem, somos tantos que se torna insuportável aturar o desprezo parolo, vaidoso e pretencioso de uns quantos que se acham no supremo direito de ditar o que é pensar, o que é o gosto, o que é a arte e fazem-no quase sempre através do rebaixamento do próximo, da multidão de próximos que os rodeia mas à qual negam olimpicamente a simples existência enquanto decisores culturais.

Lá onde estiver, a bénardiana alminha deve rogar as mais infernais pragas ao "traidor" Vasconcelos. Traidor sim, que atenta contra as máximas da arte, que julga poder fintar com os seus tiques popularuchos os ante, pró, neo, proto e mais não sei quantas qualidades de realismos que a França e a Itália nos deram e que o monstro gosta de invocar em impossível defesa das suas películas de cinema de supermercado.

Pobre Vasconcelos que quer fazer fitas e acaba a comentar as que os outros fazem em programas desportivos na televisão... De tão vulgar que a criatura é até tem gosto em pertencer ao mais ordinarote dos clubes nacionais (porque é o mais popular). Se ao menos fosse do Sporting, ainda se lhe podia perdoar a devoção à bola mas não, tinha de ser lampião. Do homem nada se aproveita: as fitas, o clube, o apelido de má memória. Até a pronúncia provinciana o patife insiste em manter. E aquela coisa de ser tão alto, só pode ser mania das grandezas...

Venha o próximo filme. Os cães ladram mas não mordem (desde que lhes dêem um osso).

Vontade de chatear (16)

Contemplemos a obra deste artista: primeiro, estaciona num local onde é proíbido parar ou estacionar; segundo, estaciona junto a uma paragem de autocarro; terceiro, estaciona ocupando a totalidade do passeio.

Há muito que a Rua Filipe da Mata (junto à estação de Correios da "Bolsa") se transformou num perfeito caos de estacionamento, chegando a haver carros estacionados em quarta fila (!). Se a situação nunca foi perfeita, a abertura da estação dos CTT, ocorrida numa dinâmica - entretanto perdida -, que trouxe ao Bairro Santos a Bolsa de Lisboa (por pouquíssimo tempo), veio complicar imenso o estacionamento na zona. Isto, porque os carteiros (aprendi-o aqui), deslocam-se de carro particular para a estação e é nele que, depois, vão para as suas zonas de distribuição. Ou bem me lembro ou, antigamente, andavam de autocarro.

Bom, mas o estacionamento abusivo dos carros dos carteiros não é o tema aqui. O assunto desta mensagem (que já vai longa para a sua categoria) é o animal dono da carrinha que se vê na foto e que vem levantar a sempre pertinente pergunta: não se pode exterminar esta "gente"?

Se isto não é vontade de chatear os outros, é o quê?

Não abandone os animais!

Nunca abandone um animal, nem que seja uma pantufa...

Estoril-Sol: foi para isto?!

O título deste texto podia ser diferente, qualquer coisa do tipo "Como um monstro me estragou um passeio em Cascais". Julgo que até seria bem mais adequado ao que eu senti quando, há uma semana, me armei em turista e fui laurear a pevide na nossa vila "bem". Voltinha pela terra, visita à Casa das Histórias (recomenda-se em absoluto!), outra volta pelas ruas interiores da localidade e - como não podia deixar de ser -, a contemplação da famosa Baía de Cascais (com ou sem Delfins), ali juntinho à Cidadela.

Ao chegar junto ao forte, reparo na nova estátua ali colocada: um enorme D. Carlos, em trajo marítimo, encostado à amurada de um iate e segurando numa mão uns binóculos. A peça, em si mesma, não merece nem elogios, nem críticas. É daquela estatuária que não compromete (só talvez pelo tamanho pouco natural) e, republicanismos à parte, o defunto bem que merece uma homenagem na "sua" Cascais. Mas, pobre do monarca assassinado, como se não lhe bastasse terem-no levado dos prazeres da vida antes de tempo, agora ainda o sentenciam a contemplar ad aeternum todo o esforço das gerações atuais em destruir a bonita paisagem que aristocratas e plebeus se habituaram a apreciar.

Mirar a baía é apercebermo-nos do contínuo desvario imobiliário que corrói a marginal, lhe retira o encanto e torna a Linha de Cascais em apenas mais uma floresta de tijolo e cimento, tão incaracterística como é qualquer agloremado urbano feito a pensar no lucro da especulação imobiliária.

Mas, se há coisas que ainda se suportam, outras existem que provocam em nós um sentimento de revolta tão mais forte quanto é perfeitamente evidente que nada nem ninguém se preocupa em travar o monstro que devora identidade e paisagem num só movimento. O caso da demolição do Hotel Estoril-Sol é sintomático. Disseram-nos que a destruição do ícone da Linha se impunha por questões ambientais: era um volume exagerado, desfeava a paisagem, não tinha a ver com a envolvente... Tudo argumentos mais ou menos defensáveis que poderiam ser bondosamente aceites numa sociedade equilibrada. Há muito que me tinha conformado com o desaparecimento daquele prédio que, para mim, sempre ali tinha estado e era tão parte do eixo Estoril-Cascais como qualquer outra coisa. Vi o edifício ir sendo deitado abaixo e aprendi a aceitar o facto. Ponto final... mas não parágrafo. Porque, afinal, a intenção de acabar com o Estoril-Sol nunca foi a requalificação da paisagem mas sim a especulação imobiliária e os lucros a ela associados. Afinal, a excessiva volumetria do hotel não era problema nenhum. Afinal, o aspeto "incaracterístico" do imóvel (que era, apesar de tudo, a marca de uma época que já não volta) não tinha nada a ver com a verdadeira questão porque, para meu enormíssimo espanto, no local onde se erguia orgulhosamente um dos mais conhecidos hotéis do país, está, agora, um horrível monstro de vidro maior do que era o demolido hotel, ainda mais incaracterístico, ainda mais deslocado da paisagem, exercendo ainda mais pressão sobre a marginal e constituindo um perfeito aborto visual na panorâmica da baía!

Passar na estrada é ter a sensação de que aquela "obra de autor" (Gonçalo Byrne) nos vai esmagar, que um daqueles "contentores" empilhados vai cair e reclamar para si o domínio da passagem costeira. É uma obra que é um atentado à paisagem, ao bom-gosto, ao equilíbrio urbano. Visto a partir de Cascais, parece que alguém se lembrou de juntar ali umas peças de Lego e chamar-lhe um edifício de prestígio.

O belíssimo casarão do Tribunal, ao longe, praticamente já não se nota, devido ao tom escuro do mastodonte envidraçado que não permite o contraste que antigamente existia entre os telhados do "chalé" e o cimento do Estoril-Sol.

Perdeu-se uma identidade de Linha, perderam-se referências arquitetónicas, perdeu-se "charme" e, até, alguns elementos artísticos. Tudo para que no seu lugar nascesse mais uma coisa vulgar (o que é diferente de dar nas vistas), recheada de banalidade decorativa pronta-a-usar e pronta a contentar o pretenciosismo de uns e a falta de valores estéticos de outros.

E o massacre não irá parar ali, bastando estar com atenção à quantidade de casarões antigos que fariam as delícias de qualquer pessoa com o mínimo de gosto pelo património e que estão entregues ao abandono e à degradação, à espera do melhor momento para serem dados como perdidos e poderem ser entregues à máfia do betão para que ali nasçam mais condomínios de "prestige", mais "residences", mais "gardens"... enfim, mais merda da qual já estamos fartos!

Lá no alto onde está, D. Carlos, impossibilitado de desviar o olhar, certamente não deixará de ruminar com os seus botões que a "piolheira" continua igual a si mesma...

A voz do povo

Na rua, uma cadela São Bernardo vê-me e dirige-se para mim, de forma calma mas decidida. A dona puxa-a (com esforço, claro) enquanto diz "Anda cá, não vais a ninguém!". O esforço foi inglório porque o animal lá chegou perto de mim de modo a que eu lhe fizesse a festinha que aquela cabeçorra pedia. Olho para a dona (que continuava no seu esforço) e deixo sair um "É simpática..." em tom de admiração pela atitude da mulher. Que responde a criatura? "Pois... é uma coisa!".

"Pois... é uma coisa!" - só faltou acrescentar: "calcule que ela é simpática com as pessoas, a estúpida!".

Lá dizia Sócrates (o original): "Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto do meu cão".