No momento em que o país ainda digeria o choque da morte de José Saramago, num gesto de profunda indignidade, Francisco Louçã antecipou a polémica da ausência do Presidente da República das cerimónias fúnebres do escritor. O dirigente bloquista, dentro do seu estilo de extremista político, desrespeitou a memória do recém-falecido ao aproveitar-se desta para um ato de pura propaganda política.Muito se fala da falta de ética da classe política. Este caso merecia fazer parte dos manuais de estudo do problema. Louçã, com a astúcia própria de quem vive da criação de factos políticos, sabia que Cavaco Silva dificilmente colocaria de parte o orgulho pessoal para encarnar o papel de Chefe de Estado frio e formal e assim interromper as suas férias para vir pessoalmente homenagear uma pessoa que abertamente manifestava por ele repúdio político (e - porque não? -, pessoal). Sabendo disto, Louçã antecipou-se e, em vez de esperar pelo fim do luto para vir a público criticar o PR, resolveu pressionar antecipadamente Cavaco Silva. Naturalmente que, a partir desse momento, o PR estava entre a espada e a parede: se por um lado o homem cavaco Silva recusaria prestar homenagem a um escritor que lhe era antipático, por outro lado, o Presidente da República não poderia dar a impressão de andar a fazer a vontade a um dirigente partidário que, manifestamente, fala demais. Desse por onde desse, Cavaco Silva já iria ficar mal na fotografia.
Mas, Francisco Louçã não é o único responsável por este lamentável caso. O próprio Aníbal Cavaco Silva, agora PR mas amanhã candidato a um segundo mandato em Belém, demonstrou uma inabilidade política que raia a estupidez. Enquanto Presidente da República, e perante a inegável dimensão de José Saramago, cabia ao Palácio de Belém aderir imediatamente ao processo de homenagem ao escritor. A Presidência da República, enquanto representação da Nação e enaltecedora das suas qualidades, não tem de se refugiar em desculpas esfarrapadas assentes em formalismos bacocos como a inexistência de relações pessoais entre o falecido e o Presidente ou o protocolar envio de coroas de flores ou, ainda, em ridículas justificações como a da promessa de férias com os netos. O mesmo homem que se passeia pelo país chamando a atenção para os "êxitos" escondidos da nossa economia acha que não vale a pena prestar pessoalmente homenagem ao maior vulto da cultura nacional e "exportador" de milhões de livros. Em ano de centenário do regime, prova-se que, por mais que se queira enobrecê-lo, ele ainda assenta em homens que, enquanto tal, estão sujeitos às paixões e aos desvarios próprios da luta política e que, ocasionalmente, se manifestam da pior forma hipotecando a credibilidade das instituições junto dos cidadãos. Enquanto Chefe de Estado e símbolo da Nação, Cavaco Silva cometeu uma falha grosseira e imperdoável; enquanto candidato presidencial, deixou-se cair - por culpa sua -, numa armadilha que será explorada da forma mais despudorada pelos seus adversários políticos. E, admito, que com bastante razão. Tantos anos depois, Cavaco Silva continua a mastigar a mesma fatia de bolo-rei que já lhe custou umas eleições e que talvez lhe venha a custar outras.
Finalmente, o desrespeito a José Saramago não ficaria completo sem a participação desse cancro nacional que é a nossa Comunicação Social. Os nossos jornalistas continuam a ter perante a política (e a sociedade em geral) a atitude de umas velhas alcoviteiras cujo horizonte de interesses se esgota na criação/amplificação de polémicas estéreis e quezílias ridículas. O jornalismo nacional está transformado numa máquina de carneirização da população com a qual joga a seu belo prazer, ao sabor das ondas de interesses económicos e políticos. A irresponsabilidade, a insensibilidade, a falta de vergonha é quase total no nosso meio jornalístico. Os Franciscos Louçãs desta vida saberão sempre que podem contar com a espinha torta dos nossos "media" e estes, por sua vez, têm a certeza de que o seu trabalho de sapa na destruição das instituições será recompensado.
Saramago não merecia isto!



